A Diocese do Crato em parceria com a Universidade Regional do Cariri -URCA, Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional- IPHAN, o Centro Pró-Memória de Barbalha promovem de 5 a 8 de agosto o II Seminário Nacional sobre o Padre Ibiapina: 150 anos de Ações Missionárias no Cariri Cearense.
O seminário tem como objetivo estabelecer o diálogo entre o campo científico, cultural e religioso, potencializando pesquisas e discussões sobre o catolicismo na construção histórica, cultural e social, a partir da análise do trabalho missionário do Padre Ibiapina. É portanto um momento especial para refletir, celebrar e revisitar a importância da ação sócio religiosa do Padre Ibiapina no contexto do século XIX na Região do Cariri, que se caracteriza por sua expressiva diversidade cultural e religiosa: tradição agrária, festas de padroeiros, romarias e nas práticas seculares do catolicismo como celebração e vivência coletiva desta diversidade.
Atividades culturais, mesas redondas, discussões, grupos de trabalhos, visita guiada, exposições, lançamento de livros e exibições de vídeos fazem parte da programação que conta com palestrantes renomados como o bispo da Diocese de Crato, Dom Fernando Panico, a Professora Doutora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, Professora Doutora Annette Dumoullin e o Professor Doutor Plácido Cidade Nuvens.
Na manhã de ontem, 6, Dom Fernando junto com a Ir. Annette, estiveram na mesa redonda que discutiu sobre a vida e opção missionária do Pe. Ibiapina. Segue abaixo, na íntegra, o texto que Dom Fernando proferiu em seu discurso:

NO SIMPÓSIO SOBRE O PADRE IBIAPINA
Crato, 06 de julho de 2015
Acolhi, com satisfação, o convite que me foi feito para falar-vos sobre a vida e opção missionária do Padre Ibiapina. Tenho grande admiração por este missionário! Recordo-me que em 2007, juntamente com todo o clero da Diocese de Crato, viajamos até a cidade de Santa Fé, na Paraíba, para participarmos de um retiro espiritual que seria pregado pelo atual arcebispo de Manaus, Dom Sérgio Eduardo Castriani, então Bispo Prelado de Tefé. Infelizmente, o pregador convidado não pode comparecer, por causa de problemas nos aeroportos nacionais. Como todos os Padres já estávamos em Santa Fé, o retiro foi feito – de certa forma até improvisado – orientado pela Irmã Glória Targino, dirigente da Casa de Caridade, fundada por Padre Ibiapina, naquela cidade paraibana, onde repousam os restos mortais desse grande sacerdote, e por mim.
Não era a primeira vez que eu viajava até Santa Fé. Lá estivera em outras oportunidades, sempre atraído pela vida e obra do Padre Ibiapina. Numa dessas viagens fui proferir uma palestra, num evento promovido pela Diocese de Guarabira, abordando a personalidade do “Padre Mestre”.
Voltando ao retiro do Clero da Diocese de Crato em Santa Fé no ano de 2007, numa Casa de Caridade construída pelo Padre Ibiapina, o tema das meditações não poderia ter sido outro, senão sobre o “Presbítero–Missionário de Jesus Cristo, Padre Ibiapina”. Pessoalmente, conservo uma ligação imaterial – ou seja, uma inspiração, um respeito profundo, um estímulo, uma admiração e uma afinidade – com a herança espiritual deixada pelo Padre Ibiapina. Recordo-me de que, naquele retiro, abordei alguns aspectos do padre-missionário. E disse que se temos um exemplo de pároco na Igreja, na pessoa de São João Maria Vianney – o Cura d’Ars, temos também um modelo de missionário brasileiro: o Padre Ibiapina. E lembrei que este padre reunia multidões nas Santas Missões Populares que promovia. E como ele atraía o povo? Primeiro, com a oração. Depois com a ação, ou seja, com as suas obras sociais.
Padre Ibiapina não tinha casa de morada. A tapera dele lembrava a gruta de Belém. Eram as estradas poeirentas, emolduradas pelos cactos e pela vegetação do semiárido do Nordeste! Naquele retiro, lembrei que qualquer vigário do século 19 tinha seu mundo ligado aos ricos e à elite. Padre Ibiapina não agia assim. Seu público alvo era os pobres, a mulher que vivia unicamente do meio doméstico, as órfãs desamparadas. Lançou-se nas suas viagens, a pé e a cavalo. Para tanto ele encarou a fome, as doenças e as injustiças sociais nas periferias do interior nordestino..Viveu a opção radical por Jesus. Foi o Peregrino da Caridade! Mas foi também um intelectual sem vaidade de parecer um intelectual. Fez poesias; escreveu peças de teatro… deixou escritas algumas reminiscências… Deixou uma marca da qual falarei em seguida.
