Sexta-feira da Paixão do Senhor: Contemplamos e ouvimos o que o Senhor, na sua morte, deseja nos falar

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Ele tomou o vinagre e disse: Tudo está consumado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito”.

(Jo. 18,30)

Com a Celebração da Paixão do Senhor – no dia em que “Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado” (1Cor 5,7) –, a Igreja celebra o mistério da Cruz gloriosa daquele que, “derramando o seu sangue, instituiu o mistério da páscoa” (Oração do dia). A Igreja recorda o seu nascimento sabendo que assim como Eva nasceu do lado de Adão, a Igreja nasce do lado aberto de Cristo na Cruz.  Deste modo, compreendemos que a Igreja nasce silenciosa, prostrada, ajoelhada, em oração (como nos ritos de abertura da celebração de hoje), chamada anunciar a paixão de seu Senhor (na Liturgia da Palavra proclamada), intercedendo pela salvação do mundo inteiro (na Oração Universal) e adorando a Cruz que representa seu Salvador.

Na segunda leitura (Hb. 4,14-16;5,7-9), o autor da Carta aos Hebreus, proclama que Jesus Cristo, pela sua obediência e confiança, pelas suas súplicas, sofrimentos e orações tornou-se o Sumo Sacerdote definitivo. O profeta Isaías, na primeira leitura (Is. 52,13-15;53,1-12), ao narrar o sofrimento do Servo de Javé que prefigura a missão do Messias revela-nos em seu oráculo que Jesus foi para a cruz “como um cordeiro levado ao matadouro – Ele não abriu a boca” (Is. 53,7). Mas o Senhor nos ofereceu as suas últimas palavras, já pregado na Cruz. A Igreja guardou essas “Sete Palavras” com profundo respeito e devoção. São sete expressões ditas por Jesus na Cruz e recolhidas pelos evangelistas. Nestas expressões é revelado quem é Jesus e qual a sua missão. Pois, expressam as suas maiores preocupações. (Reflitamos: quais serão as minhas preocupações e recomendações no momento de minha entrega final a Deus?)

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem.” (Lc. 23,34) Jesus, sempre nos revelou o perdão do Pai. Nos encontros com os pecadores revelou a misericórdia redentora de Deus. E na Cruz, Jesus mostrou que é possível viver a maior exigência da fé cristã: o perdão incondicional a todos. O perdão revela a dignidade e humanidade no coração de quem perdoou e sendo oferecida a quem feriu. Na vida cotidiana, quando nos decepcionarem, nos traírem, nos abandonarem, nos humilharem e caluniarem, contemplemos o Senhor dilacerado na Cruz, dizendo: “Pai, perdoai-lhes.”

“Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc. 23,43). Jesus morre entre dois ladrões. Ali Ele é o único inocente e justo, todavia não assume o papel de condenador, mas oferece uma nova chance de salvação. Jesus revela uma promessa que muitos precisam ouvir, sobretudo aqueles que sofrem carregando pesadas cruzes injustas e vivem vidas devastadas pela dor, pela solidão, dúvida ou humilhação.

 “Mulher, eis o teu filho; filho, eis a tua mãe” (Jo. 19,26): O sim dado por Maria no momento da Encarnação repercute até à Cruz. Sua resposta a acompanhou durante toda a vida. Jesus, crucificado e desprovido de tudo, nos oferece um tesouro. Entrega-nos sua mãe para que seja presença cuidadora e consoladora.

“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46) Aqui contemplamos todo o aniquilamento do Senhor. É aquilo que São Paulo afirma: “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fil. 2,8). Jesus sofreu todo o aniquilamento moral, psicológico, afetivo, físico, espiritual, pois Ele “foi castigado por nossos crimes e esmagado por nossas iniquidades.” (Is. 53,5).

“Tenho sede…” (Jo. 19,28) Jesus tinha sede de muitas coisas: Sede de fazer a vontade do Pai, de anunciar o Reino, de defender a vida, de servir, etc. Os santos afirmam que na Cruz, a sede que Jesus revela é na verdade a sede de Deus de salvar toda a humanidade. Hoje, muitos pelos quais ele derramou o seu sangue preciosíssimo, continuam vivendo no pecado, afastados do amor de Deus e da Igreja. Quantos nem sequer buscam à Missa aos domingos, não sabem o que é uma Confissão, não comungam, não rezam, enfim, vivem como se Deus não existisse?

“Tudo está consumado” (Jo. 19,30). Cristo proclama, com as poucas forças que lhe restam, para o universo que a dívida imposta pelo pecado está “paga”. Mesmo que aos olhos humanos sua morte pareça um fracasso total, na cruz tudo é pago e consumado. Nela, o Senhor mergulha nas trevas do sofrimento humano e ali revela a presença do Deus “compassivo e clemente e misericordioso” (Ex.34, 6-7 / Sl. 86, 15). Do alto da Cruz, Jesus manifesta a consciência que não viveu em vão. Sua vida frutuosa, consumada com amor, no amor e pelo amor, torna sua morte fecunda a ponto de fazer surgir vida em abundância.

“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc. 23,46) Só quem viveu intensamente a vida doada pode acolher a própria morte com paz, confiança, serenidade e abandono nos braços do Deus. Jesus morre como viveu: totalmente entregue na confiança ao Pai. Ele que foi as mãos do Pai atuando no mundo, agora entrega-se nos seus divinos braços. Jesus que viveu em divina comunhão com o Pai, no momento de intenso desespero, quando deveria abandonar a confiança por se sentir infinitamente desamparado, oferece todo seu Ser para ser acolhido por Deus Pai.

            Estas palavras, proferidas por Jesus nos levam a fixar os olhos em sua Cruz. Lembrando que só podemos crer Nele se estivermos dispostos enxergar todos os seres humanos que sofrem por causa do pecado no mundo em todas as épocas.

O que contemplamos na Cruz? A expressão da plena compaixão e comunhão de Deus com os sofredores. Ela aponta para Aquele que foi plena e permanentemente fiel ao Pai e ao seu Reino. A partir da Cruz de Jesus, descobrimos o sentido da sua existência.

Pe. Paulo Sérgio Silva

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito

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