A Deus interessa apenas a decisão e a convicção com que se acolhe o Seu convite: “Venha trabalhar na minha Vinha”

Compartilhe:

Amados irmãos, amadas irmãs.

A Liturgia da Palavra deste 25º Domingo do Tempo Comum nos convida a adentrar no coração amoroso de Deus para compreender que os caminhos e pensamentos divinos estão acima dos caminhos e pensamentos humanos. Em vista disso, devemos renunciar aos planos e à lógica materialista do mundo se quisermos partilhar o Reino de Deus

O trecho retirado de evangelho de Mateus narra uma “parábola do Reino”, por meio da qual Jesus catequiza os discípulos na intenção de fazê-los compreender a realidade do Reino e de serem capazes de testemunhá-lo. Apresentando o agir de Deus personificado na imagem de um patrão que age com generosidade diante de todos os trabalhadores, independente do horário em que chegaram ao trabalho, o Mestre lembra aos discípulos que seu Pai convida à salvação todos os homens, sem levar em conta o tempo que acolheram a fé, os seus méritos, as suas qualidades ou os erros cometidos no passado. A Deus interessa apenas a decisão e a convicção com que se acolhe o Seu convite. Independentemente do nosso passado, Cristo pede-nos a transformação de nossa mentalidade, a conversão pastoral, pessoal e comunitária, de modo que a nossa relação com Deus não seja marcada por interesse em recompensas, mas pelo amor e pela gratuidade.

A parábola serve para denunciar a concepção errada que alguns possuíam de Deus e da salvação. Os fariseus, por exemplo, enxergavam-nO como um patrão que pagava as ações se estas fossem cumpridas seguindo escrupulosamente a Lei. Assim, Deus torna-se uma espécie de comerciante que todos os dias aponta, no seu livro de registros, as dívidas e os créditos do homem e, ao fim da semana, faz as contas, vê os dias trabalhados para, então, entregar a recompensa ou aplicar um castigo.

No entanto, o Deus Pai que Jesus conhece, cuja misericórdia é refletida em Seu próprio agir, não é um contador com lápis na mão que paga aos homens conforme os seus merecimentos. Ele é um pai cheio de bondade e de compaixão, que ama todos os seus filhos igualmente e que derrama sobre todos, sem exceção, a superabundância do seu Amor.

Por isso, na Primeira Leitura, o profeta Isaías procura consolar e manter acesa a chama da esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Seu convite é para um recomeço. O povo de Israel, ao longo de 70 anos de sofrimento no cativeiro babilônico, tomou consciência das suas falhas e infidelidades e descobriu que viver longe de Deus não conduz à felicidade. Como este povo exilado, somos convidados à conversão, deixando o passado para trás, decididos a ouvir o convite “para trabalhar na vinha”, respondendo-o prontamente e com convicção.

A Segunda Leitura, apresenta-nos o exemplo do Apóstolo Paulo. Ele não estava entre os primeiros discípulos, sequer conheceu Jesus no período da missão. Foi encontrado no caminho de Damasco, ouviu o convite e, deixando o passado para, trás iniciou a missão que o levou a proclamar o Evangelho até os confins da terra, tendo Cristo no centro de sua caminhada.

São Paulo deixou a sua vida de perseguidor e tornou-se arauto, anunciador da misericórdia de Deus. Deve-nos cativar e espantar a centralidade de Cristo na vida desse apóstolo. Mais do que isso: deve-nos levar a viver do mesmo modo. De nossa parte, há sempre uma tendência a esquecer o que é essencial e se fixar no que é secundário, mesmo que este secundário seja importante. É mais relevante falar de Cristo e do seu Evangelho do que saber decorado todo o Código de Direito Canônico. É mais notável testemunhar Cristo e os seus valores do que falar da hierarquia da Igreja. É mais valoroso anunciar Cristo e a Sua proposta de Reino do que debater questões de disciplina. Direito Canônico, Disciplina e Hierarquia devem servir para aproximar. São meios para anunciar Jesus, não cercas ou grades para separar. Assim, devemos nos perguntar: Cristo está, verdadeiramente, no centro do anúncio que somos convidados a fazer aos homens do nosso tempo?

Meus irmãos e minha irmãs, com os quais tenho a graça de compartilhar a mesma fé, a parábola lembra-nos de que todos têm lugar no Reino de Deus e na Igreja. Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus, no Seu modo de ser e agir, garante, inegavelmente, que sim. E vai além, mostrando que não há trabalhadores (discípulos missionários) mais importantes do que os outros. Seu Reino não possui trabalhadores de primeira e de segunda classe. Possui homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor (seja na infância, na adolescência, na fase adulta, na velhice, não interessa) e foram servir na Sua vinha.

A partir da lógica da Misericórdia de Deus, que sentido tem as atitudes de quem se sente dono da comunidade porque está nela há mais tempo do que os outros? Encontramos cristãos que não entendem como Deus ama, aceita e convida a todos a se aproximarem da Sua infinita e inesgotável Misericórdia. Estão presos à atitude do filho que não aceita o irmão que gastou a herança e volta para casa machucado e faminto. Assim como o irmão mais velho, sentem-se injustiçados, tornam-se invejosos e condenam a lógica da misericórdia.

Às vezes, achamo-nos no direito de censurar Deus e Sua Compaixão por causa da dureza do nosso coração, fruto do pecado. Também esquecemos de que fomos feitos à Sua imagem e semelhança, e queremos impor nossa imagem fria e amargurada sobre Ele.

Na comunidade cristã, no Reino de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social ou hierárquica não servem para oferecer privilégios, nem para se tornar superior aos outros irmãos. Embora tenhamos missões e funções diversas por causa das necessidades da missão, todos somos iguais em dignidade e todos devemos ser acolhidos, amados e considerados da mesma forma.

O quanto antes ouvirmos o chamado, o quanto antes abandonarmos a vida passada, o quanto antes nos convertermos, mais tempo seremos felizes na vinha do Senhor, saboreando a Sua presença e aprendendo que a verdadeira recompensa, que é a graça de Deus, deve ser buscada tenazmente, isto é, com perseverança.

Oremos, então: Ó Deus de bondade, sempre disposto a convidar a humanidade à conversão, abre os nossos olhos, as nossas mãos e os nossos corações; Senhor de infinita ternura, ensina-nos, pelo teu Espírito, a acolher a todos que querem servir no anúncio do Teu Reino. Amém.

Por: Padre Paulo Sérgio Silva

Pároco da Paróquia São Sebastião, em Mangabeira, distrito de Lavras – CE

Posts Relacionados

Facebook

Instagram

Últimos Posts