Aplainai os vossos corações para acolher o Salvador

Compartilhe:

HOMILIA DO 2º DOMINGO DO ADVENTO – ANO B

APLAINAI OS VOSSOS CORAÇÕES PARA ACOLHER O SALVADOR

“Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!”

Amados irmãos e amadas irmãs,

Como acolher a presença de Deus em nossa vida? Apresentando o último dos profetas, João Batista, a liturgia deste domingo deseja nos ajudar a responder a essa pergunta, uma vez que traz um inegável apelo ao reencontro do homem com Deus e à conversão. Deus está sempre disposto a oferecer aos seres humanos um mundo novo de justiça e de paz, no entanto, esse mundo apenas se tornará uma realidade quando o homem aceitar reestruturar o seu coração, conduzindo-o por meio dos valores divinos.

O texto que hoje nos é proposto é o prólogo ao Evangelho segundo Marcos, que introduz os motivos fundamentais do seu texto sagrado. Trata-se, de apresentar uma “Boa Notícia” (“Evangelho”) aos cristãos perseguidos e com dúvidas na fé. Qual é essa “Boa Notícia” que revigorará a fé dos cristãos? É a certeza de que Jesus é o Messias libertador (“o Cristo”) e o Filho de Deus. Por meio destes dois títulos conferidos a Jesus Cristo, Marcos revela a Missão e a Identidade de Jesus.

No Evangelho, nos é apresentado, de modo sucinto, a missão profética de João Batista, a sua pregação, o seu modo de vida, a reação daqueles que o escutam e o mais importante: o testemunho dado por ele sobre Jesus. João Batista convida o povo de Israel e também toda a humanidade a acolher o Messias. João compreende que a missão do Redentor será oferecer a todos os seres humanos o Espírito de Deus que gera vida nova alimentada pela vivência do amor e da liberdade. No entanto, só receberá essa vida nova quem se atrever a percorrer o audacioso caminho da conversão que realiza a verdadeira mudança de vida e de mentalidade.

Qual é a missão de João? É ser a “voz que grita no deserto” conduzindo aqueles que querem saciar sua sede de salvação no oceano da misericórdia divina. É ser o “mensageiro” que prepara o caminho para o “Messias”, o “Filho de Deus”. Qual é o conteúdo de sua pregação? Reconduzir o povo de Israel à santidade desejada por Deus para assim acolher o Messias. Essa santidade se realizará através de um caminho de purificação e de conversão. Assim, entendemos que o “batismo de penitência”, anunciado por João Batista, é um “batismo de conversão”. Esse rito penitencial representa um convite à mudança radical de vida, de comportamento e de mentalidade.

Para nos ajudar a compreender a missão de João Batista, a Primeira Leitura nos fala do profeta Isaías que, na época do Exílio, garante aos escravos que Deus é fiel a sua Aliança e que deseja conduzir o Povo de volta à terra da liberdade e da paz. Ao Povo, todavia, é pedido que abandone o orgulho, a desobediência, os costumes de egoísmo e de autossuficiência e que aceite ser renovado e transformado pelos desígnios de Deus. Israel precisa recordar que somente Deus é a salvação. Precisa reconhecê-lo como seu pastor que “apascenta o seu rebanho, reúne, com a força dos braços, os cordeiros e carrega-os ao colo”. Quais são os vales e montanhas que precisam ser nivelados, os caminhos que precisam ser endireitados para que Deus venha ao nosso encontro? Para os Padres da Igreja, o convite para nivelar os vales e rebaixar as montanhas refere-se, na verdade, ao apelo de João Batista para que o ser humano afaste-se e abandone tudo o que impede de viver verdadeiramente a vontade de Deus. O que é que dificulta percorrer o caminho que Deus nos propõe? O que nos impede de nascer para uma vida nova? Os bens materiais? A posição social? O comodismo? O medo? O pecado? A frieza espiritual? O desânimo? O Advento é o tempo favorável para limparmos nossos corações, de tal modo que este Deus que nasceu por nós, para redimir e libertar o mundo, permaneça realizando essa salvação através de nossa vida e nosso testemunho.

A Segunda Leitura, apontando para a segunda vinda de Jesus (que a teologia chama de a Parusia) nos convida a manter a atitude de vigilância, vivendo cotidianamente os ensinamentos de Jesus, transformando o mundo e construindo o Reino. Se os cristãos conduzirem suas vidas num esforço contínuo de conversão, contemplarão, no final da sua caminhada terrena, “os novos céus e a nova terra onde habitará a justiça”. Ser “vigilante” não significa ficar olhando para o céu à espera do Senhor, ignorando os problemas e sofrimentos da humanidade. Significa viver, no dia a dia, um testemunho coerente com os ensinamentos de Jesus, pois os cristãos vivem a esperança de um futuro que deve ser conquistado já aqui nesta terra, por meio da fé e com amor, mas como um dom de Deus ofertado à humanidade.

Por que a pregação de João é feita no deserto, se na cidade é onde se encontra o povo? Por que o “deserto” foi o lugar onde Deus encontrou o seu Povo. Logo, é o lugar da purificação e da conversão. Foi no deserto que os israelitas abandonaram a mentalidade de escravos a acolheram uma vida de pessoas livres. Foi no deserto que os israelitas deixaram a mentalidade de egoísmo e encontram sua identidade de Povo para viver a partilha e a solidariedade. A pregação de João lembra aos israelitas – e a nós também – a necessidade de voltar ao “deserto” para ser novamente encontrado e libertado por Deus. No entanto, no modo incisivo e duro pelo qual realiza sua missão, a proposta que João faz demonstra que não é mais um convite à conversão, mas o último e definitivo apelo de Deus ao seu Povo. Afinal, não se trata de mais um profeta, rei ou sacerdote que exorta o povo a mudar e se converter, é o próprio Deus que vem em direção à humanidade, tornando-se um de nós pela Encarnação do seu Filho unigênito. Esse Messias, por ser o Filho de Deus, manifestará a força da Misericórdia e da Graça de Deus e a sua missão será comunicar e doar o Espírito de Deus que transforma, renova e recria os corações dos homens. Por isso, João reconhece que seu batismo não possui a força que o batismo de Jesus Cristo realizará na alma do ser humano.

Neste tempo de preparação para a celebração do Natal do Senhor, precisamos ter a certeza de que preparar a vinda de Jesus exige uma transformação radical de nossa vida, de nossos valores, de nossa mentalidade. Nossos pensamentos e comportamentos estão impedindo o nascimento de Jesus em nosso coração e em nossa vida?

Encerremos como esta exortação do profeta Isaías: “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Isaías 55, 6-7).

Pe Paulo Sérgio Silva

Pároco da Paróquia São Sebastião, em Mangabeira, distrito de Lavras-CE

Posts Relacionados

Facebook

Instagram

Últimos Posts