JESUS: NOSSO CAMINHO, VERDADE E VIDA
“Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus.” (Jo 1, 34)
Neste início do Tempo Comum – tempo propício para conhecer a Vocação, Identidade e Missão de Jesus Cristo – a Palavra de Deus deste domingo surge ligada essencialmente ao tema da vocação. Ao fazer isto a Liturgia nos convida a contemplar nosso lugar no plano salvífico de Deus. Guiados pelos testemunhos vocacionais apresentados na Sagrada Escritura tomemos consciência de que nós – discípulos, missionários e cristãos atuais – somos igualmente chamados a testemunhar o seu amor salvador nos caminhos da história. Caminhos que percorremos na esperança da edificação plena do Reino de Deus.
Na primeira leitura (Is 49,3.5-6), o profeta Isaías apresenta-nos um personagem misterioso – a quem o próprio Deus nomeia como “meu Servo”. Neste oráculo somos informados que este servo foi chamado e preparado desde o seio materno, para que fosse um sinal de luz divina para as tribos de Israel. Este servo irá também conduzir todas as nações do mundo por meio do anúncio e realização do plano salvífico e libertador de Deus. As palavras aqui apresentadas nos oferecem um valioso aprendizado sobre o chamado vocacional. Compreendemos que toda vocação tem origem divina; é sustentada e alimentada por Deus e que apesar das nossas fragilidades e indignidade, Ele se serve de nós para ser presença material no mundo. Ainda que as palavras no texto sugerissem que Isaías estivesse referindo-se a si mesmo, as primeiras comunidades cristãs intuíram que esta figura enigmática se tratava na verdade do próprio Jesus Cristo. Pois no batismo, o próprio Deus Pai revela a condição de Jesus: “Este é meu Filho amado” (Mt 3,17). O Filho de Deus, conduzido seu Espírito, realizando sua vocação e missão ilumina e santifica toda a humanidade.
Na segunda leitura (1Cor 1,1-3) o Apóstolo Paulo nos informa que a vocação primordial de todos ser humano é a Santidade[1]. Em seu desejo salvífico e conhecendo a cada um de seus filhos e filhas, Deus suscita inúmeras e diferentes vocações: leiga, matrimonial, sacerdotal, vida consagrada, etc. Todavia, apesar dos múltiplos e diversos modos de vida, todas estas vocações sugerem uma resposta concreta a esta primeira e essencial vocação: a Santidade. Todas as vocações possuem como modelo a santidade de Jesus Cristo e nisto está o justo, necessário e essencial do ato de ser cristão. Afinal, para além da língua que falamos, da nossa cor da pele, das nossas diferentes condições sociais, das nossas bases culturais, e outras questões secundárias da religião, o essencial será sempre aquilo que nos faz irmãos: Jesus Cristo e o reconhecimento de que Ele é o Senhor que nos conduz pelos caminhos história e que enquanto edifica o Reino, nos oferece a salvação.
No Evangelho (Jo 1,29-34), em um episódio acontecido logo após o batismo de Jesus, João Evangelista nos apresenta duas vocações que se complementam: João Batista, seu testemunho público e o seu rito batismal são o primeiro passo dado na missão de Jesus. E Jesus é a razão de existir da vocação dada ao Precursor; João Batista nasceu para acolher o Cristo.
É preciso estar atento para compreender a catequese que o evangelista oferece para sua comunidade por meio do testemunho que ele coloca na boca de João Batista. No entanto aqui não importantes apenas palavras, pois até mesmo o cenário geográfico tem algo a ensinar. O encontro entre os dois (Jesus Cristo e João Batista) acontece as margens do rio Jordão. Se trata do mesmo rio em que os hebreus, livres da escravidão do Egito e conduzidos por Josué, utilizaram para adentrar na Terra Prometida. Deste modo o evangelista nos ensina que Jesus, ao atravessar o rio Jordão, irá conduzir toda a humanidade para libertação definitiva, pois ele a reconduzirá à vida na Graça de Deus.
O testemunho público de João é na verdade a confissão de fé da comunidade para quem o evangelista escreve. Sua declaração traz três afirmações essenciais para as comunidades cristãs nascentes:
1 – Jesus como Cordeiro de Deus: esta afirmação recorda duas imagens significativas e sensíveis para o povo de Israel. O Cordeiro pascal, símbolo da libertação dada por Deus ao seu Povo Eleito (cf. Ex 12,1-28). E o misterioso “servo sofredor”, apresentado pelo profeta Isaías como o cordeiro levado para o matadouro e que ao assumir sua vocação doa a vida, e extingue o pecado do seu Povo (cf. Is 52,13-53,12).
