Padre João Batista de Almeida, natural de Minas Gerais, reitor do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, São Paulo- SP, desembarcou neste sábado, 31, pela primeira vez em terras caririenses, trazendo consigo uma réplica da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, para deixar de lembrança na Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte- CE.
O Padre que veio para participar da Romaria de Finados, falou sobre a experiência da peregrinação enquanto um momento onde os fiéis devem se desprender da terra e entrar no céu, destacou a importância da espiritualidade dos Nordestinos e deixou uma mensagem de fé ao povo do Cariri.
A imagem foi entronizada na Basílica neste mesmo dia, após uma caminhada que teve início na Capela do Socorro. Os romeiros também recordaram nesta data o aniversário natalício do Monsenhor Murilo de Sá Barreto, grande incentivador das romarias em Juazeiro, que se vivo fosse estaria completando 85 anos.

Confira a entrevista na íntegra:
Árysson Magalhães (AM): O que motivou o senhor a vir participar da Romaria de Finados?
Pe. João Batista (PJB): Foi o encontro que nós tivemos de reitores de santuários esse ano. Fui convidado pelo Padre Cícero José para estar aqui, aceitei o convite por que é importante a gente sentir como outros santuários também estão trabalhando esse acolhimento e a mensagem que cada santuário tem. Cada santuário tem uma mensagem específica, embora todos trabalhem a Pessoa, a Obra, a Figura de Jesus, mas em cada um sobressai um elemento, no caso nosso de Aparecida, sobressai a participação de Maria dentro do mistério da encarnação e redenção.
AM: O que lhe chama atenção na espiritualidade do povo do Nordeste, em especial do povo de Juazeiro com a mística apresentada pelo Padre Cícero?
PJB: Aqui já tem um outro elemento que é o Sagrado Coração, que aliás tem tudo haver com o Ano da Misericórdia que nós vamos começar a vivenciar a partir dia 08 de dezembro. É o coração de Jesus cheio de amor pelo povo de Deus. É importante a gente sentir isso porque as características são muito próximas, mas existem elementos que são próprios daquele lugar, daquele povo. Cada povo tem um jeito, aqui por exemplo, tem a questão do chapéu, para nós lá (Aparecida) não tem chapéu, não se usa chapéu, mas aqui (Juazeiro), Bom Jesus da Lapa (Bahia), outros lugares usam, é uma característica regional, isso é muito importante, porque a fé do povo é um patrimônio que se tem, que ninguém acaba e nós precisamos cada vez mais encontrar mecanismos para a gente ajudar esse povo a expressar e a vivenciar essa fé.
AM: As romarias trazem uma realidade de fé do povo. As peregrinações a locais santos fazem parte dessa realidade, por exemplo, em Aparecida do Norte muitos fiéis se deslocam por quilômetros a pé até o santuário, e aqui na Diocese de Crato, em Juazeiro, muitos peregrinos sobem a pé a estrada que leva até o horto. Como explicar a importância da romaria para a vida do povo de Deus?
PJB: É a peregrinação! Essa expressão é muito forte, porque quando a gente anda a pé, geralmente nos primeiros momentos, nas primeiras horas a gente é muito falante, depois a fala vai diminuindo e o silêncio vai tomando conta. Quanto mais você anda, mais você vai entrando dentro de si mesmo, vai entrando dentro do ser de Deus e Deus vai entrando dentro de você. A experiência que nós temos de Aparecida é assim, os romeiros que caminham de mais longe, que caminham dias, as vezes semanas, eles chegam lá, parece que muito mais cheios de espiritualidade do que aqueles que passam a noite só caminhando. A noite claro, é um momento, são algumas horas e mesmo nessas horas dá para ter uma boa intimidade com Deus, mas parece que esse silêncio do caminhar e o corpo que vai se movimentando é rumo a um objetivo. Isso vai dando a pessoa um estado de espírito que ele vai se desligando da terra e ligando ao céu, é algo assim, o peregrinar é muito importante. Hoje em muitos lugares as pessoas dadas as facilidades de transporte, ônibus e outros meios não caminham muito e isso traz até um certo problema, porque as pessoas chegam no santuário ainda muito agitadas como muito preocupadas com outras coisas que não a oração. Uma dessas coisas por exemplo, é a questão da fotografia, hoje no santuário a gente vê quase todo mundo com um aparelho celular que também é máquina fotográfica e isso acaba, às vezes, desviando um pouco o sentido de estar ali, de estar no santuário, que é aquele momento de desprender da terra e entrar no céu. É essa a razão de ser da peregrinação.
AM: Em sua visita à Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, o senhor está deixando de presente uma imagem da padroeira do Brasil. Junto a essa imagem, qual a mensagem que o senhor deixa para os fiéis da região do Cariri?
PJB: É a mensagem que Nossa Senhora Aparecida trouxe para o povo brasileiro há 298 anos atrás, vai se completar 300 anos em 2017. A primeira mensagem é a mensagem do encontro. A imagem foi encontrada, ela deixou-se encontrar, podemos dizer pelos pescadores. Depois é um encontro com gente pobre, gente humilde, gente sofrida. Há quem diga até eram quase que semiescravos aqueles pobres pescadores e uma mensagem de esperança, porque após o encontro da imagem, a angústia dos pescadores que não conseguiam peixes acabou porque a pescaria foi abundante, depois a presença de Deus através dessa imagem na vida do povo. Os primeiros 30 anos a imagem passou na casa de um dos pescadores, Felipe Pedroso e depois na casa do seu filho. Esses 30 primeiros anos, a casa foi o santuário, depois foi que se fez a primeira capela. Então a mensagem da presença de Deus na vida do povo e a gente pode dizer também para nós hoje, a Nossa Senhora Aparecida é a esperança do povo brasileiro, ela tem a cor do povo, ela é uma imagem pequena, bem pequena para dizer que Deus tem uma preferência pelo povo “miúdo” e é uma imagem que nos convida a oração, as mãos postas numa postura oracional, ela convida o povo a rezar.





