HOMILIA DO 13º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

Compartilhe:

DEUS: FONTE DE VIDA, LIBERTAÇÃO E SALVAÇÃO

Ele disse: Filha, a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada da doença; Talitá cum – Levanta-te!” (Mc.  5, 34.41)

            Qual é o projeto final de Deus? Seria um projeto de sofrimento que culmina na morte? Respondendo esta pergunta, a Palavra do Senhor deste domingo mostra-nos a fecundidade da fé, como caminho que comunica a Vida. Deus é o autor da vida e criou o ser humano para partilhar de sua vida eterna. Jesus, Salvador da humanidade, convida-nos a assumir um compromisso com a humanidade para que todos tenham vida em abundância. Assim, as duas atitudes de fé que presenciamos hoje, iluminam o nosso caminho, a fim de que possamos também nós, viver esta mesma vida transformada.

            Na primeira leitura (Sb. 1, 13-15; 2,23-24), meditamos um trecho do Livro da Sabedoria. Ele foi escrito na época que o povo eleito estava vivendo na diáspora com os pagãos do mundo grego. Logo, se trata de um livro que apresenta a fé do povo eleito mesclada com algumas correntes da filosofia grega. Por isto, ele compõe um conjunto de livro chamado Livros Sapienciais. A passagem que refletimos, nos ensina que quem se confia a Deus, pela fé, experimenta sempre a vida; para o justo, morrer é entrar na imortalidade. Criado a imagem e semelhança de Deus, o ser humano é fruto do seu amor e chamado à comunhão eterna com o Criador, que busca restaurar a vida quando esta é ferida pelo mal e o pecado. A morte adentra a história por inveja do diabo e atinge aqueles que, afastando-se de Deus e aderindo ao pecado, escolhem pertencer ao diabo. Pensemos na realidade de nossa sociedade atual. Estamos com algum projeto que traz morte ao invés de vida? Assim como autor do livro foi chamado a anunciar sua fé aos judeus que estavam no meio do paganismo, na idolatria e na imoralidade, nós, cristãos atuais, permanecemos chamados a defender a vida em todas as suas dimensões e instâncias.

            Na segunda leitura (2Cor. 8, 7.9.13-15), São Paulo, recordando a prática da caridade e partilha vivida pelo povo de Israel no Antigo Testamento, exorta a comunidade de Corinto a praticar a ajuda com seus dons materiais às comunidades mais carentes. O apóstolo justifica esse pedido usando como modelo a generosidade de Cristo, que sendo “rico, fez-Se pobre por vossa causa, para vos enriquecer pela sua pobreza”, oferecendo sua maior riqueza: a própria vida para nossa salvação. Os cristãos de Corinto vangloriavam-se dos carismas e esqueciam das obras de misericórdia. Paulo os recorda que abundância de carismas, a fé, a palavra e a ciência, devem, conduzir a prática da caridade, maior de todas as virtudes.

            Jesus, em sua vida e missão, é a expressão concreta da ação salvadora de Deus Pai. Ele percorre os lugares anunciando o seu Reino de paz e de vida em abundância para todos. À medida que ele anuncia e age como expressão da chegada deste Reino, sua fama espalha-se, porque uma força revitalizadora brota d’Ele. Se trata da força da Ressurreição, o Espírito de vida. São sinais do Reino que Marcos apresenta nos fatos narrados em Mc. 5,21-43 e que meditamos afim de encontrar vida e verdade em nossa missão.

Depois de narrar os fatos acontecidos na travessia do Mar da Galiléia onde foi revelado o poder de Jesus sobre as forças da natureza/criação (no domingo anterior em Mc. 4,35-41), Marcos nos coloca na companhia da comunidade apostólica, em algum lugar que embora não seja identificado pelo nome, provavelmente se trata de alguma parte da cidade de Cafarnaum.

O evangelista apresenta duas pessoas que embora não partilhem dos mesmos grupos sociais, estão unidas por circunstâncias semelhantes: as forças da morte e a fé em Jesus Cristo. Jairo, proeminente membro da comunidade judaica local e uma mulher de nome desconhecido, cuja doença a impedia de ter uma vida religiosa e social. Os dois representam grupos extremos da sua comunidade: o grupo dos que vivem imersos nos rituais da fé e o grupo dos que vivem marginalizados por circunstâncias da vida e não auxiliados pelas normas doutrinárias.

            Jairo e a mulher doente estão animados da mesma certeza e da mesma confiança: só Jesus pode curar, libertar e salvar. Como cristãos, discípulos missionários, estamos nós, transbordando, também desta mesma convicção? A fé dos dois apresenta dois aspectos importantes: ambos acreditam, que Jesus é o Senhor da Vida. É Ele a fonte onde poderiam ver brotar sua salvação através da generosidade infinita de Deus. As duas pessoas que recebem a ação salvífica possuem muito em comum: a mulher estava doente há 12 anos e a jovem, filha de Jairo, morreu aos 12 anos, a idade em que se devia tornar mulher. A mulher vive curvada e deteriorada pela doença, a jovem, agora, prostrada pela morte. A mulher, atingida na sua fecundidade, não pôde se tornar mãe e ininterruptamente perdia o seu sangue, princípio de vida, fato que fazia  que seu ato de viver, fosse sinal da presença constante da morte. A jovem perdeu a vida, precisamente na idade em que se preparava para transmitir vida através da maternidade. Elas recebem vida nova através do dom de gerar novas vidas. Estas duas mulheres representam a Igreja, na sua vocação e missão de dar e de alimentar a vida da humanidade em Cristo.

            Como na passagem da tempestade e mar acalmados, aqui as palavras usadas por Jesus são imperativas e propositais. Elas expressam a onipotência divina plena de um dinamismo de vida. Aqueles que foram tocados pela salvação que vem do Senhor já não precisam viver prostrados pelo peso do pecado. As expressões usadas – fica, levanta-se, ergue-se, caminha – fazem referência à ressurreição. As duas mulheres embora sendo imagem do Deus criador que comunica a vida, estavam impedidas por situações diversas de manifestar este dom. Depois do encontro com Jesus Cristo, uma vez libertas e salvas, podem manifestar a presença de Deus pela comunicação da vida a um filho. No final de sua missão, o próprio Jesus terá que enfrentar a dura realidade do sofrimento e da morte, momento onde por livre vontade, se deixará prostrar na Cruz para poder nos erguer com a vida eterna. De sua morte será comunicada não apenas a vida biológica como feita no momento da criação primordial, mas também a vida definitiva e abundante: a vida eterna.

            Jesus, mergulhado no barulho da numerosa multidão, ao ser capaz de sentir o leve toque daquela mulher e ouvir o apelo aflito de um pai, revela a benevolência de Deus, capaz de nos ouvir atentamente mesmo em meio a ação constante da criação. Que todos possamos fazer a mesma experiência transformadora: tocar e ser tocado pelo Deus da Vida. Uma experiência que nos transforma de dentro para fora e nos torna também comunicadores de vida nova, abundante e eterna para toda a humanidade. Somos discípulos missionários do Senhor da Vida, nossa missão é defender a vida, seja ela vida biológica ou vida eterna, desde o instante da concepção até o seu término. Defender e alimentar a vida e sua dignidade para todos a tenham em abundância.

Pe. Paulo Sérgio Silva.

Diocese de Crato.

Posts Relacionados

Facebook

Instagram

Últimos Posts