HOMILIA DO 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

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A CARIDADE É O PLENO CUMPRIMENTO DA PALAVRA DE DEUS

Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão”. (Mt. 18,15)

Amados(as) irmãos e irmãs.

            A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre a nossa responsabilidade diante dos irmãos com os quais partilhamos a fé. Pois na fidelidade à Palavra e na coerência da fé, percebemos que não podemos ficar indiferentes diante daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos responsáveis uns pelos outros.

            No evangelho de hoje, Mateus apresenta uma catequese de Jesus sobre a experiência de vida em comunidade. Às vezes nos perguntamos se as primeiras comunidades cristãs eram perfeitas ou tinham tantos problemas como nossas comunidades atuais. A esta nossa inquietação, o evangelho responde mostrando que a comunidade de Mateus era normal e muito parecida com as nossas. Nas primeiras comunidades existiam conflitos entre os grupos e movimentos e também problemas de convivência: existiam irmãos que se julgam superiores aos outros e que buscavam ocupar os primeiros lugares; irmãos que tinham atitudes prepotentes e que escandalizam e humilhavam os pobres e os fracos; irmãos que magoavam e ofendiam outros membros da comunidade e que tinham dificuldade de perdoar as falhas dos outros.  Preocupado com isto, Mateus convida os cristãos viver com simplicidade e humildade, promovendo o acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, o perdão e o amor.

            A catequese de Jesus apresentada hoje, deseja responder estas perguntas: Como é que os irmãos da comunidade devem agir diante de quem errou e causou conflito? Quem pecou ou errou deve rapidamente ser condenado e excluído? Os ensinamentos dados por Jesus, mostram que decisões apressadas e radicais não devem fazer parte de sua comunidade. A comunidade cristã é uma família, por isto sempre será preciso resolver o problema usando prudência, bom senso, maturidade, moderação, complacência e principalmente, com amor.

            A primeira leitura (Ez. 33,7-9) nos apresenta o profeta Ezequiel como responsável pela comunidade de Israel. Ele é um guardião, uma sentinela, que Deus colocou para vigiar a cidade dos homens. Sendo chamado a ser responsável, o profeta deve estar atento a tudo que pode atrapalhar os planos de Deus. Como sentinela, prudentemente deve alertar, então, a comunidade sobre os perigos. Caso seja omisso e prefira silenciar fingindo não perceber a presença do pecado no seio da comunidade, o profeta correrá o perigo de perder sua vocação e se tornará ele também sinal do pecado e do desvio. Pelo Batismo, todos nós somos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de denunciar que certos caminhos e contravalores que o mundo apresenta são prejudiciais para a humanidade. Como o profeta, não podemos nos acomodar, pois o nosso silêncio diante do pecado e das situações de injustiça nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à miséria os mais fracos e oprimidos.

            Todavia, o desejo de ser fiel a nossa vocação profética, não deve nos tornar legalistas ou radicais no sentido de colocar as regras e normas acima de Deus e dos próprios seres humanos. Ser responsável não significa ser a régua ou o chicote do mundo sempre pronto a agir bruscamente para reconduzir o coração do outro como quem conduz um animal a chicotadas. Em nossos dias proliferam “influencers digitais cristãos” que vivem comodamente em seus estúdios de gravação enquanto vomitam ferozmente regras e mandamentos. Tais intervenções destes influencers carecem da verdadeira força motriz cristã, pois suas exortações são sempre guiadas por ameaça de condenação ao inferno e não pelo receio de perder a graça de Deus. Suas orientações ainda que bem intencionadas, por não serem imbuídas de Caridade, acabam por afastar quem já está perdido pelo meio do caminho da salvação. Quem nos salvou na Cruz foi o amor de Cristo, não o medo do inferno.

