Formação: ‘No nosso discipulado, haverá sempre uma mão que se estenderá a nós’

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Olá, caríssimos!

As narrativas bíblicas que compuseram a liturgia da palavra neste 19º Domingo do Tempo Comum nos condicionam à reconstrução de um cenário que faz uma tessitura com a personalidade do discípulo, os desafios da evangelização frente a um mundo de contrariedades e a identidade de Jesus. O Evangelho de Mateus (14, 13-21), que sucede ao relato da multiplicação dos pães é, certamente, uma proposta de reflexão em torno do vocacionado que, ao abraçar uma causa tão nobre, experimenta as incertezas, as inseguranças, as instabilidades e uma dor invasiva que continuamente é renovada. Convida-nos a adentrar na escola da fé e a ocupar a sala magna para indagar: quem é Jesus?

A narrativa nos ambienta a partir dos elementos: o monte, o barco, o mar, o vento e a obscuridade; bem como a temporalidade: três horas da manhã (a hora da tentação e do escárnio) e o estado de ânimo dos discípulos por via dos paradoxos: coragem versus pavor, medo; estender a mão versus afundar; fé versus a dúvida, o grito, a angústia.

A partir do milagre ou, melhor dizendo pela linguagem de João, do sinal, andar sobre as águas, que o grupo dos doze obteve o privilégio como testemunha ocular, põe-se em evidência a divindade de Jesus. Quem é este que caminha sobre o mar? Não se trata de um espetáculo, mas de uma situação concreta que surpreende até mesmo as leis da física. A narrativa tem seus desdobramentos na relação dialógica entre Jesus, o carpinteiro; Pedro, o pescador, e dois cenários: o monte, que Jesus toma como lugar oportuno para a solidão, e o confronto consigo mesmo, a fim de nutrir-se no vínculo indissolúvel com o Pai. Esse paralelismo é uma linguagem da pedagogia ‘mateana’ nesse nosso esforço em compreender a trama que nos une em Deus e o lugar que ocupamos no mundo.

A descida de Jesus do monte é a expressão de Deus que toma a iniciativa e insistentemente se movimenta, desde suas entranhas, ao nosso encontro; e a imagem de Pedro, com a qual nos identificamos, dominada pelo medo, é fruto de uma ‘somatização’ do mar agitado pela força do vento abrupto. Com a inquietação evocada pelo vulto, o suposto “fantasma” é o delineamento da nossa pobre condição humana.

O Evangelho sublinha o domínio de Jesus sobre a natureza como propriedade do seu messianismo. A confirmação procede na proclamação definida como um ‘precônio’ da profissão da fé ‘cristocêntrica’ da Igreja: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”. Isso parte da declaração de Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”, uma alusão ‘mnemônica’ ao episódio da sarça ardente: “Eu Sou”, que suscita uma perspectiva ontológica. A presença do Senhor é, certamente, o sinal do equilíbrio e da estabilidade numa contraposição às ameaças ao ímpeto ‘kerigmático’ e seus desdobramentos na história.

Pedro, ao perceber sua finitude, é alavancado dentro de si, duvida e sente medo. Porém, pelo gesto de Jesus ao estender sua mão como resposta à súplica “Senhor, salva-me!”, reflete um convite ao amadurecimento, não como simples proposta de reconhecimento de Jesus como o Cristo da fé, mas em fazer da própria existência um receptáculo da graça divina. Por isso, Pedro o recebe em sua barca, uma vez que esta, como metáfora da Igreja, vive numa constante aventura e se impõe como sinal da resistência, embora tão frágil.

Bonito percebermos o sentimento que invade o coração de Pedro ao ouvir a voz do mestre: uma aguçada sensibilidade de ovelha diante de seu pastor, que se sente profundamente amada e, ao mesmo tempo, desconcertada. É isto que o amor promove: o encontro. O vínculo entre duas personalidades que se acolhem: Jesus, o sinal da firmeza, a âncora; e Pedro, a personalidade decidida e impulsiva, ora ingênua, medrosa e energicamente reativa; consciente de si e, por inclinação natural, assume a tarefa de líder por suas iniciativas.

Deveríamos, portanto, evitar um cristianismo demasiado humano, no qual Deus atua à medida das nossas expectativas, caricaturando-o ao nosso modo. Ele não intervém dispersando as tempestades, mas fazendo-nos crer que somos mais fortes do que a própria incompreensão e rejeição do mundo. O melhor convencimento é a nossa expressão de amor pelo Senhor que ratifica o valor da fé.

No nosso discipulado, haverá sempre uma mão que se estenderá a nós, fomentando-nos a dar o melhor de nós mesmos ao mundo, carregando no nosso coração uma centelha divina. O medo pode nos deixar inertes e na cômoda resignação, porém o amor impulsiona a coragem, põe-nos em campo, em luta. No fundo, não é Deus quem nos abandona em meio às tempestades, somos nós quem facilmente o abandonamos.

Por: Padre Ismael Vogas, pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Palestina do Cariri, distrito de Mauriti, Ceará.

 

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