Incluído no rol dos “mais ilustres brasileiros”, o sociólogo, antropólogo e escritor Gilberto Freyre – por muitos considerado como “um gênio” – o qual, diga-se de passagem, não era católico, e se declarava “um agnóstico”, em artigo publicado no jornal “A Manhã”, do Rio de Janeiro, em 06 de junho de 1943, sob o título de “O exemplo de Ibiapina” assim se referiu ao Padre José Antônio de Maria Ibiapina:
“Trata-se do maior nome da Igreja Católica no Brasil”
Gilberto Freyre foi um nome respeitado nos meios acadêmicos na Europa e nos Estados Unidos. Diante dessa sua afirmação resta a pergunta: O que teria levado o autor do clássico livro “Casa Grande e Senzala” a considerar este humilde padre, nascido no Ceará, que viveu parte de sua infância e juventude em Crato, como “o maior nome da Igreja Católica no Brasil”?
Naquele artigo citado, Gilberto Freyre escreveu a certa altura este frase:
“Ibiapina foi realmente isto: uma enorme força moral a serviço da Igreja e do Brasil”.
Decorridos mais de cento e trinta anos do seu falecimento, ainda hoje outros estudiosos brasileiros e estrangeiros também continuam se debruçando sobre a vida e a obra do Padre Ibiapina.
Uma existência – transcorrida no século 19 – e vivida, na sua maior parte, entre os pobres do interior do Nordeste.
Padre Ibiapina só abraçou o sacerdócio com quase 50 anos de idade, depois de ter sido professor, advogado, delegado de polícia, juiz de Direito e deputado geral do Parlamento do Império Brasileiro (mandato que hoje equivale ao de deputado federal).
Não é difícil imaginarmos o cenário da sociedade nordestina ao tempo da existência de José Antônio Maria Ibiapina: predominava a pobreza e miséria, analfabetismo, ausência de educação e saúde pública, injustiças sociais, não havia infraestrutura básica (estradas, saneamento, abastecimento de água).
O já citado artigo de Gilberto Freyre nos dá uma ideia de como era esta região àquele tempo. Permita-me ler um texto daquele artigo:
“Sozinho e em luta áspera com obstáculos de toda a espécie, Ibiapina levantou nos sertões do Nordeste, entre mandacarus e xique-xiques, uma admirável organizaçãocristã de assistência social ao sertanejo, de educação doméstica e industrial da mulher do interior, de amparo a órfãos e a doentes, de combate às secas e ao cangaceirismo, às superstições e às pestes.
“Que de tudo cuidou o bravo missionário, em quem as virtudes de cearense se aguçam em virtudes de santo, sem que nessa difícil sublimação se perdesse a capacidade prática de organizar, de administrar, de desenvolver indústrias, virtudes tão características dos homens do Ceará.
“Noutro país cristão a obra do padre Ibiapina – suas boas e santas “Casas de Caridade” – seriam hoje uma força organizada a serviço cristão dos sertões. Seria uma força organizada semelhante à dos Salesianos. Só a nossa imprevidência de mestiços ainda indecisos e desconfiados dos nossos valores mais íntimos deixaria desconjuntar-se a formidável organização do padre cearense, notável como obra indistintamente cristã e notável com realização arrojadamente cristã de brasileiro. E como tal, impregnada do melhor e do mais saudável dos brasileirismos.
“Chega a nos comover o nome docemente brasileiro por que se tornaram conhecidas algumas superiores das comunidades religiosas fundadas por Ibiapina: Mães-Sinhás. E essas Mães-Sinhás davam às Casas de Caridade um brando rumor de casas-grandes de família, ensinando às órfãzinhas a cozinhar, a fiar, a tecer e tingir o algodão, a tratar de doentes, a plantar sementes em tempo certo, a fazer chapéu de palha e rede, a ler, a escrever, a rezar o Padre-Nosso, a cantar as ladainhas em bom português, sem trocar os “erres” pelos “eles”. Pois quase todas as Mães-Sinhás eram senhoras de famílias ilustres que, tocadas pelos apelos e pelo exemplo do grande missionário se dedicavam ao serviço de Deus e do próximo”
“A própria arquitetura das Casas de Caridade tinha alguma coisa de arquitetura doméstica que lhes adoçava os frontões aos olhos das meninas e das moças confiadas aos cuidados das Mães-Sinhás; alguma coisa que as torna simpaticamente brasileiras aos olhos do observador que hoje, em viagem pelos sertões do Nordeste, ainda surpreende alguma de pé: alguma das que tiveram a felicidade de ser aproveitadas para colégio ou escola por algum bispo ou vigário mais esclarecido”.
