31º Domingo do Tempo Comum: A gratuidade e poder transformador do amor de Deus

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O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” (Lc.19,10)

Aproxima-se o final do ano litúrgico e a Palavra de Deus parece já querer começar a nos introduzir na mística do Advento cujo intuito é nos preparar para o encontro com Deus feito homem. Sendo assim a liturgia apresenta-nos hoje um Deus que vindo ao encontro de todos os seus filhos, os ama sem excluir ninguém e revela como só o amor é capaz de devolver a humanidade para seu lugar de origem no plano de salvação.

Na primeira leitura (Sb 11,22-12,2) o Livro da Sabedoria foi escrito no período de dominação grega que forçava os judeus a viverem no paganismo, na idolatria, na ambiguidade moral. Neste trecho, o livro unindo a piedade da revelação judaica com a retórica da cultura grega, nos oferece um deslumbrante poema ao amor onipotente de Deus que recorda a mística do livro dos Salmos (em especial o salmo 144 que meditamos hoje). Sem mencionar nomes, o autor sagrado faz referências a moderada ação de Deus para com os egípcios apesar de sua crueldade para com os hebreus. Porque Deus trata com brandura a quem tanto mal fez? Essa moderação explica-se através lógica do Amor Divino que é fonte de todo perdão. O Deus omnipotente, que criou tudo, também ama a tudo com amor de Pai. Cada ser que saiu do seu coração é visto como filho. A ação de Deus, mesmo quando é de correção ou punição, nunca tem como intenção a morte do pecador, mas sim sua conversão e vida plena. Sendo a criação obra de suas mãos benfazejas e o ser humano a joia que coroa a criação, a todos os humanos Ele busca como filhos pródigos. Com eles, Deus se preocupa, busca corrigir, admoestar, perdoar as faltas, para que se afastando livremente do mal, voltem comunhão com Ele.

Na segunda leitura (2Ts 1,11-2,2) São Paulo escreve para a jovem comunidade cristã da cidade de Tessalônica que começava a viver com entusiasmo a fé cristã, mas que vinha recebendo bastante julgamentos e hostilidades de outras comunidades cristãs. Tal situação ameaçava enfraquecer uma comunidade que ainda começava a engatinhar em direção ao Reino de Deus. O Apóstolo divide sua exortação em dois temas: a oração e a Parusia. Paulo, mostrando que carrega no coração a piedade intercessora e a comunhão dos santos, comunica aos cristãos tessalonicenses que permanece rezando para que eles, perseverando em meio as provações, permaneçam fiéis a sua vocação cristã. Para isto, se faz justo e necessário que eles se deixem conduzir pelo exemplo de Cristo Jesus que lhes dará força para percorrer a estrada da fé. Tudo é dom de Deus que chama, que anima e que leva o ser humano para a vida plena. Na segunda parte, ele recorda o perigo da comunidade se deixar levar por supostas revelações individuais sobre a segunda vinda de Jesus Cristo no fim dos tempos (Parusia). Naquele período muitos fanáticos, deslumbrados com o próprio ego, começavam a manipular as comunidades com suas visões fantasiosas que em nada contribuíam para o anúncio do Evangelho. Muito parecido com o nosso tempo onde aproveitadores concedem para si mesmos o título de pregadores e se beneficiam disto para espalhar medo e ganhar confiança e dinheiro das pessoas ingênuas.

No Evangelho (Lc. 19,1-10) continuamos com Jesus percorrendo a “Estrada de Jerusalém”. Desta vez paramos na cidade de Jericó. De modo semelhante ao acontecido na cidade de Jericó no Antigo Testamento, hoje a força do amor divino derrubará as barreiras que o pecado levantou no coração de um homem excluído e desprezado pelos irmãos. Seu nome é Zaqueu. Era visto como um colaborador da dominação romana por causa do seu trabalho. E ao que parece sua riqueza não era fruto de meios lícitos, mas sim de corrupção e injustiça.