 Devemos também evitar cair nas mesmas atitudes hipócritas dos fariseus que se julgavam superiores por terem as leis decoradas na cabeça, mas não praticavam nada. Por conseguinte, São Paulo, na segunda leitura (Rm. 13,8-10), ensina que quem deseja cumprir plenamente a Lei deve construir toda a sua vida alicerçada no Amor/Caridade. O cristianismo sem amor se torna uma mentira. A doutrina sem a Caridade se torna um fardo pesado. Os cristãos não podem nunca deixar de amar os seus irmãos. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei. Já dizia Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos”.

            Tendo o Amor – apresentado e vivido em perfeição por Jesus Cristo – , como base para sua decisão e ação, o cristão será capaz de seguir os passos que o Mestre apresenta na catequese do Evangelho de hoje (Mt. 18,15-20). Como proceder quando alguém da comunidade vacila e cai no pecado? O caminho certo não é falar mal por trás, comentar a falha do outro e nem espalhar boatos, Fake News (mentiras, notícias falsas) ou caluniar e difamar. A decisão certa é um encontro honesto, sereno e compreensivo com o irmão que pecou ou lhe ofendeu. Caso esta tentativa de reconciliação falhe, deve ser feita uma segunda tentativa. Essa nova tentativa deve contar com o auxílio de outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas” (Mt. 18,16) que, com serenidade e prudência, sejam capazes de fazer o desobediente perceber que seu comportamento prejudica a comunidade. Se não obtiver ainda a reconciliação, a comunidade será então chamada a confrontar o irmão desobediente, para lhe recordar as exigências da fé cristã e a pedir-lhe uma decisão.  Se mesmo assim, o irmão insistir no seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, que este irmão está decidido a não mais fazer parte da Unidade, da Comunhão que constitui a comunidade.

            O evangelho de hoje tem muito a ensinar a nossa sociedade atual que prefere julgar e condenar apressadamente tendo como base, muitas vezes, boatos infundados, mentiras e notícias falsas. Também tem muito a ensinar as famílias atuais que pensam que amar significa se calar ou esconder o erro ou pecado de nossos filhos. Isto pode levar eles a crescer achando que os erros cometidos não fizeram mal nenhum. Lembramos aqui novamente Santo Agostinho que nos exorta dizendo que “a Verdade deve ser dita com Amor, mas o Amor nunca pode impedir a Verdade de ser dita”. Deste modo percebemos a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros.

            Assim, somos convidados a respeitar o nosso irmão, mas não a ficar calados com as atitudes erradas. Amar alguém significa não ficar indiferente quando ele está fazendo mal a si próprio e a comunidade.  Significa, muitas vezes, corrigir, aconselhar, questionar, discordar etc. Na nossa vida precisamos amar e respeitar o outro, mas amar não exige que concordemos em tudo com ele, pois uma hora iremos lhe fazer observações que o irão magoar. No entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor.

            Novamente lembramos que não somos fariseus, logo a nossa intercessão junto do nosso irmão não deve ser guiada pelo ódio ou rivalidade, pela vingança, pelo ciúme ou pela inveja, mas deve ser unicamente guiada e alimentada pelo amor. Normalmente os momentos de correção podem ser permeados por emoções como nervosismo, tensão, receio ou temor. Tais emoções podem dificultar ou atrapalhar o bom resultado do encontro. Todavia, os últimos versículos do evangelho de hoje lançam uma luz que pode iluminar a condução deste momento e pavimentar o recomeço da relação fraterna que havia sido fraturada pelo desentendimento. Não importam onde estejamos ou quantos formos, se nos reunirmos guiados pela Caridade, Jesus Cristo se fará presente em nosso meio e haverá a comunidade novamente a Unidade do seu amor.

Rezemos: Nós Te damos graças, Deus de amor, pela Lei viva que nos deste em Jesus Cristos e pelos teus profetas enviados em todo o tempo como sentinelas, para vigiar o nosso caminho e para nos guiar. Nós Te pedimos por todas as nossas comunidades cristãs, que a tua Palavra, fruto do teu Espírito Santo, nos purifique das más condutas que prejudicam nosso testemunho e ferem a dignidade humana. Amém.

Pe. Paulo Sérgio Silva

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.

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