(Até aqui, citei o pouco conhecido artigo de Gilberto Freyre sobre o “Padre-Mestre” Ibiapina, como este era chamado pelo povo dos sertões).
Quanto teria sido a inspiração e a motivação para a grande obra que o Padre Ibiapina nos legou?
Lendo sua biografia sabemos das dificuldades econômicas que ele e sua família enfrentaram na luta pela sobrevivência. Seu pai perambulou pelo interior do Ceará, ganhando o sustento da família com várias ocupações. Num desses empregos, ele veio trabalhar na Comarca de Crato, para onde se mudou com toda a família. Aqui, no Cariri cearense, encontrou a oportunidade para o menino José Antônio frequentar aulas de religião com o vigário José Manuel Felipe Gonçalves. Na cidade de Jardim, Ceará, José Antônio deu continuidade aos estudos, agora frequentando aulas de latim, com o mestre Joaquim Teotônio Sobreira de Melo. Em Jardim o rapazinho terminou o curso de humanidades, sendo então considerado apto para admissão no Seminário de Olinda, em Pernambuco, onde ingressou em 1823, aos 17 anos de idade, com o objetivo de se tornar padre.
Ibiapina estava estudando no Seminário de Olinda quando ocorreu a morte do seu pai – fuzilado em praça pública, no dia 7 de maio de 1825, em Fortaleza, por ter participado da revolução republicana que passou à história com o nome de Confederação do Equador. O jovem José Antônio Ibiapina teve de voltar ao Ceará, interrompendo seus estudos, para assumir e manter financeiramente os irmãos órfãos. Aliás um desses irmãos, de nome Alexandre, que também lutou pela causa republicana na Confederação do Equador foi condenado a longos anos de prisão, acrescidos ao desterro na ilha de Fernando de Noronha, onde veio a falecer antes de ter cumprido a pena.
Por todos esses sofrimentos passou o jovem José Antônio. E, no entanto, manteve a fé e o poder da oração. Ambas sustentaram a espiritualidade do jovem Ibiapina, em meio a tantos revezes da vida. No seu coração daquele jovem nunca houve lugar para o ódio. Sua vida, depois de assumir a guarda dos irmãos menores foi uma sucessão de atividades e ofícios para prover o sustento deles, todos residentes na cidade de Fortaleza.
Depois de encaminhar seus irmãos na vida, Ibiapina voltou para Recife, onde foi professor enquanto fazia o curso de Direito. Com o diploma de advogado, voltou ao Ceará. Aqui exerceu a advocacia, foi advogado e delegado de Polícia. Depois foi eleito deputado geral e por algum tempo morou na então capital do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro, exercendo a atividade parlamentar. Mas o aparente sucesso que granjeou não preencheu a imensidão do seu generoso coração…
Sentiu que a atividade política – já naquela época – visava prioritariamente à busca do poder, pelo poder. O povo continua sendo mero coadjuvante nas decisões dos políticos. Embora se pregasse que tudo era feito em nome do povo, pelo povo e para o povo…
Em meio a esse vazio de alma, José Antônio Ibiapina conservou o hábito da oração. Vinha daí a sua força para manter o sonho acalentado de fazer-se missionário, desde a época de adolescente, quando residiu em Crato e Jardim.
A vida nos ensina que sejam lá quais forem as nossas provações, desilusões, fardos, fracassos e até pecados, na oração reencontramos a força e a esperança… Atesta isso São Paulo na 2ª epístola aos Coríntios: “Pela oração, mesmo se o nosso homem exterior se arruína, nosso homem interior se renova dia após dia”…
Desiludido com o cenário moral e político que conheceu na sociedade brasileira de então, o deputado Ibiapina largou tudo. E não retornou para o Ceará. Foi para Recife, onde passou a exercer a advocacia. Em 1838, foi convidado a advogar na Vila Real do Brejo de Areia, na Paraíba, fixando residência permanente no Recife somente a partir de 1840, quando instalou um escritório de advocacia, na capital pernambucana, tendo advogado naquela cidade por cerca de dez anos. Foi considerado um dos mais conceituados advogados do Recife e ficou conhecido como defensor dos pobres.
