Nas melhores lembranças, fica Monsenhor José

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Na noite do dia 21 dezembro de 2016, o cantor Maurício Jorge abriu caminho em meio à assembleia de fiéis na Igreja Matriz do Menino Jesus de Praga, no bairro Novo Juazeiro, em Juazeiro do Norte. Afinou o violão, ajustou a altura do microfone e começou a interpretar uma canção de sua autoria. “Nas minhas melhores lembranças – e sei que nas suas também – está Monsenhor José, amigo que, por nós, só fez o bem. Monsenhor José, teu nome é o pai de Jesus de Nazaré […]”. A letra celebrava o natalício do sacerdote: 81 anos de vida.

Quem passava pela igreja matriz na manhã desta terça-feira, dia 12 de janeiro de 2021, e viu o corpo do Monsenhor sobre uma urna, coberta por um véu, verteu lágrimas de saudades lembrando-se da mesma letra puxada pelo coração: “Nas minhas melhores lembranças – e sei que nas suas também – está Monsenhor José, amigo que, por nós, só fez o bem…”.

A notícia de sua páscoa definitiva chegou ao fim da noite do último domingo (10) quando a Igreja ainda vivia as alegrias da Festa do Batismo do Senhor. Aos 85 anos, Monsenhor foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), no dia 7 de dezembro, vindo a falecer um mês depois por insuficiência cardíaca aguda, mas levando dentro de si a serenidade de quem “terminou a corrida e guardou a fé” (Cf. 2 Timóteo 4, 7). Era um dos padres mais idosos do clero diocesano. Dedicou 58 anos ao cumprimento de sua missão, vinte e dois destes dispensados à paróquia do Novo Juazeiro.

<< Mesmo aposentado de suas funções paroquiais e com limitações, em decorrência da idade e da saúde debilitada, não deixou de elevar o Santo Sacrifício a Deus. Foto: Arquivo>>

E mesmo aposentado de suas funções paroquiais e com limitações, em decorrência da idade e da saúde debilitada, fazia questão de rezar missa às terças, às quintas e aos sábados, às sete horas da noite; e aos domingos, durante a manhã, na matriz paroquial, além de prestar assistência pastoral à comunidade de São Pedro, Apóstolo, no bairro Tiradentes, onde residia. Ao longo de sua trajetória, marcou a vida de muitas gerações com suas homilias, catequeses, presença fraterna ou mesmo com sua amizade. Não sem motivo era considerado “pároco emérito”.

Aos 27 anos, o jornalista Francisco Mário é fruto desse pastoreio zeloso. A infância dele, como a de muitos paroquianos, foi marcada pela figura “do pastor missionário, que promovia espaços de catequese e de estímulo à participação ativa na religiosidade”. E quem bebeu da fonte se tornou protagonista nas atividades da paróquia e da sociedade. “São vários os testemunhos que podem expressar a vida doada do padre-pai”, afirmou.

É o caso da agente Cáritas [organismo considerado “braço social da Igreja católica”] Solange Santana que ajudou a assessorar um desses grupos da Infância Missionária por dez anos e também conserva memórias felizes no coração. “No Novo Juazeiro, o mês mais esperado era outubro [dedicado à missão]. Seguíamos pelas madrugadas andando pelas comunidades. Padre José me dava a responsabilidade de elaborar comentários para as missas – aquelas de ritos mais solenes – e nunca esqueço dos momentos em que líamos juntos o que eu escrevia e ele, cuidadoso, aprovava ou corrigia comigo e fazia as suas considerações, sempre ensinando o melhor caminho”.

Esse cuidado dispensado à juventude era observado desde o Seminário. Monsenhor João Bosco Cartaxo, de Crato, foi contemporâneo de Monsenhor José Alves a quem considerava “um exemplo de padre sempre entusiasmado pelas vocações, pela pastoral, de tal maneira que a gente lamenta, mas agradece a Deus por tudo aquilo que ele realizou na Diocese do Crato, principalmente na cidade de Juazeiro do Norte”.

<< O funeral começou na madrugada de domingo com celebração da Eucaristia a cada duas horas. Padres, seminaristas, religiosas, agentes de pastorais, autoridades civis, familiares e pessoas que tiveram a graça da convivência compareceram para o último adeus. Foto: Pascom da Paróquia Menino Jesus. >>

A prefeitura, por sua vez, decretou luto oficial de três dias. “Um dos maiores nomes da história desse município”, disse o prefeito Glêdson Bezerra, acrescentando que “nós estamos mais fortes e preparados para enfrentar as dificuldades graças às orações do Monsenhor José Alves, que agora se junta ao Padre Cícero [Romão], ao Monsenhor Murilo [de Sá Barreto] e à Irmã Neli Sobreira”.

Nas redes sociais várias homenagens foram feitas. Padre Aureliano Gondim, administrador da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Crato, escreveu em seu perfil no Facebook: “Deus me vocacionou ao sacerdócio, através do exemplo abnegado deste seu servo. Enquanto me encontro envolto a lágrimas de um filho que perde o pai, uma certeza me acalenta: meu padrinho que tanto fez por mim enquanto aqui esteve, fará muito mais ao lado de Deus”.

Padre Aureliano era afilhado de Crisma do Monsenhor. Foto: Reprodução do Facebook.

