HOMILIA DO 4º DOMINGO DA QUARESMA – “LAETARE” – ANO A

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JESUS: LUZ PARA GUIAR NOSSOS PASSOS E NOSSA VIDA

Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.” (Ef 5, 8)

            O quarto domingo da quaresma é chamado de “Domingo da Alegria. O tema da alegria se mescla ao tema da luz e percorre toda a celebração eucarística se fazendo presente em todas as orações. Se trata de um convite para antecipar o que a Páscoa realizará e também nos regozijarmos com a renovação interior que a Quaresma produz. Assim sendo, a alegria que a liturgia evoca é a luz de Cristo, que iluminará os que vão receber o batismo na noite pascal. Todos somos convidados a receber o banho no “Enviado” para renascermos como filhos de Deus.

            A primeira leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a) apresenta a eleição daquele que passaria a história como modelo de rei ideal para Israel: o Rei Davi. Mesmo que a princípio o texto aparente não colaborar para o tema da “luz” que é central neste domingo, ele revela que a lógica das escolhas de Deus não segue as lógicas supérfluas e interesseiras dos homens. Samuel, sacerdote e juiz de Israel, é enviado a casa de Jessé para ungir o novo rei. Em meio uma família numerosa e de filhos fortes e distintos, Samuel se deixa levar pela aparência, no entanto, Deus o informa que busca aquele que possui um grande coração. O menor dos filhos, ausente por estar “cuidando do rebanho”, é o eleito. É sobre ele, Davi, que recai a eleição bem como o óleo da unção que manifesta a missão divina que ele recebeu.

            Assim como aconteceu com Davi, tanto Jesus como o homem cego, no Evangelho, são ignorados e menosprezados. O texto nos ajuda a compreender a lógica da salvação. Deus, não escolhe levando em conta os méritos, as posições civis e eclesiais que são objetos de disputas porque costumam “ter peso” dentro da sociedade. Ele escolhe e chama, os pequenos, os mais fracos, os considerados insignificantes para que através deles, sua luz transforme o mundo (Cf: 1Cor 1,27-29). Como a tênue luz de uma pequena vela que sozinha é capaz de afastar a escuridão, um coração aberto a vontade de Deus, ainda que seja frágil fisicamente, será capaz de mudar o mundo.

            Na segunda leitura (Ef 5,8-14), somos apresentados a Carta aos Efésios que possui como intuito fazer um cativante anúncio do que o Apóstolo denomina como “mistério de amor”. Se trata do plano salvífico que foi escondido durante eras, mas que foi revelado e concretizado no seu Filho, Jesus e comunicado pela missão dos discípulos/ Igreja (Cf: Ef 1, 3-14). Os versículos que nos são propostos fazem parte de uma exortação ardente e enérgica aos cristãos já batizados. A imagem do paralelo entre luz e trevas foi amplamente usada não só pelos apóstolos como também pelos Padres da Igreja nas catequeses da Igreja primitiva. Paulo exorta pois os membros da comunidade e a todos os discípulos a viverem na luz que lhes foi oferecida pelo Batismo. O que é viver na “luz”? é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitando a vida nova que Ele propõe pelo Batismo; é viver a liberdade, própria de quem escolhe ser “filho de Deus”. O que é viver nas “trevas”?  É viver fora do amor de Deus, isto é, recusar as suas propostas, escolhendo as paixões e os falsos valores, comandados pelo egoísmo e autossuficiência.  Portanto, a todos os cristãos é pedido e exigido que se esforcem para testemunhar que as suas vidas foram e são marcadas pela bondade, pela justiça e pela verdade.

            No Evangelho da semana passada, através do encontro catequético com a Samaritana, vimos Jesus ser apresentado como o Messias, o Filho de Deus; e ao mesmo tempo fomos introduzidos no contexto do Livro dos Sinais. Aqui não se trata de um “livro” separado do evangelho, mas de um conjunto de capítulos que contribuem para uma ampla catequese onde João utiliza-se de elementos e palavras para revelar a identidade de Jesus bem como a ação “recriadora/redentora” do Messias. O evangelista usa ao todo sete sinais dentre os quais podemos citar a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-7,53), a luz (cf. Jo 8,12-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42) e a vida (cf. Jo 11,1-56) para que o ouvinte ou leitor possa caminhar numa catequese mistagógica que o levará a reconhecer Jesus como Messias.

            O Evangelho que meditamos hoje (Jo 9,1-41) é o terceiro sinal no qual através da utilização da Luz, será manifestada a ação vivificadora da missão de Jesus.

            A catequese é iniciada pela pergunta dos discípulos a respeito do homem cego e do porquê ele ter nascido assim. Aqui Jesus é apresentado como Luz do mundo. A indagação revela que os discípulos ainda continuam presos no legalismo que impede de compreender a vontade de Deus. Segundo a concepção teológica da época, as deficiências e doenças físicas eram castigo que Deus usava para punir o pecado. A cegueira era considerada uma maldição resultante de um pecado gravíssimo porque impedia a pessoa de ler e estudar a Lei.  Aqui o “cego” é um símbolo de todos os que vivem na escuridão, prisioneiros das falsas imagens de Deus que os impedem de chegar à plenitude da vida. Então será que era apenas o homem cego que necessitava ser curado da cegueira por Jesus?

