Semana da Família: “Na fé, bebemos do leite materno”

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“A família, como vai?”. Ano passado, impelida por essa pergunta, a Igreja no Brasil, por meio de ações promovidas pela Pastoral Familiar e pelo Encontro de Casais com Cristo (ECC), dirigiu especial atenção e oração aos vocacionados à vida em família.

A pergunta, embora soe corriqueira, é oportuna; demonstra o zelo da Igreja, sobretudo aos pais e às mães, inseridos em tempos tão desafiadores e de uma tão grande falta de claros e sãos princípios, dentre eles o sentimento de pertença religiosa.

Sobre isso, uma declaração da escritora cearense Rachel de Queiroz, autora de “O Quinze”, um dos romances mais importantes da Literatura brasileira, serve de catequese. Tentando justificar a sua “ausência de fé”, ela disse, numa entrevista: “Na fé, bebemos do leite materno”. O repórter quis saber o motivo, e a autora esforçou-se por dizer que essa ausência era, necessariamente, mais social que singular. Nem era ateia, nem agnóstica. Apenas não tinha fé.  Como o ambiente no qual foi gestada e embalada não falasse em religião, menos ainda sobre fé, crescer indiferente a ambas foi quase natural. Quase.

A fim de fazê-la confessar ainda mais, o entrevistador a estimula com perguntas voltadas à infância e à juventude. Rachel, já contando noventa anos, acrescentou, com pesar: “Infelizmente, eu não tenho fé. Eu não tenho orgulho disso, tenho até vergonha, confesso com tristeza. Não tenho fé. Gostaria de ter. Quando eu passo por uma dor, é terrível você não ter um santo, uma coisa em que você se acolha”. Ela foi além: considerou “muito solitário” e “muito triste não ter fé”.

Embora cause espanto, essa confissão retoma a pergunta: “A família, como vai?”. E acrescenta outra, que também serve como apontamento: por que tantas crianças e tantos jovens crescem tão apáticos à ideia de Deus, de fé e de religião?

Em primeiro lugar, as crianças aprendem, no colo, o sentido da vida, como naquela canção do Padre Zezinho. A isso, a Psicologia chama de “socialização”, ou seja, o contato “face a face” com outras crianças e, claro e principalmente, com os adultos.

Em segundo lugar, os jovens formam a sua personalidade, quase sempre, amparados em valores apreendidos na infância. A isso, a Sociologia chama de “campo social”, ou seja, a escola, a família, a Igreja, os amigos e, nos últimos tempos, as redes sociais online. Um desses “campos” – consideram os estudiosos – exercerá sobre os jovens influência particular.

Isso é evidenciado, por exemplo, na própria Rachel de Queiroz. Assim como o ambiente “muito culto”, no qual ela cresceu, influenciou diretamente seu gosto pelas letras, assim também foi com a ausência de religião de seus pais.

Aqui, precisamente, cabe a reflexão: o que vincula as crianças e os jovens à Igreja, senão a própria família, senão o próprio ambiente onde crescem e estão inseridos?

Não basta apenas mandá-los à Igreja, por vezes resumida às aulas de catequese, como muitas famílias acreditam. É preciso acompanhá-los, é preciso manifestar o próprio desejo de ir, de estar, de permanecer, sobretudo “aos domingos e festa de guarda”, como um ato espontâneo, desobrigado.

Em outras palavras, “[…] compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito”, como orienta o Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia (numeral 29, capítulo 1).

Foi a ausência desses ritos, portanto, que fez Rachel de Queiroz intuir: “Na fé, bebemos do leite materno”. Esse “leite” é o que vemos, o que escutamos e o que presenciamos nas atitudes cotidianas de nossos pais e daqueles que nos cercam. Uma infância regada pela fé ajuda a crescer em “sabedoria e graça”. Uma adolescência e uma juventude regadas pela fé ajudam a assimilar – ou (re) significar – os valores apreendidos. E, neste percurso, vem o auxílio da Igreja com os seus sacramentos e o com o seu ensino, necessários e úteis à vida, quais sejam: a fé, a esperança, a caridade, a prudência.

“Quem tem uma ‘fezinha’, pequenininha que possa cultivá-la, águe, adube, faça tudo para a sua ‘fezinha’ render, porque é um dos dons que mais auxilia, que mais apoia. Quem não tem fé é uma pessoa infeliz, não tem aspirações. É muito ruim”. Ao dizê-lo, Rachel deixa uma lição preciosa: a transição da infância para uma maturidade serena depende do estímulo dos pais e, adiante, do cultivo dos filhos.

Por: Patrícia Mirelly, jornalista, ministra extraordinária da Eucaristia, membro da Legião de Maria e do Movimento Eucarístico Jovem (MEJ). 

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