Homilia do Natal De Nosso Senhor Jesus Cristo – (Dia 24): Nasceu para nós o Salvador

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“A Graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens.” (Tt.1,11)

A nossa caminhada foi longa. Foram quatro semanas de peregrinação espiritual, mas, enfim eis que Belém se aproxima dos nossos olhos e dos nossos corações. Já vislumbramos as tênues luzes das lamparinas da pequena vila que se tornará a “casa do Pão” para alimentar toda a humanidade. Estas lamparinas com vestígios de luzes tão tênues anunciam a chegada da verdadeira e imperecível Luz. Caminhemos, seja com os pastores confusos e jubilosos ou com os sábios magos ansiosos, pois é tempo de contemplar o amor feito carne da nossa carne; o amor infinito que não pode ser encerrado ou delimitado, mas que aceitou ser contido o suficiente para caber na palma de uma mão humana e adorado em embevecida contemplação. Sim, a liturgia desta noite luminosa fala-nos de um Deus que indubitavelmente ama a humanidade. Por muito tempo, andamos perdidos e abandonados por causa da nossa soberba que nos conduziu em caminhos de sofrimento e morte, agora não mais. Nasceu nesta noite para nós “um menino” que tornou esta a mais venturosa de todas as noites.

A primeira leitura (Is. 9,1-6) o Profeta Isaías anuncia a chegada de “um menino”, fruto da promessa para a descendência de Davi e dom de Deus ao seu Povo. O profeta descreve a situação do seu povo vivendo em meio a opressão, desânimo e decepção que lhes roubava as perspectivas, fazendo enxergar apenas um caminho de trevas. A realidade de Israel era a imagem de toda a humanidade que devido a perda da graça “habitava nas sombras da morte” (1,1). Desiludido com os reis e demais líderes políticos, o profeta convida o povo a sonhar com um tempo novo, sem guerra nem armas, onde reinarão a justiça, o direito e o temor de Deus. Esse infante embora representando a inicial fragilidade humana trará consigo a força necessária para eliminar a guerra, o ódio, o sofrimento, pois as “as botas de tropa de assalto e roupas manchadas de sangue” serão deixadas no passado e uma nova era de alegria, de felicidade e de paz sem fim será inaugurada como uma aurora rompendo as trevas da noite. Os quatro títulos dados ao menino revelam que ele traz consigo qualidade divinas: 1° Conselheiro Admirável indica a capacidade de conceber desígnios prodigiosos; 2º Deus Forte é o nome do próprio Deus; 3º Pai dos Tempos Futuros é um título dados aos reis e 4º Príncipe da Paz revela que ele próprio é a nossa Paz.

Na segunda leitura (Tt. 2,11-14) o Apóstolo Paulo escreve para seu amigo e companheiro missionário Tito. De modo poético o Apóstolo busca reencantar os seus irmãos para vivam a fé que lhes foi anunciada de forma verdadeiramente comprometida. A manifestação gloriosa de Deus através da encarnação do seu Filho não é apenas tempo de viver uma estupefata admiração, mas também tempo de “equilíbrio, justiça e piedade” (2,12). Logo, o discípulo deve ter sempre seu olhar fixo em Jesus, pois seja na fragilidade de bebê na manjedoura ou a fortaleza daquele que padece na cruz, todas são revelação do Deus que se entregou por nós até a morte para nos libertar do pecado. Ele é a medida de nosso amor, compromisso e missão. Em última instância, as palavras de Paulo manifestam o motivo que deve guiar nossa vida e missão: Deus nos ama verdadeiramente. Este mundo passageiro não é a nossa morada permanente e tal qual ele os seus valores são passageiros. Por isto, uma vez identificados com Cristo, por Cristo e em Cristo pelo batismo que nos foi dado, devemos realizar as obras d’Ele.

O Evangelho (Lc. 2,15-20) apresenta a “Palavra” viva de Deus, na pessoa do seu Filho Unigênito sendo acolhido pelos pastores logo depois do seu nascimento na manjedoura em Belém. Para o evangelista Lucas, a missão do Filho de Deus é redimir toda a humanidade e resgatar a dignidade dos mais esquecidos e fragilizados. Por isto, a presença dos pastores que representavam os mais desprezados pelos poderosos daquele tempo. Pastores de famílias empobrecidas e que passavam suas noites ao relento são os primeiros a receber o anúncio do nascimento da Luz e o convite para visitar o “pobrezinho que nasceu em Belém.” Dirá o Apóstolo Paulo: “com efeito, conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza.” (2Cor. 8,9)

A descrição que Lucas faz cena revela também sua catequese: a falta de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais que se torna berço, as faixas improvisadas que envolvem o bebê, a visita dos pastores e depois dos reis magos. Tudo isto revela que é na pobreza, na simplicidade e na fragilidade, que Deus Se manifesta aos homens para lhes oferecer a salvação. Sua catequese embora escrita tão distante do tempo em que vivemos, traz algo indubitavelmente necessário e atual. Não é pela força das armas da guerra, pelo poder do dinheiro muitas vezes manchado de sangue, pelas mãos dos poderosos ou pela eficácia de uma boa campanha publicitária que Deus realiza sua obra salvífica, mas pela ternura de um recém-nascido que tem sua companhia uma mãe camponesa, um pai carpinteiro, pastores zelosos e marginalizados e animais do campo que mesmo sem poder compreender o que se realiza naquele nascimento, dobram seus irracionais joelhos diante dele.  O evangelista sugere, desta forma, para quem os anjos trazem preferencialmente a Boa notícia: é para os pecadores e marginalizados. Por isso, a sua chegada é uma “boa notícia” porque os pobres, os frágeis, os marginalizados e os pecadores, são convidados a tomar parte na comunidade dos filhos amados de Deus. É o próprio Senhor quem os convida e eles vêm ao encontro dessa salvação convictos que podem integrar a comunidade da nova aliança, a comunidade do “Reino”.

Como no oráculo do profeta Isaías, Lucas também nomeia o menino como três títulos: Salvador: antes um título usado para os imperadores e deuses pagãos, apresenta Jesus como o único caminho que traz verdadeiramente a salvação; Cristo: equivale a “Ungido”, traz consigo os anseios do povo de Israel que acreditando na promessa davídica, esperava um rei que viria restaurar o reino ideal de justiça e de paz; Senhor: título divino com o qual se apresenta Jesus em sua majestade e transcendência. Assim, Lucas, logo em seu nascimento define a pessoa de Jesus, sua identidade e missão.

A presença do infante nascido e o canto dos anjos revelam o acontecimento que muda a história da humanidade: o céu e a terra se tornaram um só. Deus está conosco! É Ele que conduz nossa vida, ou preferimos seguir as propostas das autoridades deste mundo, que não passam de ídolos? Temos nos cansado atrás de fama virtual que apenas produz vazio? Temos buscado viver o caminho apresentado em Belém?

Pe. Paulo Sérgio Silva

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.

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