Santidade: a vocação comum a todos os filhos e filhas de Deus

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HOMILIA DO 31° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

“Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas”. (Ap. 7,9)

Santidade: a vocação comum a todos os filhos de Deus

Amados irmãos e amadas irmãs,

Na casa do meu avô, lugar onde fui criado, catequizado e evangelizado, vivi rodeado de imagens sacras de santos, terços e livros de catequese e de teologia. Dentre tantos livros, um livro em especial sempre me acompanhou e sempre foi meu companheiro diário ao lado da Bíblia. Era um livro já amarelado pelo uso cotidiano e pelo tempo. Ele se chamava “Um Santo Para Cada Dia”. Esse livro reunia algumas biografias dos inúmeros santos que a fé católica viu brotar em sua jornada de anúncio do Evangelho ao longo desses dois mil anos de história do cristianismo e de história da Igreja. Fez-me perceber que a santidade ou a santificação não era algo de um grupo que havia recebido de Deus um benefício especial. Os relatos biográficos dos santos me fizeram perceber como pessoas comuns depositaram sua confiança na misericórdia divina e se mantiveram firmes no desejo de caminhar ao lado de Jesus Cristo permanecendo firmes nessa convicção, mesmo em meio às inconstâncias da vida diária que muitas vezes nos leva a oscilar entre momentos de alegria e profunda tristeza, esperança e desespero, fé inabalável e fragilidade de fé.

A liturgia da Palavra da solenidade de Todos os Santos, celebrada em meio ao Dia do Senhor, deseja nos lembrar de que a santidade não é um privilégio de alguns, mas a vocação comum a todos os seres humanos. Numa só festa, lembramo-nos de todos aqueles que abraçaram a fé e vivenciaram em suas vidas as Bem-aventuranças anunciadas por Jesus no Sermão da Montanha e não tiveram medo de alvejar suas vestes no sangue do Cordeiro, como nos fala a leitura do Livro do Apocalipse. Ao mesmo tempo em que nos regozijamos com os nossos irmãos que já estão na glória, sentimos a comunhão que nos une não apenas com todos que foram batizados em Cristo, mas também com aqueles homens do Antigo Testamento que hoje contemplam no céu a presença de Deus.

Para além das imagens que podem suscitar uma boa interpretação teológica, a Primeira Leitura, retirada do Livro do Apocalipse, apresenta-nos a esperança concretizada. João vê a santidade que foi plantada, regada, frutificada e colhida ao longo da história da salvação. As situações concretas da vida cotidiana são, às vezes, carregadas de sofrimento. Feliz é quem permanece fiel em momentos de angústia, de perseguição e de crise.

Em linguagem apocalíptica, feliz é quem alveja suas vestes no sangue do Cordeiro. Essa expressão significa assumir a veste nova do batismo em situação de perseguição, sofrimento e martírio, a ponto de se identificar com o Cristo crucificado. Os santos são aqueles, cuja consciência de pertença a Cristo é tão forte, que os leva a realizar tudo por amor a Deus. O que alimenta as suas ações é o amor; o mesmo amor ‘oblativo’ que moveu Jesus Cristo na oferta da própria vida na cruz. Os membros dessa inumerável multidão não estão mortos, mas vivos. Não são membros de um grupo fechado e elitista. Pertencem não somente a todas as nações, tribos, povos e línguas, como ainda a todas as religiões e confissões. Cada qual escutou, na vida, o apelo das Bem-aventuranças. Cada qual, segundo a sua vida e à sua maneira, respondeu ao convite do Senhor. Podemos dizer que, no Dia de Todos os Santos, a Igreja apresenta a humanidade reunida na unidade.

Por isso, na Segunda Leitura, ao escrever para uma de suas comunidades, o mesmo São João lembra aos seus membros e fiéis de que, pela filiação divina, todos nós recebemos o mesmo chamado: revelar ao mundo a santidade de Deus por meio de nossa própria santificação. Para João, se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Por isso, em Jesus e na sua Ressurreição, contemplamos já o futuro de todos que pertencem à família divina: ser semelhantes a Ele.

Mas como alcançar a santidade?  As bem-aventuranças apresentadas hoje são como um programa a ser seguido por quem almeja alcançar a coroa da santidade. Elas são um caminho de santidade que sintetiza o rosto do testemunho e do testamento espiritual do próprio Jesus de Nazaré. Cristo é a fonte da santidade dos cristãos. As Bem-aventuranças foram primeiramente vividas por Jesus e, por isso, Ele se tornou o critério pelo qual discernimos se estamos vivendo ou não de acordo com a vontade de Deus. Por isso, as Bem-aventuranças representam uma vida ética que, quando vivida com seriedade, é capaz de renovar as pessoas e transformar a sociedade, como o demonstra a vida de todos os santos.

