HOMILIA DO 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

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REJEITADOS PELO MUNDO, ACOLHIDOS PELO REINO

Me comprazo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas angústias, por causa de Cristo. Com efeito, quando sou fraco, então sou forte.” (2Cor. 12, 10)

A liturgia deste domingo revela que Deus chama, permanentemente, os mais diversos tipos de pessoas para serem testemunhas no mundo do seu projeto do Reino. Não cabe a nós decidir se elas são adequadas ou não para tão grande missão. Seguimos o projeto do Reino de Deus e não os nossos projetos, construídos a luz das aspirações humanas e interesseiras. Mesmo que essas pessoas aparentem ser frágeis e limitadas, a Graça de Deus revelar-se-á através da fraqueza e da fragilidade desses instrumentos humanos que Ele escolheu, chamou e enviou.

A primeira leitura retirada do livro do Profeta Ezequiel (Ez. 2,2-5) apresenta-nos um pequeno episódio de sua vocação e missão de profeta. Os fatos narrados pretendem assinalar que o seu chamado profético é uma iniciativa exclusiva de Deus, que o denomina como “filho de homem” para ser, no meio do seu Povo, instrumento da voz divina.  Aqui a expressão “filho de homem” provavelmente quer indicar um ser humano “normal”, com sua história pessoal cheia de altos e baixos, com os seus limites e fragilidades próprias da humanidade. Ao chamar Ezequiel, homem comum, sem qualidades extraordinárias e que não descende das famílias poderosas, Deus revela que mais importante do que as atribuições delegadas pelo meio social, são a eleição, autoridade e a dignidade que o chamado divino confere ao profeta. Um segundo ponto importante é a fidelidade do vocacionado. Ainda que seus clamores sejam ignorados pelo povo de coração endurecido pelo pecado, o mais importante é que ele continue bradando o chamado à conversão, permanecendo como sinal da insistente e incansável presença de Deus. Nisto o ministério do profeta Ezequiel manifesta plenamente a situação vivenciada por Jesus Cristo no evangelho de hoje.

Na segunda leitura (2Cor. 12,7-10), continuamos acompanhando a terceira parte da defesa de Paulo ante as calúnias das quais foi vítima em Corinto. O Apóstolo, utilizando sua própria vida e história como exemplo, certifica e declara aos fiéis da comunidade cristã de Corinto que Deus age e manifesta a sua vontade no mundo através de instrumentos mais débeis, finitos e limitados. Se tratam de palavras afetuosas, mas ao mesmo tempo mordazes e duras por causa da necessidade de fazer surgir a verdade da fé, e em defender a autenticidade do seu ministério. Na sua primeira carta a mesma comunidade, o Apóstolo já havia afirmado: “o que, porém, para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios; e o que é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte.” (1Cor. 1,27). Na ação do apóstolo – ser humano, vivendo na condição de finitude, limitações, vulnerabilidade e debilidade – manifesta-se ao mundo a a força revitalizadora do Deus revelado pelo mistério da Cruz. Como Ezequiel (primeira leitura) e Jesus Cristo (Evangelho) Paulo lembra que sua debilidade biológica, finitude e a fragilidade não são determinantes ou decisivas para a veracidade de seu ministério, mas sem dúvida alguma é a Graça daquele que o chamou mesmo conhecendo suas limitações humanas.

No Evangelho (Mc 6,1-6), deste domingo somos transportados de Cafarnaum para a cidade de Nazaré, lugar onde Jesus havia vivido boa parte de sua infância e juventude. Marcos ao mostrar o modo como Jesus foi acolhido pelos seus conterrâneos, reforça uma ideia que aparece nas outras duas leituras: É preciso respeitar a liberdade e sabedoria divina, pois Deus manifesta-Se aos homens na fraqueza e na fragilidade. Quando a humanidade se recusa a entender esta realidade, facilmente perdem a oportunidade de descobrir o Deus que vem ao seu encontro no concreto da história e de acolher as provocações vocacionais que Deus lhes apresenta. O verdadeiro vocacionado não faz de sua humanidade frágil o alicerce de sua missão, mas pelo contrário, permanece ancorado na Graça redentora.

Nós, atuais discípulos, costumamos censurar ou reprovar a atitude que o povo de Nazaré teve para com Jesus. E ao fazer isto, facilmente esquecemos que é quase sempre a mesma atitude que temos para com os irmãos que nos ajudam a anunciar o evangelho em nossas paróquias e comunidade. No entanto, provavelmente teríamos a mesma atitude se tivéssemos a ditosa oportunidade de encontrar o Filho de Deus caminhando pelas nossas estradas.  Por isto, muitas vezes não aceitamos as pessoas que Deus chama para nos evangelizar. Como os contemporâneos de Jesus, precisamos ter consciência, também, que as nossas limitações e indignidades muito humanas não podem servir de desculpa para não realizar a missão que Deus quer confiar-nos.

Como Ezequiel e Paulo, Jesus não se deixa intimidar ou abalar. Permanece manifestando que foi enviado de Deus, que age em nome deste mesmo Deus e que sua mensagem é a Palavra definitiva que Ele desejar oferecer a humanidade. Como no tempo messiânico, a humanidade ainda permanece necessitada de receber o anúncio da Boa Nova, mesmo sejamos apedrejados verbal e fisicamente, mesmo que sejamos perseguidos, menosprezados ou expulsos permaneçamos decididos a seguir o conselho que o próprio Paulo deu a seu companheiro Timóteo: “Proclama a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, convence, repreende, exorta, com toda a longanimidade e ensinamento.” (2Tm. 4,2-4).

Padre Paulo Sergio Silva.

Diocese de Crato.

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