Esta é uma das principais obras do santo francês Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), cuja memória se celebra a 28 de abril. Foi escrito pelo santo pouco tempo antes de sua morte, porém o método de consagração a Jesus por Maria, ali exposto, já vinha sendo pregado por esse missionário apostólico nas aldeias francesas. O manuscrito só veio à luz 130 anos depois que foi escrito, quando um sacerdote monfortano o encontrou numa arca de madeira.
São Luís, homem de vigor apostólico, escreveu outras obras, entre as quais Amor da Sabedoria eterna e Carta aos amigos da Cruz, nas quais se concentra sua espiritualidade radicalmente evangélica. O Tratado, nessa esteira, pretende seguir essa motivação evangélica, sobretudo por associar o reino de Deus ao reino de Maria, quando nos corações triunfa a virtude e o amor do próprio Deus.
A obra, muito estimada por devotos, entre os quais São João Paulo II, cujo lema Totus tuus, Maria (Todo teu, ó Maria) reflete o ideal da consagração proposta por São Luís, segue uma divisão interna bem pedagógica. Partindo de uma extensa introdução, na qual o autor apresenta o lugar e a grandeza de Maria no plano da salvação, o livro se divide em capítulos. O primeiro capítulo trata da necessidade da devoção à Santíssima Virgem; o capítulo segundo expõe as verdades fundamentais acerca dessa devoção; o terceiro trata da escolha da verdadeira devoção; o quarto indica a natureza da perfeita devoção; o quinto apresenta os motivos que recomendam tal devoção; o sexto traz uma figura bíblica (Rebeca e Jacó) para ilustrar o que o santo disse até então, usando o método alegórico, o sétimo indica os efeitos da devoção naqueles que lhe são fiéis e o oitavo capítulo expõe as práticas da devoção. As edições sempre trazem dois suplementos, com o modo de praticar a devoção na comunhão eucarística e as orações indicadas ao longo do Tratado para a preparação da consagração a Nossa Senhora.
O livro constitui um elogio, um devocionário, mas também um pequeno manual de mariologia, ao seu modo, evidentemente. O santo escreve atento ao rigor teológico do seu tempo, citando as Escrituras e os Padres da Igreja abundantemente, bem como os Concílios, os teólogos, entre os quais Santo Tomás de Aquino e São Boaventura, e autores espirituais, como São Bernardo. Logo de início, o leitor pode apreender a clareza, profundidade e simplicidade de seu autor: “Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo” (Introdução, n. 1). Maria é apresentada como obra-prima da graça e medianeira junto a Jesus, mediador entre Deus e os homens.
Ao expor a consagração a Jesus por Maria, o santo indica que se trata de uma verdadeira renovação e vivência dos votos (promessas) do batismo. O termo usado por São Luís para se referir a essa consagração total pode soar estranho ao homem contemporâneo – escravidão de amor. Entretanto, trata-se da espiritualidade da entrega e total dependência de Jesus por meio de Maria. Ou, nas palavras do autor, consiste em tudo fazer por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus, tendo Maria por meio. A consagração, portanto, é apresentada como um caminho de santidade e perfeição, consistindo na imitação das virtudes de Maria, aquela que gerou, nutriu e educou o Filho de Deus encarnado.
Neste mês mariano, às vésperas da memória de Nossa Senhora de Fátima, a leitura e meditação dessa obra devocional pode trazer efeitos espirituais e grande bem àqueles que a lerem, na confiança e entrega filial à Mãe do Redentor, que continua a repetir a todas as gerações de cristãos: “Fazei tudo o que ele (Jesus) disser” (Jo, 2,5). Ademais, nestes tempos de angústia e incertezas, convém recordar as palavras de Maria aos pastorzinhos de Fátima: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará”.
Livro: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria;
Autor: São Luís Maria de Grignion de Montfort;
Editora: Vozes;
Ano de publicação: 2015;
Páginas: 320.

Por: Rodrigo Rêmulo Leite, seminarista da Diocese de Crato, cursando o 4º ano de Teologia.





