HOMILIA DO 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B

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SOMOS SEMENTES DO REINO DE DEUS

Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender.” (Mc. 4, 33)

            A liturgia de hoje convida-nos a reunir-se em torno de Jesus enquanto contemplamos o mundo com esperança e confiança na ação discreta e misteriosa de Deus. Sua Palavra nos ensina a descobrir todas as pequenas manifestações de sua presença entre nós. Compreendemos que a edificação do seu Reino ultrapassa nossas divisões e que ele não depende exclusivamente de nossos planos pastorais de gaveta ou de nossas inúmeras ações ativistas e carentes de espiritualidade. O Reino é fruto da escuta atenta a sua Palavra, da fidelidade a sua vontade e do seguimento ao Evangelho, com humildade e na oração.

            Na primeira leitura (Ez.17, 22-24), o profeta Ezequiel oferece alento e esperança no momento da maior crise de fé do povo de Israel: o exílio da Babilônia. O povo pode ter rejeitado e esquecido da fidelidade, mas Deus não esqueceu a Aliança. Utilizando-se de alegorias e parábolas, o profeta revela que mesmo em meio a experiência de desolação, vivida no exílio, sobrará uma pequena parte do povo. Ele compara esse pequeno resto a um diminuto ramo que Deus colherá da copa de uma árvore frondosa e transplantará no alto do seu sagrado monte. Ali, ele crescerá e ramificará a ponto de aves do céu fazerem ninho em seus ramos (Ez. 17,22-23/ Mt. 4,32). Eis a profecia messiânica: Do povo que sobreviver na fidelidade, Deus fará “brotar” o Salvador (Is 11,1-4). O profeta encerra utilizando-se de apenas quatro palavras que são um convite para o povo eleito rever seu modo de proceder, converter-se e recordar a presença fiel do Senhor ao longo de sua história: “Eu, o Senhor, digo e faço” (Ez.17,24).

            Na segunda leitura (2Cor. 5, 6-10), nos domingos anteriores, nos foi apresentada a situação de crise pastoral que se instalou entre o Apóstolo Paulo e Comunidade Cristã de Corinto devido as desconfianças e calúnias das quais o apóstolo foi vítima. Ele, aprofundando o tema da fidelidade em meio à crise de fé, lembra-nos que a vida terrena, na sua brevidade, é uma peregrinação em direção a vida eterna e a comunhão plena e definitiva com Deus. O cristão sabe que o Reino de Deus, embora já edificado na história, alcançará a sua plena realização no final dos tempos, quando todos estiverem sentados à mesa de Deus. Paulo não nega a onipotência divina, todavia reconhece que é vontade de Deus não agir sozinho, mas sim com a nossa colaboração. Como pregava Santo Agostinho, a Graça não destrói, mas pressupõe, aperfeiçoa a natureza humana, isto é, não nos dispensa das boas obras, mas nos convida a produzi-las com o bom uso de nossa liberdade. Em suma, nesta vida e na outra, sentimos e sentiremos o amor de Deus com a mesma intensidade com que o amamos e praticamos este amor.

            O Evangelho (Mc.4, 26-34), de forma pedagógica e catequética, nos introduz aquele mistério que é o centro da vida e da missão de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Através das parábolas, entendemos que embora o projeto do Reino – à luz da lógica humana – pareça condenado ao fracasso, ele possui o misterioso dinamismo de Deus, e sendo assim, mesmo em meio a todos os desafios, acabará por ser semeado, crescerá e estenderá seus ramos a todos os corações.

            No primeiro momento, Jesus nos apresenta o Reino como algo que começa minúsculo, mas que se desenvolve misteriosamente para a época da colheita. O agricultor quando lança a semente, depois de preparar a terra, provavelmente passa por momentos de crise devido à incerteza de ver ou não germinar os brotos. De modo semelhante, o discípulo atravessa incertezas, conflitos interiores e tensões ao proclamar o Evangelho no interior do coração humano. No entanto, assim como o serviço do agricultor se encerra no lançar da semente que não depende do seu olhar para crescer, o discípulo deve saber que seu dever é “lançar’ o Reino, depois de feito o anúncio, o restante é obra da Graça divina em diálogo com o coração e liberdade humana.

          No segundo momento, o Reino surge como algo diminuto que cresce de modo misterioso e inesperadamente e que se torna algo atrativo, onde os humanos, à semelhança de pássaros, procurarão abrigo. Ao longo da história, inúmeras e diversas formas de vida social foram apresentadas ao coração humano e nenhuma delas foi capaz de suprir os mais íntimos desejos do nosso espírito. Utopias, distopias e ideologias ainda que imperem ou tenham imperado por um curto período de tempo, todas ficaram e ficarão, paulatinamente, pelo caminho da história. O Reino de Deus, sem pompa, pressa ou ostentação, permanecerá. A semente lançada por Jesus fará com que a realidade terrena manchada e debilitada pelo pecado, aos poucos, ceda lugar ao novo céu e à nova terra onde habita a justiça e que Deus quer oferecer a todos (2Pd. 3,13 /Ap. 21,1-4).

            Mas o que é o Reino de Deus? E por que ele é o centro da vida e missão de Jesus Cristo? É preciso sempre lembrar que o Reino em si não recebe nome de nenhuma instituição. A Igreja é parte do Reino, mas o Reino não se resume, limita ou se restringe a Igreja. Ele é a manifestação da atuação e da presença de Deus na história. Manifesta uma transformação que não é conquistada pela violência ou pelas manipulações que muitas vezes fazemos uns dos outros justificando que estamos fazendo a vontade de Deus para o bem da Igreja, mas que surge e age a partir do interior dos corações daqueles que, aceitando a graça divina, mudam o modo do ser humano se relacionar com Deus e consigo mesmo; fazendo com que nossas relações sociais sejam frutos de misericórdia, a justiça e direito.

            As parábolas de hoje são um convite a prática das virtudes da esperança, da confiança e da paciência. Aprendemos que nas ações simples e aparentemente insignificantes, pode estar presente o dinamismo avassalador de Deus que, de modo discreto e irresistível, atua na história enquanto oferece a humanidade caminhos de salvação e de vida plena.

Pe. Paulo Sérgio Silva.

Diocese de Crato.

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