A partir de 1850, no entanto, resolveu abandonar também a carreira de advogado e passou a morar numa pequena casa no sítio Caxangá, subúrbio de Recife, onde se fez quase um ermitão. Dedicou-se a rezar, meditar, estudar teologia e filosofia, além de praticar a caridade junto aos habitantes da redondeza aonde morava.
Três anos depois, convidado pelo Bispo de Olinda, resolveu seguir o sacerdócio, ordenando-se em julho de 1853, aos 47 anos de idade. Para tanto, foi dispensado, pelo Bispo, de concluir os estudos iniciados, anos atrás, no velho Seminário de Olinda. A atitude do Bispo foi justificada pelo conhecimento teológico e filosófico de que era possuidor o Dr. José Antônio Ibiapina.
A atuação de Padre Ibiapina como sacerdote católico só começou, como se vê, após considerável atuação na vida pública, nos campos jurídico e político. Inicialmente, ele foi ordenado padre secular. Mas logo, em seguida, durante a grande epidemia de cólera mórbus que acometeu o Nordeste brasileiro em meados do século 19, Pe. Ibiapina conseguiu a permissão do bispo de Olinda para iniciar seu trabalho assistencial.
E fez-se missionário pelas estradas secas, poeirentas e de muito calor dos sertões…
Padre Ibiapina alcançou grande destaque por sua notável ação missionária nas províncias (hoje chamadas de Estados) do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Piauí, durante o século 19. Em pouco tempo ele ganhou destaque, graças ao seu trabalho intelectual de evangelização e a introdução da educação feminina (coisa inédita naquele tempo). Ao lado disso, o Pe. Ibiapina ia construindo uma ampla obra de infraestrutura material composta por 23 casas de caridade para abrigar órfãs do sexo feminino; 21 cemitérios; 23 igrejas ou capelas, além de quatro restaurações de templos em ruínas; 22 açudes; 3 hospitais; 1 canal; 1 cacimba e 1 estrada.
Consolida-se a obra do missionário José Antônio de Maria Ibiapina! O “Maria” ele havia acrescentado ao nome após a ordenação sacerdotal.
Foi então que Ibiapina, com mais de 50 anos de idade, deixou para trás seu passado de muitos cargos importantes para começar seu trabalho missionário, percorrendo mais de 600 quilômetros pelas províncias do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Sempre de batina, a pé ou a cavalo, pregava, aconselhava e levava o conforto por meio da palavra ao povo sofrido do sertão nordestino.
O realce maior ficava para as denominadas Casas de Caridade, destinadas às moças órfãs carentes, onde recebiam educação religiosa e moral, aprendiam a ler, escrever e trabalhos domésticos, além de terem assistência à saúde. Quantas moças ao invés de serem exploradas e lançadas nas vielas das chagas morais ganharam a oportunidade de viver uma vida digna…
No campo da educação, a grande contribuição do Padre Ibiapina foi a introdução de um sistema de educação profissionalizante para o sexo feminino, com a substituição dos conteúdos de origem estrangeira (que até então vigoravam na aprendizagem no Brasil), pela cultura local e regional. Hoje, a valorização da própria cultura é largamente reconhecida como recurso fundamental para a formação e valorização de uma identidade nacional. Padre Ibiapina enxergava isso já no século 19.
As missões do Padre Ibiapina pelas vilas e cidades atraiam e mobilizavam as populações sertanejas, que participavam dos rituais religiosos e dos mutirões de trabalho organizados para a execução das inúmeras construções. Suas ações se caracterizam por uma religiosidade popular manifestadas pela caridade cristã e ideais de civismo e produtividade. No período em que atuou o Padre Ibiapina, de 1856 até 1883, cerca de 27 anos, foram registradas calamidades das secas e surtos de doenças, cujos sofrimentos ele ajudou a minorar os efeitos…
Uma curiosidade: nas suas andanças pelos sertões, Padre Ibiapina, iniciou a construção de duas igrejas que depois se transformariam em catedrais: a de Floresta (em Pernambuco) e a de Picos, no Piauí. Fundou duas cidades: São Gonçalo em, Pernambuco, que depois teve o nome mudado para Araripina. Este novo nome vem do inicio da palavra “Araripe”, com o final de “Ibiapina”– Araripina – e fundou também cidade de Pio Nono, no Piauí.