            Na segunda parte, as palavras de Jesus se transformam em ação. Nos seus gestos o Messias concede a luz ao cego. O gesto de fazer argila como a saliva e a terra reproduz o ato criador apresentado no livro do Gênesis (Gn 2,7). Assim é revelado que a missão do Messias é “recriar” o homem como nova criatura animada pelo seu Espírito. Todavia, a graça divina não anula a liberdade humana (Gratia non tollit naturam, sed perficit – São Tomás de Aquino). E ela também não é um ato mágico. Por isto, para que a cura seja completa é necessário que homem ouça e obedeça a Palavra de Deus. Ele nunca havia conseguido ler a Lei de Moisés, agora deve ouvir e obedecer o Verbo de Deus para poder se tornar também anunciador da Boa Nova. Seguir o caminho apontado por Jesus e ir a piscina de Siloé significa deixar se conduzir na conquista de liberdade e autonomia. O cego recuperará a visão e passará a ser um membro da comunidade capaz de expressar livremente as próprias palavras. O ato de se banhar na piscina de Silóe é uma imagem da água do Batismo, a água que recria a humanidade nova, livre das trevas/escravidão. Buscar o batismo é manifestar o desejo de se tornar discípulo, aderindo ao Reino, bem como a disponibilidade para obedecer a Jesus Cristo.

            Os outros personagens que aparecem representam as diferentes atitudes que cada um de nós pode assumir diante da missão de Jesus. Os Vizinhos/conhecidos: a mudança do homem os espanta. Não é mais um cego dependente, mas um homem livre. Assim, eles percebem Jesus como caminho para vida plena e desejam também realizar este encontro com a “luz”, no entanto não têm coragem para realizar o primeiro passo. Eles representam todos os que se animam com a novidade do Evangelho, acreditam que missão de Jesus é a redenção humana, mas preferem ficar acomodados. Os Pais do cego: eles confirmam a cura do filho, mas não querem se comprometer com medo de perseguição e expulsão da sinagoga. Eles representam todos os que por medo, preferem continuar na escravidão do pecado e da injustiça do que correr o risco de viver a liberdade do Evangelho. Os Fariseus/ autoridades religiosas: diante do que foi afirmado pelo cego, pelos seus pais e vizinhos, os fariseus comprovam que Jesus é a luz para a humanidade, mas se recusam a aceitar esta luz. Eles representam aqueles que conhecem o Evangelho, mas não estão dispostos a acolhê-lo e preferem continuar com seus esquemas pessoais de escravidão, guerra, pecado e injustiça. Não querem a renunciar à cegueira e as “trevas”. De certo modo estes personagens e suas reações incompletas ou negativas diante da missão de Jesus nos lembram os diferentes tipos de terreno sobre os quais são lançadas as sementes na parábola no semeador (Cf: Mt 13,1-23; Mc 4,1-20; Lc 8,4-15).

            O estado final do homem cego representa o que todos os cristãos e discípulos devem se tornar depois de percorrer catequeticamente a vida tendo Jesus como caminho, como guia e como acompanhante. No primeiro instante depois da cura, ele ainda possui incerteza. Quando indagado para testemunhar sobre Jesus, responde: “não sei”. Depois quando perguntam sobre a identidade de Jesus, ele responde: “é um profeta”. Mas à medida que a luz adentra em sua vida e é acolhida em seu coração, ele vai amadurecendo na fé. Ele passar a afirmar com convicção o que vivenciou, se recusa a negar a luz e a liberdade que encontrou. Ele se torna uma testemunha madura e livre. E quando reencontra Jesus e recebe o convite para tornar-se discípulo, aceita plenamente, se prostra em ato de adoração e confirma: “Eu Creio, Senhor”.

            O evangelista João, assim vai nos apresentando no encontro da Samaritana e também do Homem Cego, o caminho que deve ser percorrido por aqueles que desejam ser cristãos e buscam o Batismo. A Samaritana e o Homem Cego primeiro enxergam Jesus como Homem, depois como Profeta e por fim, como Messias. O catecúmeno ao buscar a catequese manifesta sua decisão de aderir a “luz”. Com o caminho catequético, ele vai amadurecendo, se tornando livre e sem medos. Então vai renunciando tudo até reconhecer Jesus como o redentor e Senhor que conduz a história. Depois disto, não haverá outro caminho a não ser seguir Jesus.

            O Batismo mais do que um mero evento social, se trata de um rito que manifesta um acontecimento irrepetível na vida de alguém: Seu encontro com Jesus. Tornar-se cristão é acolher e viver com convicção proposta de Jesus (o Reino) e percorrer o caminho de liberdade e de realização que conduzirá toda a humanidade à vida plena.

Eis a alegria que norteia a nossa celebração dominical! É a alegria de ser encontrado por Cristo! De receber sua luz e se tornar seu discípulo e sua testemunha!

Pe. Paulo Sergio Silva

Diocese de Crato.

Paróquia Nossa Senhora das Dores – Jamacaru.

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Porteiras.

 

 

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