2 – O Espírito que desce e permanece em Jesus: A descida do Espírito sobre Jesus é a confirmação de que Ele é o Messias, o Cristo (o Ungido de Deus). Jesus possui definitivamente a plenitude da vida, da graça e do amor de Deus. O Espírito Santo é Aquele que age na criação (Gn 1,2) e concede vida através do seu sopro ao corpo inerte dos primeiros humanos (Gn 2,7). No dia da ressurreição, Jesus recria a humanidade ao soprar sobre os discípulos lhes devolvendo o Espírito (Jo 20,22).
3 – Jesus, o Filho de Deus: ao afirmar esta verdade fundamental se promove uma mudança radical na relação da humanidade com Deus. Jesus não é apenas o “cordeiro inocente” que é oferecido em sacrifício que propicia o perdão dos pecados. Ele é o próprio Deus que, de forma consciente e livre, se oferece como sacrifício e prova de amor (Jo 10,17-18). É o Deus que se encarna, que desce para libertar o seu povo, não mais falando através de uma sarça ardente, mas através da nossa própria humanidade, a fim de nos oferecer a plenitude da vida divina. A sua missão consiste em eliminar “o pecado” que escraviza o homem o impedindo de ter acesso a graça e a vida divina.
Afirmar que Jesus batiza no Espírito significa dizer que Ele é o único capaz de colocar o ser humano em integral contato com o Espírito que é a vida em Deus. Eis a vocação de Jesus: derramar o Espírito sobre a humanidade para a mergulhar e encharcar na graça divina tornando sua existência também fonte de vida em plenitude.
Diante do que meditamos neste início de nossa peregrinação do Tempo Comum, urge então refletir: Tenho buscado responder ao chamado de Deus à Santidade? Estou mantendo meu coração aberto a ação do Espírito dado a mim no dia do meu Batismo? Minhas palavras, atos e ações colaboram para tirar o pecado do mundo? Como tenho feito a experiência do perdão em minha vida? Qual minha relação com o sacramento da penitência? Como Jesus, tenho me colocado a serviço da comunidade à qual pertenço? Minha vida é um testemunho que acolhe e aponta para a presença de Jesus Cristo?
No início de nossa reflexão afirmamos ser o começo do Tempo Comum, uma estrada duradoura que se estenderá ao longo de 34 domingos. Sendo assim, em suma, o testemunho de João Batista parece nos alertar para escolher bem qual caminho estamos percorrendo e qual a companhia estamos acolhendo. Se fecharmos os olhos poderemos contemplar o precursor a nos exortar enquanto aponta para Aquele que vem em nome do Senhor: Eis o Cordeiro! Eis o vosso salvador e acompanhante mais confiável para percorrer a longa estrada da vossa vida! Afinal, nossa vocação se realiza em participação na missão e vocação de Jesus Cristo. Mediante o Espírito que permanece Nele e que ao ser ofertado a nós nos une a Deus de modo indelével, busquemos colaborar na extinção do pecado do mundo nos empenhando na prática da justiça e misericórdia de Deus.

Pe. Paulo Sergio Silva
Diocese de Crato.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Porteiras.
Paróquia Nossa Senhora das Dores – Jamacaru.
[1] Santo / Santidade: do hebraico “qodesh” e do grego “hagios” significa “separação” (no A.T.) e “puro e moralmente irrepreensível e separado” (no N.T). o termo santo é repetido 431 vezes no A.T ao passo que surge 180 vezes no N.T. e santidade é mencionada 200 vezes. O termo faz uma referência ao povo de Deus que foi separado por Ele para um propósito sagrado tanto Antigo quanto no Novo Testamentos. Quando aplicado aos seres humanos, o termo “santo” nem sempre significa estado ou condição de impecabilidade. No Novo Testamento é uma referência aos cristãos que foram separados do mundo para viverem para Cristo. Todavia, separado não no sentido de excluir-se ou ser excluído e muito menos no sentido de separar por superioridade, mas conforme o modelo de Jesus Cristo que estando no mundo não se deixou conduzir pela mentalidade do pecado e permaneceu como alguém consciente de sua vocação à santidade. Assim os cristãos são chamados a viver e atuar no mundo, mas seguindo a santidade divina e não a mentalidade do pecado.