Provavelmente Zaqueu ouviu falar de Jesus e que Ele estava passando pela cidade. A notícia despertou sua curiosidade. Ele desejava “ver” Jesus, todavia não como Herodes que aspirava um encontro por mero interesse. Como o cego Bartimeu (Mc.10,46-52) este desejo de “ver” é fruto de uma vontade de encontro com algo transformador. O que o move é o desejo de tomar parte dessa comunidade de salvação que Jesus anunciava. Todavia, assim como as muralhas de Jericó impediam Israel de chegar à terra prometida, uma grande multidão de curiosos e puros rodeia Jesus e impedem o encontro. O ato de subir em uma árvore demonstra uma vontade que está mais interessada em encontrar a Deus do que em se deixar vencer pelo medo das zombarias e julgamentos da multidão. No entanto Zaqueu é surpreendido. Assim como aconteceu com Natanael que foi visto antecipadamente na figueira (Jo. 1,43,51), Jesus “vê” Zaqueu antes e revela seus planos de ir a sua casa. Antes que o ser humano se levante e busque a Deus, Ele já há muito tempo está vindo ao nosso encontro.

As multidões começam a murmurar. Como Jesus pode visitar alguém tão pérfido? Pensam eles em seus corações. A atitude de Jesus surpreende o próprio Zaqueu. Ao invés de rejeitá-lo, Jesus revela o desejo de conhecer sua casa, sua família, para criar laços de amizade e comunhão. No rosto de Jesus, Zaqueu encontrou o rosto do Deus do perdão que permanece amando mesmo quando seus filhos se perdem nos caminhos do pecado, na esperança de os resgatar com seu amor restaurador. Estando rodeado de pessoas que julgam como se fossem puras, Jesus se volta inteiramente para alguém que se perdeu. É a parábola da ovelha perdida diante de nossos olhos. Sua atitude de “deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que estava perdida” revela a única fragilidade todo poderoso de Deus de Israel: diante de um pecador que busca a salvação, seu coração deixa tudo para ir ao seu encontro. (Lc. 15, 4-7)

Enquanto a multidão insiste no seu julgamento e condenação pensando com isto que iria fazer Zaqueu mudar, é o silêncio compassivo e clemente de Jesus que provoca a sua transformação integral. Jesus não menciona uma palavra sobre a vida de Zaqueu. Ao perceber que havia um lugar reservado para ele na mesa do “Reino”, aquele homem egoísta e mau deixou-se transformar pelo amor de Deus e tornou-se alguém capaz de partilhar os seus bens de modo abundante. É preciso voltar nossa atenção a um fato. Muitas vezes pensamos que Deus passa a nos amar quando deixamos o mal e o pecado. No entanto, Jesus não esperou Zaqueu mudar de vida e mentalidade para assim poder derramar sobre ele todo o seu amor. Na verdade, foi o amor de Deus (que Zaqueu experimentou no encontro com seu Filho) que provocou a conversão. Afinal dirá São Paulo aos Romanos: “Deus, prova seu amor para conosco, pelo fato de que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores(Rom. 5,8). Vemos que assim como um rio caudaloso, a lógica do amor pode transformar o mundo e os corações doo seres humanos.

Ultimamente têm proliferado grupos de supostos “fervorosos” cristãos que caminham pela estrada da rigidez e sumária condenação alheia. Não recordam o que Jesus falou aos fariseus: “Fechais aos outros o Reino dos céus, mas vós mesmos não entrais, nem deixam entrar aqueles que o desejam.” (Mt.23,13). Os super cristãos atuais (fariseus do nosso tempo) querem forçar os membros de uma sociedade marcada pelo egoísmo e subjetivismo a uma “conversão” sem que antes apresentem a ela o olhar compassivo, clemente e transformador do coração de Deus. Eles, como aquela multidão que julgava Zaqueu, querem realizar no mundo uma conversão puramente normativa, fruto da observância mecânica e quantitativa dos mandamentos. E enquanto isto permanecem esquecendo que as mudanças de vida que encontramos relatadas nos evangelhos, todas foram fruto do encontro transformador que tiveram com a pessoa de Jesus Cristo.

Nesta parada restauradora que realizamos hoje na cidade de Jericó cabe-nos indagar quem somos nós: Somos parte da multidão que rodeia fisicamente Jesus, mas não consegue fazer um encontro pessoal com Ele por causa da dureza do próprio coração? Ou somos o pecador que desejar encontrar a Deus e ser restaurado pelo seu amor salvador? Em nossa vida de fé, somos muralhas que impedem o acesso a Deus ou pontes que facilitam o caminho daqueles que o buscam?

Pe. Paulo Sérgio Silva

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.

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