Aos olhos do mundo hedonista, materialista, egoísta e que lucra com a guerra e a morte, ser pobre, suportar o sofrimento, privações e perseguições, ter fome e sede de justiça e ser defensor da paz não parece ser algo nobre ou admirável. Jesus, pelo contrário, proclama-os felizes. Ele os consola, alimenta-os, chama-os de filhos de Deus, e faze-os participantes do seu Reino.

A primeira e a última Bem-aventurança, por estarem regidas por verbos no tempo presente, simbolizam algo que já foi alcançado e que pertence a quem as vive: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” e “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus”. Elas alimentam a esperança e a perseverança de quem vive as outras Bem-aventuranças que estão regidas pelos verbos no tempo futuro. Para Jesus, o pobre não é apenas uma situação econômico-social, mas um valor religioso. Pobre é quem se apresenta diante de Deus com humildade, sem méritos pessoais, considerando a sua realidade de pecador e, portanto, necessitado do perdão divino e da misericórdia de Deus para ser salvo. Os que são perseguidos por causa da justiça, buscam uma sociedade diferente por meio da partilha e da solidariedade e, portanto, com melhores condições de vida para todos. Os que são perseguidos por causa da justiça são os mesmos pobres em espírito, pois ambos estão abertos para participar do projeto de Deus que é a construção de nova humanidade, baseada na justiça e na igualdade. E isso é o Reino de Deus.

Viver a santidade ou a bem-aventurança é um desafio para almas fortes e generosas. Afinal, não é fácil ser pobre em espírito e no coração diante de um mundo que glorifica o poder, o ter e o domínio sobre os outros. Também não é fácil ser manso em um mundo agressivo e violento; ter e manter o coração puro diante da corrupção e da ganância, buscar alcançar a paz enquanto tantos no mundo declaram a guerra.

Contudo, contrariamente àquilo que encontramos nas biografias embelezadas por acontecimentos místicos e sobrenaturais, os santos não foram perfeitos. Os santos foram pessoas em caminhada em direção à perfeição que se completa ao se alcançar “a maturidade, a estatura de Cristo em plenitude” (cf: Ef. 4,13).  São e foram peregrinos da vida cotidiana, a maior parte deles realizou feitos heroicos ou prodígios. Com certeza, temos alguns que produziram realizações espetaculares na história da Igreja. Mas muitos outros, e podemos dizer na sua maioria, são os santos da simplicidade e vida discreta que viveram a santidade a partir de sua vida em família e nos limites de sua própria vida de fé e que faleceram na discrição da santidade conhecida apenas por Deus. Mas todos unanimemente apresentam um rosto com traços de Cristo. Encontramos em cada um dos santos e em cada uma das santas o mesmo perfil de vidas que se deixaram formar, modelar e se transformar por Cristo.

A Santidade, como nos lembrou  o Papa Bento XVI, é a realidade de uma família ligada por profundos laços de solidariedade espiritual, que une os fiéis defuntos aos vivos que peregrinam no mundo. Um vínculo misterioso, mas real, alimentado pela oração e pela participação no sacramento da Eucaristia. No Corpo místico de Cristo, as almas dos fiéis superam a barreira da morte, intercedem umas pelas outras e realizam na caridade um íntimo intercâmbio de dons. É o que professamos no Credo sob o título de “Comunhão dos Santos”.

Assim, neste dia, a Igreja nos convida, aqui no plano histórico e material, a enxergar através do véu que nos separa do mundo transcendente e invisível, para que possamos antever o além para onde caminhamos: a perfeição e a plenitude do Corpo de Cristo, manifestada naqueles que já vivem os esplendores da intimidade com Deus; a felicidade de todos aqueles e aquelas que, como nós, caminharam e lutaram sobre a terra para edificar e fazer realizar o programa evangélico das Bem-aventuranças: amor, justiça e paz.

Roguemos a Maria Santíssima, aquela que permaneceu sempre fiel em seu “Sim” a Deus, confiando na Graça e na Misericórdia.  E que todos os Santos e todas as Santas que, na humildade, entregaram suas vidas ao serviço do anúncio do Evangelho, ajudem-nos a sempre mais confiar na Graça de Deus e a buscar também a mesma santificação por Cristo, com Cristo e em Cristo. Amém.

Padre Paulo Sérgio Silva

Pároco da Paróquia São Sebastião, em Mangabeira, distrito de Lavras – CE

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