O cenário estava tão qual Juazeiro do Norte em tempo de romaria: romeiros com chapéu de palha e blusas estampadas com a foto do “Padim Ciço”, alguns com roupa preta, é bem verdade, mas todos com as letras dos benditos na ponta da língua. A fé no olhar expressava a luta do povo nordestino que unidos em oração aprendem a não desanimar diante das enchentes da vida. E quando caem pelas pancadas da água que veio forte, eles erguem os braços aos céus, clamam a Mãe das Dores e ela com seu manto azul, da cor do mar, traz “força pro seu caminhar”.
Calma, não estamos falando aqui dos romeiros que vão a Juazeiro, mas de Juazeiro que vai aos romeiros como a Igreja em Saída que tanto pede o Papa Francisco. Vamos explicar melhor: é que neste dia 20 de junho, o “bispo das romarias”, dom Gilberto Pastana, acompanhado do padre Cícero José da Silva, pároco da Basílica Santuário de Nossa Senhora das Dores, fizeram, após a tradicional missa em memoria do padre Cícero Romão Batista celebrada no dia 20 na Capela do Socorro, o percurso de 700km que os romeiros alagoanos fazem para chegar em Juazeiro do Norte. A visita a capital alagoana teve como objetivo a entrega da imagem peregrina de Nossa Senhora das Dores na missa do dia 20, também em memoria do padre Cícero Romão, na Paróquia São Paulo Apostolo, localizada em um bairro periférico de Maceió.

Depois de sete horas de viagem, o cansaço deu lugar a alegria da acolhida feita por aquele povo que do jeito romeiro de ser, festejam esta data com a esperança de dias melhores e participam da missa como se estivessem na casa da Mãe das Dores. Na verdade, a programação começa desde cedo. Quem explica pra gente é a romeira Jacivânia Rocha Gomes, do municio de União dos Palmares: “Acordamos cedo para assistirmos a missa das 6h pela TV Web Mãe das Dores direto do santo Juazeiro, rezamos o terço às 9h e às 15h, encerrando com a missa às 17h na Paróquia São Paulo Apostolo, onde visitamos o cantinho do padre Cícero. Aqui, quando não podemos ir para o Juazeiro, rezamos, fazemos nossos pedidos, agradecemos ao padre Cícero”, disse ela revelando que nesta celebração veio agradecer a graça alcançada por dois amigos terem se livrado ilesos de um acidente de trânsito.
O cantinho do padre Cícero, a qual a romeira se refere, é um memorial localizado na parte externa da Paróquia, inaugurado pelo arcebispo metropolitano de Maceió, dom Antônio Muniz Fernandes, onde foi colocada uma imagem do sacerdote sentado e sorrindo. Na missa de hoje, no “cantinho”, foi acrescentada a imagem peregrina de Nossa Senhora das Dores, trazida pelo padre Cícero e dom Pastana, para ficar no local. “Aqui é onde o romeiro vem pedir a benção do padre Cícero, onde fortalece a fé e é daqui que voltam para casa com o ardor missionário. Agora está completo. A Mãe nunca esteve longe, mas agora ela está bem perto e chegou na hora certa em que seus filhos alagoanos estão sofrendo”, disse o pároco da paróquia romeira, padre José Manoel José dos Santos, afirmando ainda que a presença de dom Gilberto veio confirmar o que é ser romeiro, porque “ele se fez romeiro, não ficou esperando o romeiro no Juazeiro, ele veio ao encontro do romeiro”. “A vinda de dom Gilberto é um momento forte de graça, onde sentimos que não estamos sozinhos”, concluiu o padre.

O Estado de Alagoas é o que mais leva romeiros à Juazeiro do Norte. Só ano passado, na romaria de Nossa Senhora das Dores, realizada em setembro, foram 12.700 romeiros de Alagoas que fizeram o cadastro na Sala de Apoio aos Romeiros. Porém os últimos dias não havia sido de festa para os alagoenses, pois uma enchente, ocasionada por fortes chuvas no final de maio, provocou sérios danos com vítimas fatais, pessoas desabrigadas e outras desaparecidas.
As paróquias romeiras da diocese de Crato se mobilizaram e fizeram uma campanha para ajudar os irmãos romeiros e a ida de dom Pastana até lá, em sua primeira saída da diocese de Crato ao encontro de uma das dioceses romeiras, também veio como alento ao irmão no episcopado, ao clero e ao povo de Deus. “Que bom que nós nos encontramos hoje aqui, junto com a Mãe das Dores que vem visitar todos os romeiros, em especial, aqueles que foram vitimados pelas enchentes. Ela que é Mãe de todos nós, vem trazer o conforto e a solidariedade a todos aqueles que mais sofreram ou ainda padecem por esse desastre natural”, consolou.

Diante de tudo o que foi vivenciado nesta terça- feira o ambiente tornou-se tão familiar, tão próximo, desde a simples, mas esplendorosa procissão de entrada com a Mãe das Dores, passando por toda espiritualidade da Santa Missa e culminando com a procissão da imagem peregrina colocada ao lado do padre Cícero, no “cantinho” feito para ele, que, como disse dom Muniz: Juazeiro esteve em Alagoas. “Juazeiro do Norte está em Alagoas e isso é tão verdade que nós temos aqui o bispo de todos os romeiros, dom Gilberto Pastana, e temos também o padre Cícero José. Com alegria acolhemos estes irmãos que vêm confirmar a fé da nossa nação romeira. Recebemos vocês como guia, pastores, em comunhão, unidos a Mãe das Dores”, afirmou o arcebispo.
O dia nublado e chuvoso não apagou o brilho da festividade que foi concluída com a partilha do alimento e apresentações culturais.






