Assunção de Nossa Senhora: dilatar o coração e aspirar à transcendência

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Olá, caríssimos!

A literatura sagrada deste domingo nos move a cantar, ao modo polifônico, as maravilhas de Deus, ladeados por uma personalidade tão delicada, cuja alma, adornada de tantas virtudes, viu-se invadida por uma imensa alegria de sentir-se amada e dotada de um privilégio entre tantas jovens de Israel pelo seu Senhor, de tal modo que se vê impelida a responder positivamente à vocação que é amar, um amor que lhe envolve e enseja eternidade.

A disposição de Maria de ir ‘apressadamente’ ao encontro de sua prima Isabel manifesta o nobre interesse de colocar-se a serviço mediante às urgências domésticas de uma gestante, como resposta concreta e imediata após o consentimento, o “fiat”, ao projeto divino. Porém, destacamos o sentimento de levar o “melhor de si” aos outros como portadora da graça, a “raris”.

O Evangelho de Lucas enaltece a figura da Virgem de Nazaré revelando-a ao leitor a partir de uma personalidade que se configura num receptáculo divino: um rosto com expressão particular e gesto de profunda oblação de si mesma à humanidade. Maria é delineada pelo seu aspecto servil, prontidão refletida, obediência que não se confunde com mera subserviência, humildade pela disposição sincera e consciente à fé. É, sem dúvida, a mulher cujo ser é um “ser para o outro”.

A saudação angelical permanece em sua vivacidade na saudação mariana, cujas palavras reverberam na casa interior de Isabel, fazendo-a reconhecer a presença do seu Senhor que se manifesta e transfigura toda a realidade. Cheia de hospitalidade e numa aspiração divina exprime, nessa relação dialógica, uma profissão de fé na maternidade messiânica.

Vemos em Isabel uma mulher temente a Deus, posta em paralelo a Maria, não apenas por um vínculo de consanguinidade, mas pela relevância na história da salvação. Esse quadro feminino realça a operacionalização do extraordinário de Deus rompendo os paradigmas humanos. Isabel transita das humilhações da esterilidade à exultação da fertilidade, precedendo então a figura de Maria que, na sua condição virginal, experimenta a beleza de ser genitora permanecendo na integridade física e moral. Eis que o encontro entre as duas mães consiste, portanto, no encontro entre os dois filhos: João, o precursor; e Jesus, o redentor. Mais tarde, hão de encontrar-se nas águas do Jordão. Um para dar consumação à sua tarefa como indicador e pedagogo no processo de conversão (a Metanoia). O outro para inaugurar o seu ministério de restauração de todo o gênero humano. Enxergamos, pois, que tudo que se encontra no início tem seu pleno significado no fim.

O ‘magníficat’, como ressonância da declaração de Isabel, “bem aventurada aquela que acreditou”, materializa-se numa autêntica expressão rítmica de louvor particular. Este se deslancha num espirito de gratidão ou reconhecimento da benevolência de Deus por não deixar o seu povo num estado de orfandade, assumindo, também, num aspecto coletivo, a voz de todo o Israel (como a Filha de Sião) que conservou consigo, desde os tempos mais remotos, as expectativas do cumprimento das promessas messiânicas. A partir de então, passa a celebrar o amor esponsal de Deus na convicção de uma aliança indissolúvel. Deus atraiu para si a serva de Nazaré e realizou uma nova criação no seio da humanidade e, assim, sentamo-nos à mesa participando do banquete, cujo anfitrião, o próprio Deus, promove o encontro e um aguçado senso de humanidade.

O Papa Pio XII diligentemente declarou, por meio da Constituição Apostólica ‘Munificientíssimus Deus’ que, “no término do curso da vida terrena, a Virgem Maria foi elevada à glória celeste em corpo e alma”, outorgando como dogma de fé e amadurecendo por um resgate a “Festa da Dormição”, introduzida na metade do século VI. Nessa festa, a morte é caracterizada como “um sono na morte ou uma morte no sono”, para distinguir da “morte comum” que atinge inevitavelmente todo ser imerso na tríplice dimensão da história.

A Virgem Maria participa de um modo singular da ressurreição de seu Filho, por privilégio da maternidade divina, antecipando, desse modo, num panorama escatológico, um “já” e “ainda não”, o fenômeno da “Parusia”, no qual os cristãos assumirão um corpo luminoso semelhante ao do ressuscitado.

Evidentemente, o termo “assunção” designa passividade ou dependência num comparativo à autoridade de Jesus no episódio de sua “ascensão”. A morte de Jesus faz morrer a própria morte. Assim, o corpo virginal de Maria, Templo do Espírito Santo, revestido de imortalidade, não se submete à corrupção do sepulcro. Essa construção imagética tem perfeita analogia ao dogma da Imaculada Conceição e desperta em nós uma redescoberta do nosso potencial para a dimensão sobrenatural, que fica despercebido na cadência dos anos, como diagnóstico de uma sociedade indiferente às experiências da fé, estagna na superfície, eximindo-se da profundidade, “duc in altum”. Uma sociedade errante, que persevera numa visão turva, degenerando-se na própria existência como uma estúpida tentativa de se desviar do drama da morte, restando apenas um vazio, como se nunca tivesse existido.

Ao cair da tarde, num belíssimo crepúsculo do seu itinerário vital, aquela que um dia acolheu o Verbo de Deus no seu ventre experimenta a ternura dos braços do Filho que lhe acolhe na eternidade, constituindo, dessa forma, o alvorecer de um novo nascimento. Portanto, assim como zelamos diariamente pela estética do nosso corpo, não podemos jamais negligenciar as necessidades da alma, pois esta deve ser tão bela quanto a nossa imagem no mundo. Eliminar o que nos seja nocivo a fim de não sermos viciosos, mas virtuosos, tornando-nos menos indignos do céu.

Devemos, pois, tomar nova consciência sobre o valor da oração, bem como ‘ressignificar’ algumas expressões cultuais. Priorizar seu caráter de gratidão e não reduzi-las à petição, discernindo o que, de fato, precisamos e não o que queremos. Num exercício de inteira liberdade, dilatar o coração e aspirar à transcendência. Isso significa almejar acima de tudo a vida eterna, pois somos conscientes da suscetibilidade das coisas à aniquilação, inclusive a própria saúde. O ideal cristão é fixar o nosso olhar no horizonte da fé, de não nos apegarmos a nada e a ninguém, pois o Filho de Deus revela-se como uma árvore invertida, isto é, tem suas raízes no céu e seus ramos vêm ao nosso encontro, aninhando-nos no alto.

Neste dia tão sugestivo em que celebramos o dogma da assunção, fomentemos no seio da Igreja doméstica uma substancial devoção e um genuíno sentimento espiritual pela “Mãe de Deus”, despojando-nos dos excessos e santificando o nosso dia por meio das repetidas “ave-marias”, que, em sua natureza, insistem no caminho da virtude por meio da contemplação e da disciplina da alma, pois aquele que é atingido pelo amor e dele se deixa nutrir, vai, gradativamente, haurindo dos sagrados mistérios.

Por: Padre Ismael Vogas, coordenador diocesano de Liturgia, professor de Filosofia no Seminário São José e pároco do Sagrado Coração de Jesus, em Palestina do Cariri, distrito de Mauriti, Ceará.

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