Aqui, na Diocese de Crato, ainda restam as igrejas de Brejo Santo e de Jamacaru que ele iniciou as construções. Sem falar na Casa de Caridade de Crato, a única hoje ativa das mais de vinte que Pe. Ibiapina construiu.
A espiritualidade do Padre Ibiapina
Padre Ibiapina, nas suas longas peregrinações pelos sertões áridos do Nordeste foi um missionário diferente. Ele entrou na vida do povo nordestino condoído pela situação de penúria das populações do interior, atingidas pela ausência de inclusão social, pela fome, pela falta de água e pela peste do cólera. Ele se tornou um andarilho pelas veredas da miséria humana, representando um enviado para ensinar a misericórdia de Deus.
Nas suas “missões”, enfrentando a aridez, o calor e o sol inclemente pregava a reconciliação entre pessoas intrigadas. E ao lado disso implantava suas obras sociais. Sua pregação de missionário da caridade continha uma mensagem bastante prática: um chamado à conversão e mudança de vida; um chamado a romper o isolamento individualista, no qual se encontrava o povo naquela época.
Padre Ibiapina realizou o ideal da pobreza evangélica que viria a ser reconhecida, no século seguinte como a “Opção preferencial pelos pobres”.
O escritor Luiz Teixeira de Carvalho, autor do livro “A Missão de Ibiapina”, transcreveu um dos raros escritos do Padre-Mestre, nas páginas 156 a 158, que repasso para os ouvintes:
“As obras da natureza me convidam às reflexões sublimes que me elevam até o Criador, a quem curvado adoro, admiro e me confundo. Donde me vem este pensar e sentir? Desde o começo da minha vida que as desgraças me cercam; meu pai, fuzilado pela política; meu irmão desterrado, onde morreu desgraçadamente; minhas irmãs, em tenra idade, abandonadas em casas de parentes, deram ao meu espírito uma direção tão penosa, que aprendi a pensar seriamente na idade da juventude e com o pendor sempre para coisas penosas”.
“Reconheço que esses reveses de minha vida explicam essa tendência do meu espírito, mas bem vejo que tudo isso é providencial, que Deus assim dispôs as coisas e o meu espírito para o fim que Ele me criou”.
“Se eu lhe fosse fiel como devera, minha posição espiritual seria bem diferente da em que me acho, que me julgo sempre noviço, vendo e lendo aqueles que o bom Deus me deixou para segui-los; falo dos Santos”.
Outro fato interessante dos raros escritos deixados pelo Padre Ibiapina: Trata-se de uma poesia feita pelo Padre-Mestre, a qual também foi preservada. Ela também foi publicada no livro de “A Missão de Ibiapina”, escrito por Ernando Luiz Teixeira de Carvalho, nas páginas 157 e 158. A conferir.
Risquei um pequeno círculo
Dentro dele me meti
Para escapar ser lembrado
Com cuidado me escondi
No centro da Caridade
Coloquei minha existência
No ministério ocupado
Cercado só de inocência
Passei os dias olhando
Para o mundo com temor
Procurei fugir dos males
Que cercam o pecador
E vi que Deus protegia
A causa que eu defendia
Por isso vi que era dele
Essa vida que eu vivia
Escapei de grandes males
E se grandes bens não fiz
Não foi por Deus me faltar
Fui eu mesmo que não quis
É só isto que me pesa:
Não fazer quanto podia
Tenho sempre em meu favor
O bom Jesus e Maria
Ah! pudesse eu agora
Fazer todo dia o bem
Em favor da humanidade
Que chora porque não tem
Faço esta confissão
Antes de ir à sepultura
Agradeço os bens que Deus
Fez a mim, vil criatura
O povo se empolgava com seus sermões, feitos com palavras simples, utilizando expressões usadas pelo povo. O missionário ensinava ao povo o valor da humildade. Dizia que só temos aquilo que recebemos de Deus. E se recebemos, é por pura graça, sem que possamos atribuir absolutamente nada de mérito a nós mesmos. Por isso, dizia, “não podemos nos gabar seja lá do que for”. (1)
Falava o Pe. Ibiapina da misericórdia de Deus e incentivava as populações a buscar amparo no Sagrado Coração de Jesus, de quem era fervoroso devoto. E dizia que além dos nossos pecados e misérias devíamos nos lembrar sempre da nossa condição de filhos de Deus. Dizia ele: “Deus nos ama tal como somos. E esse amor é incondicional e se constituí na nossa identidade mais profunda”. (2)
Gostava de ensinar que a oração é tão essencial para a humanidade como a água o é para a sobrevivência das plantas. “Onde falta a oração, os corações se endurecem e o amor esfria”, dizia (3). Lembrava que as nossas relações com o nosso próximo são – na maioria das vezes – decepcionante porque nós esperamos muito dos outros. Sem saber o que eles têm capacidade de dar. Nosso erro, dizia, era pretender obter de uma pessoa coisas que só Deus pode nos dar.
