Na Maternidade de Maria, celebrar o Ano Novo

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Os cristãos dos primeiros séculos já se referiam a Maria como “Theotókos” (em grego) ou “Mater Dei” (em latim), traduzindo ambos o mesmo significado: “Mãe de Deus”. Realizado em 431, o Concílio de Éfeso confirmou e fundamentou essa titulação, reconhecendo nela um dogma, ou seja, uma verdade de Fé. Assim sendo, a Igreja Católica crê sem sombra de dúvidas na maternidade divina de Maria, pois Ela é Mãe de Deus porque deu à luz a Jesus, Aquele que é plenamente Deus e plenamente Homem.

Desse modo, na história da humanidade Maria se apresenta como uma criatura diferenciada porque “encontrou graça junto a Deus” (Lc 1,30). É Ela modelo para todos, homens e mulheres que acreditam, confiam e esperam no Todo-Poderoso.

O Catecismo da Igreja Católica sustenta: “Maria se tornou de verdade Mãe de Deus pela concepção humana do Filho de Deus em seu seio” (CIC, 466). Quem lhe confere a graduação de “Mãe” é o Filho, Deus Filho, O Qual, ao encarnar-se nasceu de suas entranhas. Essa prerrogativa de Maria é única, por iniciativa do Criador que concedeu a Ela e a ninguém mais.

Também a “Lumen Gentium”, Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II reconhece: “A Virgem Maria, que na anunciação do anjo recebeu o Verbo de Deus no seu coração e no seu corpo, e deu a vida ao mundo, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor. Remida de modo mais sublime em atenção aos méritos de seu Filho, e unida a ele por vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a sublime prerrogativa e dignidade de Mãe de Deus Filho, e, portanto, filha predileta do Pai e sacrário do Espírito Santo; com este dom e graça sem igual, ultrapassa de longe todas as outras criaturas celestes e terrestres” (LG, 53).

Mas, por que justo Maria foi a escolhida entre tantas outras para ser Mãe do Filho de Deus? A esse respeito as Escrituras Sagradas oferecem versículos cuja leitura atenta e cuidadosa, seguida de meditação e oração, auxiliam o limitado entendimento humano a vislumbrar, ainda que envolto por um véu, o limiar de um entre os insondáveis mistérios do Todo-Poderoso. Torna-se possível observar alguns aspectos, características de Maria que podem ajudar a compreender a divina escolha:

1- Maria, cheia de graça. Na visitação, ao iniciar o diálogo com a jovenzinha de Nazaré, o Arcanjo Gabriel profere a feliz saudação: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo” (Lc 1,28). Maria alcançou graça diante de Deus porque inteiramente vazia de si, possuía a alma aberta para que Ele ocupasse todo o seu ser. Era uma pobre desse mundo, consciente que nada podia por méritos próprios, nada fazia sem a poderosa intervenção do Altíssimo. Filha de Joaquim e Ana, aprendeu com seus pais a obedecer a Torá, Livro Sagrado que continha as leis do judaísmo, correspondente ao Pentateuco na Bíblia Sagrada. Aos olhos das criaturas, pobre; diante do Criador, Rainha.

2- Maria obediente, sem ser alienada. Prometida em casamento ao carpinteiro José, tão logo recebeu a notícia de que ficaria grávida, perguntou ao Arcanjo: “Como acontecerá isso, se não conheço homem algum?” (Lc 1, 34). O diálogo questionador com o mensageiro de Deus revela a natureza de sua fé: jovem sim; infantilizada jamais. Submetida sem reservas à vontade do Criador, fazia uso da razão, procurando eliminar as dúvidas que aquela perturbadora revelação lhe causara. Ela confiava, obedecia, acreditava e interrogava. Por isso Deus tanto a amava… Anos mais tarde, depois de ter ouvido tudo o que se profetizava do “Menino” e de todas as perseguições que já sofrera desde o nascimento, dando conta do seu desaparecimento ao voltar para casa da festa da Páscoa em Jerusalém, não o poupou de um materno “puxão de orelhas”:  “Filho, por que agiste assim conosco? Olha, teu pai e eu andávamos angustiados à tua procura!” (Lc 2,48). Maria buscava uma justificativa que pudesse lhe acalmar do susto. Mãe extremada e cuidadosa, sabia que não poderia perder de vista Aquele que fora confiado aos seus cuidados; não somente porque fosse seu Filho, muito mais porque sabia Quem era Seu Legítimo Pai.

3- Maria, Mãe incomparável. Deus é um Rei diferente de todos. É o que serve, não espera ser servido, apenas amado. Criou todas as coisas não para tirar proveito, mas para a felicidade das criaturas feitas à Sua Imagem e Semelhança. O reinado celestial tem como característica determinante o serviço. Para Mãe do Seu Amado Filho, o Pai só poderia escolher Aquela que, ao tomar conhecimento da tarefa divina para a qual havia sido designada – gerar e criar na Terra o herdeiro do Céu – imediatamente se mostraria disposta a servir: “… Maria levantou-se e foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá” (Lc 1,39). Conduzir no ventre o Filho do Rei despertou em Maria o desejo de correr para ajudar Isabel, sua prima de idade já avançada, grávida de seis meses, e ficar com ela até o nascimento da criança. Bem mais tarde, nas Bodas de Caná, ao constatar que o vinho faltara, colocou-se a serviço dos noivos, dirigindo ao Sagrado Filho um humilde pedido: “Eles não têm vinho!” (Jo 2,3). Maria agiu como mediadora, serviçal, presença indispensável em qualquer ocasião. Ela é Aquela que se faz presente à festa não só para deleitar-se, divertir-se como convidada, alegrar-se com os noivos, mas fica atenta, vigilante e prontamente se põe a intermediar ajuda urgente e necessária. Por isso, o Todo-Poderoso fez e faz maravilhas por Ela.

4- Maria, Senhora do Silêncio. “Este menino é destinado a ser causa de queda e de reerguimento de muitos em Israel, e a ser sinal de contradição… Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (Lc 2, 34-35). Que mãe não estremeceria após ouvir coisas tão perturbadoras? … “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 2,49). Esses e outros fatos que envolviam o ainda pequeno Jesus faziam com que sua Mãe ficasse pensativa, tentando entender. E, longe de multiplicar palavras ou exigir explicações, Maria em silêncio, meditava, “guardava todos esses acontecimentos em seu coração” (Lc 2,51). Não se encontra nas Sagradas Escrituras uma reclamação sequer, uma única “tomada de satisfação” por parte de Maria a respeito de nenhum acontecimento envolvendo seu Filho, da infância ao Calvário.

Muito há que se dizer, aprender com Maria. Desejo ardentemente que ao término dessas linhas o leitor sinta a curiosidade de procurar e encontre no Sagrado Livro muito mais sobre a Filha, Mãe e Esposa de Deus, como é saudada no Ofício.

O novo ano que se avizinha venha repleto de graça e de paz. Acredito seja esse o santo desejo presente em todos os corações. Invoquemos a proteção de Maria, valendo-nos das palavras daquela que é considerada a mais antiga oração de Nossa Senhora: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!”

Louvado seja Deus!

Louvada seja Maria, “Mãe de Deus” e nossa!

Por: Francimary Alencar, professora e ministra extraordinária da Eucaristia

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Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA – Tradução Oficial da CNBB. 2ª Edição, Brasília, Edições CNBB, 2019.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA – São Paulo, Edições Loyola, 2000.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II – 5ª Edição, São Paulo, Paulus, 2011.

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