Homilia do 3º Domingo do Tempo Comum – Ano A: Seguir Jesus Cristo para que o Reino de Deus aconteça

Compartilhe:

Jesus andava por toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino…” (Mt. 4,23)

           Continuamos a catequese vocacional iniciada anteriormente. Se no domingo passado a Palavra de Deus nos questionou sobre nosso discernimento vocacional, neste domingo, ela, a Palavra, nos ensina que todo vocacionado ao ouvir e responder o chamado, torna-se discípulo e seguidor. E é este o tema sobre o qual discorre nossa catequese litúrgica de hoje: discipulado ou seguimento. O evangelista apresenta o tema de sua catequese enquanto reforça o sempre necessário ensinamento de que o centro da vida e da missão de Jesus Cristo é o Reino de Deus.

            Na primeira leitura (Is. 8,23b-9,3), o profeta Isaías proclama mais um oráculo messiânico, afim de alimentar a esperança do Povo em busca de um mundo de justiça e de paz. Israel (Judá) é a imagem da humanidade. Tal qual todo os povos, Israel foi infiel ao seu único Senhor. Ao longo dos séculos, tanto na política quanto na religião, Israel preferiu muitas vezes confiar no poder das alianças políticas, e não em Deus.  E como fruto disto, caiu sob o domínio de povos estrangeiros. Esta falta de confiança fraturou a aliança entre Deus e seu povo eleito. No entanto, assim como sua misericórdia, a paciência de Deus é infinita. Ele irá restabelecer a aliança rompida. O profeta anuncia uma luz que Deus fará brilhar sobre toda a humanidade. Começando a partir das montanhas da Galiléia, esta luz se espalhará e atingirá todos os seres humanos que padecem cativos sob as forças do mal, da morte, da injustiça e do sofrimento. Estejamos atentos no modo como Isaías constrói o texto através de conceitos que se opõem: humilhar/cobrir de glória; trevas/luz; caminhar nas sombras da morte/alegria. Os conceitos negativos apresentam a situação do povo de Israel e da humanidade por abandonarem Deus; os conceitos positivos anunciam como será o futuro caso Israel e da humanidade inteira caso decidam caminhar com o Messias (Jesus Cristo).

            A segunda leitura (1Cor 1,10-13.17) apresenta as dificuldades do Apóstolo Paulo em produzir frutos permanentes do Evangelho na comunidade de Corinto, lugar onde os discípulos esqueceram Jesus, seus ensinamentos e preocupados com seus projetos pessoais de grandeza, dividiram-se em grupinhos dentro da Igreja. Ao fragmentarem a Igreja em grupinhos/panelinhas estas pessoas revelam não apenas a perda de identidade cristã, mas também um desejo de crescer dentro deste grupo e depois ocupar o lugar daqueles a quem são atribuídos o lugar de liderança. Se persistirem em tal atitude lastimável, deixarão de ser discípulos e se tornarão seitas, cada qual querendo seguir seus próprios projetos pessoais e negando o projeto de Jesus que é o Reino de Deus. Paulo recorda a eles que foi enviado por Cristo para anunciar o Evangelho, não para se tornar líder de pequenos e rebeldes grupos. Sendo assim o Apóstolo, exorta-os fervorosamente a retornar “ao primeiro amor(Ap. 2, 2-5), redescobrir os alicerces da sua fé bem como os compromissos e deveres assumidos no batismo. Tal qual os discípulos chamados à beira do mar da Galileia, a comunidade de Corinto também foi chamada por Jesus para o seguir e eles devem permanecer neste seguimento. Deste modo, a comunidade resgatará sua essência e permanecerá vivendo como aquilo que é: um só corpo no qual Cristo é a única cabeça e nós os seus membros. Se faz necessário ressaltar que esta realidade pastoral enfrentada por Paulo se faz presente ainda hoje em nossas comunidades. Continuamos muitas vezes criando grupinhos ou panelinhas para “cozinhar” aqueles de quem não gostamos. Não é incomum inclusive alguém deixar de viver a missão apenas porque o seu “padre” foi transferido. E assim continuamos com as afirmações de Corinto: “eu sou de Pedro, eu sou de Paulo, eu sou de Apolo” (1Cor. 1,12). E no final, corremos o perigo de nenhum de nós ser de Jesus Cristo.