A despedida do pastor

Fiéis se prestam última homenagem ao Monsenhor José Alves. Foto: Rozelia Costa

À matriz paroquial do Menino Jesus de Praga, seminaristas, religiosas, leigos e leigas, familiares, filhos espirituais, amigos e os fiéis que conviveram com Monsenhor José Alves chegaram uma hora antes para a Missa com Exéquias, marcada para as nove da manhã desta terça, dia 12 de janeiro, durante a qual, embora tristes e chorosos, uniram-se numa mesma prece de louvor, de agradecimento e de encomendações a Deus.

Pela transmissão das redes sociais, toda a Igreja de Crato, em oração e espírito fraterno, acompanhou este momento de pesar, mas de esperança no Cristo Ressuscitado. O pastor diocesano, Dom Gilberto Pastana, presidiu a Eucaristia, concelebrada pelo vigário geral, Padre José Vicente Pinto, pelo pároco da Paróquia Menino Jesus, Padre Fabiano Duarte, e demais sacerdotes vindos das cinco regiões forâneas, paramentados com estola e casula roxa, sinal de penitência, para pedir a Deus que acolha o dileto irmão na vida eterna, entre os “servos bons e fiéis”.

Ao dirigir-se à assembleia Dom Gilberto cumprimentou “as três famílias” do Monsenhor, como ele gostava de considerar: a família sacerdotal, a família paroquial e a família sanguínea. À homilia, o bispo trouxe a memória do Cristo consolador que pede aos discípulos para confiar no Mestre retirando de suas vidas todo sentimento de angústia, renovando sua adesão de fé na ação de Deus. “Vou preparar-vos um lugar na Casa de meu Pai. A morte não vai destruir nossos laços de amor. Um dia estaremos de novo, juntos. E para onde Eu vou já sabeis o caminho. Nós, cristãos, vivemos dessas palavras de Jesus: ‘Não tenhais medo'”, refletiu.

Para tudo dar

Quem teve a graça de conviver com Monsenhor José Alves sabe que esta canção era sempre cantarolada por ele: “Não se deve dizer nada posso ofertar, pois as mãos mais pobres são as que mais se abrem para tudo dar…”. Era o jeito paterno de convocar os filhos ao serviço da Igreja, abrindo-lhes o coração à grande riqueza do evangelho que está na gratuidade da missão, a qual ele incorporara ao próprio lema sacerdotal: “Quem não vive para servir não serve para viver”.

<< Padre Antônio José, atualmente em Portugal, conviveu diretamente com o Monsenhor quando foi designado vigário paroquial da Paróquia Menino Jesus de Praga. Vídeo: Reprodução >>

Nascido em 21 de dezembro de 1935, no sitio Tapera, em Quitaiús, distrito de Lavras da Mangabeira-CE, sob as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário a quem tomara por madrinha e protetora, Monsenhor José Aves estudou no Seminário Diocesano São José, em Crato, e no Seminário Arquidiocesano, em Fortaleza. Estudou licenciatura plena em Filosofia, Psicologia e Sociologia (Convênio universitário Crato – Salvador, BA), além de especialização em Liturgia pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (São Paulo, SP).

<< A urna onde repousava o corpo do Monsenhor foi fechada antes da missa exequial, e sobre ela foi posta o Livro dos Evangelhos aberto. Ao lado, o Círio Pascal aceso. Fotos: Jornalista Mychelle Santos>>

Foi ordenado sacerdote aos 27 anos na Matriz da sua paróquia de origem, por Dom Vicente Matos, terceiro bispo de Crato. Era 30 de setembro de 1962. Dentre as funções assumidas ao longo do sacerdócio estão a de vigário paroquial da Paróquia de Nossa Senhora das Dores (1962-1965), atual Basílica Santuário de Juazeiro do Norte; vigário ecônomo na Paróquia Santo Antônio (1965-1967), em Araripe; na Paróquia Nossa Senhora do Rosário (1968-1973), em Quitaiús, e na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Granjeiro, no mesmo período; vigário substituto na Paróquia de Nossa Senhora da Penha (1965), em Campos Sales, na Paróquia São Vicente Férrer (1971-1972), em Lavras da Mangabeira, e na Paróquia Nossa Senhora da Conceição (1989), em Mauriti, além de segundo capelão da Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (1976-1989), em Juazeiro do Norte. Também foi representante do Clero na Comissão Regional (1977 a 1979) e quando esta era composta pelos estados do Ceará, Piauí e Maranhão (1979-1980); coordenador diocesano de Liturgia (1980-2000), secretário do Conselho Presbiteral (1995-2000), assessor do Apostolado da Mãe Rainha (1999), coordenador diocesano da Pastoral do Dízimo (1999), diretor espiritual do Seminário São José (2005), membro do Conselho Presbiteral e do Colégio de Consultores, com mandados de um e dois anos, respectivamente.

À Paróquia Menino Jesus de Praga, no bairro Novo Juazeiro, em Juazeiro do Norte, foi enviado nos idos de 1990. E desde 2012 era considerado “pároco emérito” pelos paroquianos e também chamado de “monsenhor”, título honorífico concedido pelo Papa Bento XVI a pedido do então bispo diocesano Dom Fernando Panico. A Rua Padre José Alves, no bairro Socorro, na mesma cidade, é outra homenagem aos bons frutos semeados pelo sacerdote.

<< O túmulo do Monsenhor está localizado à direita de quem entra à igreja Matriz da Paróquia Menino Jesus de Praga >>

Texto: Patrícia Mirelly

Cobertura Fotográfica: Mychelle Santos

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