A VIDA CRISTÃ É PERENE MISSÃO
“Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.” (Mt 9,36)
Depois de nos apresentar – no domingo anterior – a vocação de Mateus como modelo de discipulado e de fé, a liturgia nos convida a tomar parte nesta comunidade nascente – a comunidade dos Discípulos – e a nos deixar formar pelos valores do Reino na escola do divino Mestre através das catequeses que Jesus Cristo, ao longo de três anos de missão, ofereceu a todos que a Ele buscavam. Posteriormente esta comunidade será enviada em missão para fazer o Reino dos Céus ser conhecido por todo o mundo.
A primeira leitura (Ex 19,2-6a) nos transporta para o deserto do Sinai, lugar onde aos pés de um Monte, Deus realizou sua Aliança com o seu Povo. Este “pacto” proposto por iniciativa de Deus, juridicamente implica direitos e deveres que devem ser observados pelas partes envolvidas, e do ponto de vista religioso, se tratava de um compromisso sagrado que incluía juramentos solenes e a realização de oblações e sacrifícios.
Como acontece em toda história da salvação, a iniciativa da Aliança é de Deus. Dentre todos os povos da terra, o Senhor escolheu Israel para laços de comunhão e unidade. Este povo escolhido recebeu uma missão: ele deve, pela obediência aos mandamentos, tornar-se uma nação sacerdotal que será um sinal do amor e da santidade de Deus para todas as nações. Este compromisso assumido por Deus será uma indicação do que Ele deseja realizar com toda a humanidade. Do mesmo modo, não foram os discípulos que escolheram Jesus dentre todos os mestres que havia em Israel. A iniciativa do chamado foi e é sempre de Jesus Cristo (cf: Mt 9,9-13; Mc 1,16-20; Mc 3,13-19; Lc 5,4-11). Assim como Deus escolheu Israel dentre todos os povos para ser um povo sacerdotal, Jesus Cristo, dentre as multidões que o seguiam, escolheu 72 discípulos e deste grupo de discípulos elegeu 12 apóstolos para se tornar a semente do novo Israel, a Igreja, que deveria se tornar sinal do Evangelho para toda a humanidade.
A segunda leitura (Rm 5,6-11) o Apóstolo Paulo, na maturidade de seus anos de missão, apresenta para a comunidade cristã de Roma, a síntese de sua teologia. Como vimos no domingo passado, a comunidade de Roma possuía certas divisões por ser constituída de cristãos vindo tanto do judaísmo quanto do paganismo e que possuíam visões diferentes sobre a lei de Moisés e sobre a salvação. O Apóstolo lhes recorda que o essencial da fé e da salvação é a pessoa de Jesus Cristo. Toda a humanidade pecou e foi destituída da graça, Deus em sua benevolência se dignou nos resgatar através do seu Filho. Cabe a humanidade aceitar a proposta realizada por Jesus através da vivência eclesial da fé. Para Paulo, a comunidade dos discípulos é o sinal inegável do amor de Deus. E este amor jamais deverá parar de causar encanto e espanto no coração humano. Deus aceitou morrer por nós quando ainda estávamos mergulhados nas mazelas do mal e do pecado. Se trata de um amor inigualável e que subverte os princípios da racionalidade. A missão da comunidade cristã não é discutir quem deve ser salvo ou como deve ser salvo, mas dar testemunho deste amor incomensurável cujo ápice é apresentado na loucura da Cruz.
No Evangelho (Mt 9,36-10,1-8) após ter apresentado Jesus anunciando a chegada do Reino em palavras, obras, vida e verdade, e de ter mostrado a vocação de Mateus como modelo de discipulado, a liturgia nos introduz no chamado “discurso da missão”. Afinal, quem foi chamado e respondeu positivamente, antes de anunciar, deve aprender com Aquele que é o Reino em pessoa, Jesus Cristo. Pois, só pode ser verdadeiramente discípulos quem “caminhou” com Jesus, escutou seus ensinamentos, testemunhou os sinais operados por sua Graça e deixou os valores do Reino adentrar no coração e criar raízes perenes em sua vida. Esses “doze” – que representam a totalidade de Israel e de toda a humanidade – serão os herdeiros da missão de Jesus e deverão anunciar a salvação e libertação que Deus fez a toda a criação.