            O Evangelho de hoje (Mt 4,12-23) dá continuidade e fortalece os ensinamentos da catequese vocacional que temos recebido na liturgia ao longo deste mês. Sendo Jesus, o Filho e o Cordeiro Deus (conforme apresentado no domingo anterior), toda a humanidade deve se apresentar disponível para responder ao seu chamado e acompanhá-lo livremente aonde quer que Ele vá. Conforme anunciado por Isaías (primeira leitura), depois de atravessar o Jordão no Batismo, Jesus se dirige à Galileia. É lá, na chamada “Galileia dos pagãos” que a luz do Evangelho se espalhará como luz em direção a todos os povos da humanidade através da resposta corajosa e decisiva de quatro pescadores.

               No relato deste encontro transformador, Marcos nos apresenta três pontos fundamentais para permanecer no discipulado e seguimento do Messias:

1) Ouvir atenta e minuciosamente a mensagem nas palavras e atitudes de Jesus: Como a Galileia abria-se para o mar, ela era tida como a porta de entrada para o contato com o comércio e a cultura dos muitos povos que rodeavam Israel. Ao ir morar em Cafarnaum Jesus Cristo revela que sua Boa Notícia será proclamada tanto aos judeus quanto aos pagãos. Para que vivendo o Evangelho se tornem um só povo: o Povo de Deus. O mar da Galileia era tido como um local de fertilidade e abundância de alimento, assim o convite vocacional sugere uma vida renovada e transformada pelo seguimento a Jesus. Mas para que esta vida nova aconteça se faz necessária acolher sua mensagem: “Convertei-vos, pois o Reino de Deus está próximo”.

2) Abertura para a Conversão/Metanoia que aponta para a necessidade de mudança de vida em todas as dimensões: Mas porque se faz necessário mudar? Quais a mudanças necessárias? Mesmo vindo de outras culturas o Código de Hamurabi e a Lei de Talião acabaram sendo incorporadas a Torah e vividas cotidianamente pelos judeus. Vemos isto não apenas na escrita dos mandamentos, mas em exemplos concretos como quando João e Tiago, diante da falta de respeito e acolhida por parte dos samaritanos, desejaram mandar descer fogo do céu em atitude de vingança (Lc. 9, 55-56). Assim, muitas vezes a Lei contribuía para a continuidade de uma espiral de violência que aprisionava a humanidade nesta vivência que confundia vingança com justiça. O verdadeiro seguimento e discipulado não se resume a se encantar com as belas palavras de Jesus, mas em tornar o centro de sua vida aquilo que era também a motivação vital de Jesus Cristo.  Sendo assim, os princípios que devem mover nosso discipulado são os mesmos que moviam a ação evangelizadora de Jesus: a misericórdia, a empatia, acolhida e a compaixão. É preciso deixar para traz as atitudes do homem velho para se tornar verdadeiramente o homem novo. Pois, o convite a conversão é uma exigência que provoca uma mudança radical na mentalidade, nos valores e na postura vital. Este fato indica a reorientação a vida para Deus, fazendo com que Ele e os valores do seu Reino passem a estar no centro da existência humana.

3) Concreto e Verdadeiro seguimento de Jesus: a comunidade de Jesus inicia-se já com um diferencial. Não são os discípulos que o escolhem como era costume acontecer com os rabinos na época. É Jesus que os aborda em meio a normalidade da vida cotidiana e lhes propõe uma audaciosa missão que causará consequências em seus lugares na família e na sociedade. A resposta daqueles que foram chamados é igualmente radical com também foi o convite. Renunciam a tudo: aos projetos pessoais, à família, ao status social, ao seu trabalho, às seguranças e etc. Esta renúncia integral nem sempre será fácil de ser vivida de modo permanente (Cf:Mc. 10,28-31 / Mt. 19,27-30), por isto que a Conversão ou Metanoia deverá ser um desejo permanente no coração de todo aquele que respondeu ao chamado e tornou-se discípulo.

             Em suma.  A vocações apresentadas neste relato revelam os traços, condições e requisitos essenciais da vida e da caminhada de todo discípulo missionário em qualquer era ou época. Necessitamos permanecer na consciência de que é Jesus que chama e que propõe o Reino. Ele apresenta o plano de salvação e nós buscamos vivê-lo. Não cabe a nós querer acrescentar coisas ou decidir o que deve ser vivido. Se faz necessária também que a renúncia seja acompanhada de abnegação e coragem para fazer com que o Reino tenha sempre a primazia em nossas vidas. O Reino é de Deus! Dele! Não é posse nossa. E somente conseguiremos realizar isto se deixarmos que Jesus Cristo seja aquilo que é: nosso Deus Salvador eLuz da salvação para toda a humanidade.

Pe. Paulo Sérgio Silva.

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.

Posts Relacionados

Facebook

Instagram

Últimos Posts