A família é de casa

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Um importante pensador grego, Aristóteles, dizia que a casa (oikós, em grego) era a primeira sociedade humana, onde se preparava, inicialmente, o cidadão para viver, de fato, em comunidade. No lar, pode-se dizer, as crianças eram treinadas para enfrentar o mundo.

Platão, muito antes disso, afirmou que, em casa, a educação deveria acontecer pela via do exemplo e do amor. Os filhos seguem a pisada dos seus pais, ou seja, aprendem, por imitação, a moral e como lidar com as paixões.

Na mesma linha de pensamento, o ensinamento da Igreja Católica afirma que é em casa que acorre o papel imprescindível, inalienável e insubstituível da família na formação do ser humano. E isso é entendido como tarefa sagrada dada à Igreja, mas exercida na família. Nela, aprendem-se os verdadeiros referenciais do amar, da justiça, da honestidade, da responsabilidade, da liberdade, da religião e, como se viu, da cidadania. Interessante perceber que casa e família são termos imbricados, um está para o outro, sendo comum sua compreensão por antonomásia.

Não obstante tudo isso, o fundamento da doutrina católica acerca da família, a instituição dum lar, numa casa, não está na verdade histórica do pensamento filosófico – embora nele muito se baseasse -, mas na revelada verdade da Sagrada Escritura.

E como são muitos os aportes bíblicos, convém sublinhar aqueles mais ligados ao evangelho, isto é, à vida de Jesus. Ele se reunia em casa, como família, no lar, para ensinar a seus discípulos, ou apenas aos apóstolos. E sempre que se faz qualquer menção de que Jesus está em casa, ou numa casa, ou ainda no lar de alguém (Lc 4,38s), geralmente o evangelista quer insinuar que será dado um ensinamento bastante importante pelo mestre para a sua comunidade discipular (Mc 14, 3-9). Na intimidade do lar, ausentando-se das perturbações interesseiras das grandes multidões, Jesus orienta seus discípulos e estes, muitas vezes, pedem devidos esclarecimentos sobre o ensinamento parabólico (Mt 13, 36).

Nota-se, diante disso, a eminente significação que o termo casa tem na Bíblia, sobretudo nos evangelhos, como espaço especial destinado ao ensino dos apóstolos, e toda aquela pregação que fora dita em meio à turba curiosa de pessoas, em algum momento tornada obscura para todos.

Em casa, Jesus faz questão de explicar com minúcias, antes fazendo alguma advertência. A casa não é apenas lugar de parada e repouso, mas de aprofundamento das lições do mestre e ainda onde se pode encontrá-lo a fim de alcançar as mais variadas curas, favores e necessidades. A ensejada noção de casa trazida aos evangelhos pela prática de Jesus foi significativa para as primeiras comunidades cristãs que se reuniam nas residências particulares dos recém-convertidos.

A Igreja, assembleia dos chamados, antes de se reunir em magníficas construções de templos e de suntuosas basílicas, fazia seus encontros nos lares. Ela, nascida do lado aberto de Cristo Jesus, teve como berço acolhedor o seio de muitas famílias. Então, entende-se por que a alcunha de Igreja doméstica (de Domus, casa).

Desse modo, casa remete ao lar, à família (de famul, servo). A igreja deve ser, portanto, uma grande família, um imenso lar, onde reina o amor e a caridade, porque todos estão a serviço de todos e de cada um; lugar onde há desejo intenso e firme de compreensão, entendimento e partilha.

Por: Padre George de Brito, Sacerdote diocesano e Pároco do Sagrado coração de Jesus, em Crato; Especialista em Filosofia Hermenêutica e Mestre em Teologia Dogmática.

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