Mateus introduz a pessoa e as ações de Jesus Cristo imbuído dos mesmos sentimentos que os profetas manifestaram nos oráculos divinos no Antigo Testamento. Como acontecera outrora com Israel que fora abandonado pelos reis e sacerdotes a própria sorte (Ez 34,2-10), Jesus encontra o povo desnorteado, cansado e indefeso. Aconselha e exorta o povo a clamar ao Pai pedindo zelosos pastores através da oração. E Deus escuta os clamores, pois a vinda do Filho é a manifestação desta escuta divina. E o Filho escolhe discípulos conforme o seu coração (Jr 3,17). Ao pecar a humanidade inteira se perdeu, Deus em seu amor escolheu Israel para resgatar a todos os povos (Ex 28,1; Lv 20.24,26; Dt 7,6-11; Is 41,8-9). Do mesmo modo, Jesus escolhe os discípulos para que através do anúncio do evangelho, eles façam a humanidade ter conhecimento de que a salvação já se aproxima.
Essa missão – que é o prolongamento da própria missão de Jesus – consiste em anunciar o Reino e em se opor decididamente contra tudo aquilo que escraviza o homem ferindo a sua dignidade – “deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e curarem todo tipo de doença e enfermidade” (Mt 6,7). A missão acontece primeiramente na proclamação jubilosa de que o alvorecer da salvação se aproxima, pois “o Reino dos céus está próximo!” (Mt 10,7) Todavia a missão não é apenas teoria, logo, não são suficientes discursos eloquentes e pregações cativantes. O Reino precisa ser comunicado também em atos – eles devem curar, ressuscitar, purificar e expulsar o mal (Mt 10,8).
Os discípulos recebem instruções sobre como realizar a missão. Jesus os convida viver à pobreza, à simplicidade, ao despojamento dos bens materiais, fugindo do desejo de poder e dominação que muitas vezes leva a buscar os próprios interesses. O Reino é também fraternidade, então um discípulo deve apoiar o outro. A missão deve ser realizada sem rivalidade, competição ou divisão – e juntos eles devem se comprometer fielmente com o anúncio da mensagem de Jesus.
O envio e as instruções do Evangelho proclamado permanecem válidos, pois a verdade independe do tempo (“O céu e terra passarão, mas as minhas palavras não passarão jamais.” Cf: Mc 13,31/Mt 24,35/Lc 21,33). As condições para a missão e os contextos variam a cada era e a cada cultura onde o evangelho é semeado, todavia a recomendação de que da Palavra de Deus permaneça como centro da missão e que nossas atitudes sejam reflexos da pregação são e permanecem condições essenciais para que todas as atividades missionárias frutifiquem em sinais concretos do Reino de Céus. A Palavra antes de ser proclamada deve ser primeiramente vivida por quem a anuncia.
Às vezes imaginamos a missão unicamente como um tempo (uma semana missionária, por exemplo), viagem para visitas e partilha da Palavra de Deus. No entanto, a missão não é um momento esporádico em nossa vida cristã, na verdade, a missão constitui a nossa essência. Não é à toa que o Documento de Aparecida se refere aos cristãos de todos os tempos como “Discípulos Missionários”. Assim sendo, um monge ou uma freira que vivem enclausurados em oração são tão missionários quanto o leigo ou sacerdote que ajuda em um país distante. Todos os discípulos são convidados a assumir a vida cotidiana como missão, pois se trata da realidade na qual devemos servir a Deus em cada pessoa com a qual nos encontramos. Assim, compreendemos que não realizamos uma missão, nossa vida é Missão.

Pe. Paulo Sergio Silva.
Diocese de Crato.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Porteiras.
Paróquia Nossa Senhora das Dores – Jamacaru.





