HOMILIA DO 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

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O NOSSO AUXÍLIO ESTÁ NO NOME DO SENHOR

Começou a soprar uma ventania muito forte; Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro.” (Mc.4,37-38)

            Será que Deus vai rejeitar-nos para sempre? E nunca mais nos há de dar o seu favor? Por acaso, seu amor foi esgotado? Sua promessa, afinal, terá falhado? Será que Deus se esqueceu de ter piedade? Será que a ira lhe fechou o coração? Assim canta o poeta no salmo 76(77) cujas indagações são inteiramente respondidas pela Palavra de Deus que refletimos hoje. Deus preocupa-se e age diante de nossas tribulações. Ainda que não o vejamos nem sintamos a sua presença, Ele permanece ao nosso lado nos momentos de sofrimento enfrentados ao longo da nossa vida, cuidando com amor de pai e oferecendo-nos a cada passo a vida e a salvação.

            A primeira leitura (Jó. 38,1.8-11) pode aparentar um ato de humilhação de Deus para com o seu servo fiel, Jó. Todavia se trata de um engano.  O objetivo do diálogo é responder às questões de Jó e fazê-lo perceber a insensatez das suas críticas. Ao recordar a Jó a sua onipotência criadora, Deus, apresenta sua transcendência e majestade, mas também revela que tem para a criação um plano amadurecido, fruto de sua infinita sabedoria. Assim, o ser humano, na condição de criatura finita, deve buscar compreender o sentido dos planos divinos, e mesmo quando não alcançar a plena compreensão do agir divino, entregar-se nas mãos de Deus com humildade e confiança e descobrir qual o seu lugar neste plano de amor.

            Na segunda leitura (2Cor. 5,14-17) O que é que realmente impulsiona o Apóstolo Paulo? Qual a razão do seu ministério? Porque Paulo insiste em anunciar o Evangelho mesmo em meio a tantas calúnias, rejeições e incompreensões? É a sua confiança plena na presença Deus, fruto do seu encontro pessoal com seu Filho Unigênito, Jesus Cristo. A partir de sua experiência, Paulo garante-nos que o nosso Deus não é um Deus indiferente, que nos deixou abandonados à desgraça do pecado. A ação de Jesus, que liberta do egoísmo escravizador, ao nos propor a liberdade do Reino revelou Deus que nos ama e que quer nos conduzir ao caminho da vida.

            Quando refletimos sobre o mundo, diante do sofrimento, ficamos com a sensação de nos encontrarmos em constante caos. Diante desta realidade, viramo-nos para Deus e com nossa pouca compreensão, às vezes O acusamos de estar ausente e indiferente. No Evangelho (Mc. 4,35-41), a partir desta perspectiva, Marcos lança um olhar catequético sobre a realidade da caminhada dos discípulos em missão no mundo. A atuação de Jesus Cristo nos garante que os discípulos nunca estão sozinhos a enfrentar as tempestades que todos os dias se levantam no mar da vida e da missão da Igreja. Os discípulos erraram porque só lembraram da presença de Jesus quando se viram numa situação desesperadora. Igualmente acontece conosco. Às vezes somente diante de uma catástrofe recorremos a Deus para que nos salve, e interfira milagrosamente, pacificando o caos. Assim como eles na barca, esquecemos a presença constante e permanente de Deus na nossa vida e na missão.

            Nos concentremos na rica simbologia que o evangelista nos oferece na sua catequese. Marcos inicia a narração deste episódio informando que a viagem marítima se inicia “ao cair da tarde”, ou seja, no crepúsculo, início da noite, indicando as provações que estavam por vir como a mudança da luz para as trevas. Na Bíblia, tanto o mar como as trevas – apresentados no evangelho como cenário – indicam um ambiente perigoso e hostil porque designam algo desconhecido e a presença de forças que se opõe ao poder divino e ameaçam a vida humana. O barco, lugar onde se encontram Jesus e os discípulos, é símbolo da comunidade cristã (Igreja). Jesus está no barco, mas são os discípulos que o conduzem, pois, à Igreja foi confiada a missão de conduzir a humanidade pelas “águas revoltas” da história. Ao designar que o barco (Igreja/Comunidade) tem como destino a “outra margem do mar” que era a região dos pagãos, o evangelista indica que os discípulos devem ir a todas as línguas, raças e culturas para anunciar a chegada do Reino de Deus.

            “Ainda não tendes fé?” Ter fé é estar consciente da presença de Jesus ao nosso lado em todos os momentos e não apenas quando necessitamos de uma intervenção imediata e mágica para nos livrar das dificuldades. “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” A pergunta dos discípulos é a interrogação que todos os seres humanos devem fazer.  Afinal é impossível que nos deparemos com a pessoa de Jesus sem nos interrogar sobre quem Ele é. E o Evangelho fornece a chave do mistério da sua pessoa.

            A atitude deles, ainda que permeada por desespero, nos revela como devemos proceder diante dos desafios da missão: recorrer a Jesus Cristo. A missão confiada a nós por vezes apresenta-se incompreensível e com cenários desconcertantes. Diante das incertezas e do inesperado, lembremos do mistério insondável de Deus onipotente, que mesmo quando se revela, ainda resulta profundo e enigmático para nossa fria lógica humana. O que fazer? Desesperar-se? Desistir? Não! Resta-nos entregarmo-nos nas suas mãos com firmeza, humildade e confiança. No percorrer da história, haverá sempre desafios que Deus nos coloca como que desafiando nossa racionalidade, abalando as nossas certezas e subvertendo os nossos projetos pessoais, individuais e até comunitários.

            Este mesmo Evangelho, que é Palavra de Salvação, nos convida a viver uma fé otimista. Esse otimismo é fruto da certeza de que Cristo permanece no meio de nós. Sua presença permanente, cujo ápice é a entrega da própria vida na cruz gesto, deve nos conduzir a segui-lO pelo mesmo caminho. É indispensável sempre olhar para a frente como o Apóstolo Paulo e deixar-se guiar pela certeza da Sua presença constante na nossa vida.

Pe. Paulo Sérgio Silva.

Diocese de Crato.

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