Pe. Ibiapina era um bom comunicador. Ele intuía a verdade de que rezar é um ato de esperança. É reconhecer que não podemos enfrentar sozinhos os desafios da vida. E ensinava que todos nós precisamos do próximo. Que não se devia procurar a perfeição em ninguém, pois perfeito só Deus. E usava um adágio comum naquele tempo: “É preciso fazer fogo com todo tipo de lenha”…(4)
(1) CARVALHO, Gilberto Vilar de. O Padre Ibiapina, um homem que viveu e morreu pelo seu povo.
(2) Idem,idem
(3) Idem,idem
(4) Idem,idem
É oportuno transcrever para o conhecimento dos presentes este pequeno texto constante no livro “Ibiapina, um apóstolo do Nordeste” de Celso Mariz:
“As comunidades de Ibiapina não eram reconhecidas pela Santa Sé, suas beatas – apesar da mesma vida reclusa e da penitência – não eram papais como as das irmandades seculares. Daí talvez uma prevenção que o caso da Maria de Araújo, beata particular de Juazeiro, teria vindo estimular”
Eduardo Hoornaert, autor do livro “Crônicas das Casas de Caridade” foi mais fundo quando escreveu na página 53 desta sua obra:
“Para os vigários de 1940 que Mariz entrevistou, Ibiapina era “um santo inútil”. Só alguns o entenderam, como o padre Belisário Dantas, de Catolé do Rocha (Paraíba) ou monsenhor Sales, de Campina Grande (PB). A mitra de Olinda desautorizou as missões após Ibiapina (…) Os bispos “reformados” segundo a tradição tridentina não gostavam dos missionários e preferiam as visitas pastorais com crisma e sacramentalização geral”
Permita-me encerra minhas palavras reproduzindo um pequeno texto de um escrito sobre o Pe. Ibiapina, de autoria do Pe. José Comblin:
“Ibiapina não teve continuador. Teria sido impossível. Onde encontrar uma pessoa capaz de fundar e administrar tantas obras a serviço dos pobres nordestinos? Onde achar uma pessoa dotada de uma força de palavra capaz de mobilizar e orientar centenas e milhares de trabalhadores voluntários capaz de suscitar centenas de vocações de irmãs de caridade, vivendo numa insegurança total e contando somente com os recursos da Divina Providência? Com certeza não havia ninguém que fosse capaz de continuar a obra do grande missionário.
Ele apareceu como um brilhante meteoro que ilumina o mundo durante alguns instantes e desaparece. No entanto o seu testemunho permanece.”
Referências Bibliográficas:
CARVALHO, Ernando Luiz Teixeira de. A Missão de Ibiapina. Berthier. Passo Fundo (RS), 2008.
COMBLIN, José. Instruções espirituais do Padre Ibiapina. São Paulo: Paulinas,1984. 198p.
HOORNAERT, Eduardo. Crônica das Casas de Caridade. Secretaria da Cultura do Ceará, Fortaleza, 2006.
MARIZ, Celso. Ibiapina, um apóstolo do Nordeste. 2. ed. João Pessoa: UFPB, Editora universitária, 1980.
Referências on line
Gaspar, Lúcia. Padre Ibiapina. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. (pesquisa feita em 17-07-2015)
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=852:padre-ibiapina&catid=50:letra-p&Itemid=1 (pesquisa feita em 17-07-2015
http://www.unicap.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=125
Artigos
“Comblin será sepultado no mesmo chão nordestino que acolheu Pe Ibiapina, Padre Cícero, Margarida Alves, Dom Hélder…”
CARVALHO, Gilberto Vilar de. O Padre Ibiapina, um homem que viveu e morreu pelo seu povo.
Revista REB , v. 43, fasc. 169, mar. 1983. p. 103-133.





