29º Domingo do Tempo Comum: o que é de César e o que é de Deus

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HOMILIA DO 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

Então, daí a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus
.”

Amados irmãos e amadas irmãs,

A Liturgia deste domingo convida-nos a refletir acerca da forma como pesamos a relação entre as realidades de Deus e as realidades do mundo. A Palavra revela-nos que Deus é – e sempre deve ser – a nossa prioridade. A Ele devemos submeter toda a nossa existência. Essa consciência deve despertar-nos para a certeza de que Deus nos convida a um compromisso coerente com a construção de um mundo mais fraterno e justo.

O Evangelho ensina-nos que o ser humano deve cumprir as suas obrigações com a sociedade, mas deve priorizar Deus e deve entregar toda a sua existência nas mãos divinas. Todo o resto deve ser relativizado, inclusive a submissão ao poder político. O texto situa-nos em Jerusalém a poucos dias do confronto final entre Jesus e seus opositores. Enquanto os líderes permanecem obcecados em suas próprias certezas, Jesus se esforça para fazê-los perceber que ao recusar o Reino estão a recusar a oferta de salvação que Deus lhes traz. Jesus conta-lhes três parábolas (aquelas que nos foram apresentadas nos últimos três domingos) e eles buscam uma oportunidade para acusar Jesus publicamente de desrespeito à Lei e levá-lo ao tribunal.

A questão levada pelos fariseus a Jesus é muito delicada, diz respeito à obrigação de pagar os impostos e os tributos ao imperador de Roma. Trata-se também de uma armadilha. Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do imposto, seria acusado de colaborar com a dominação do poder romano; se fosse contra, seria acusado de incitar o povo contra o imperador. Jesus, então, pega uma moeda e convida seus acusadores a reconhecerem a imagem gravada na moeda (a imagem do imperador César) e depois concluiu: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Qual é o significado dessa expressão?

Na primeira parte da frase “dai a César o que é de César”, Jesus sugere que o ser humano não pode nem deve fugir das suas obrigações para com a sociedade. Em qualquer circunstância, deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum pagando seus impostos. Por outro lado, o mais importante é que o ser humano reconheça a Deus como o seu único Senhor. As moedas podem ter a imagem de César, mas o ser humano possui a Imagem de Deus em sua alma e em seu coração. Essa certeza é encontrada já no início da Sagrada Escritura quando ouvimos: “Deus disse: façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança” (cf. Gn. 1,26-27). Ou seja, o homem pertence somente a Deus. Deve, portanto, entregar-se a Ele e reconhecê-l’O como o Seu único Senhor.

Na Primeira Leitura (Cf. Is 45, 1. 4-6), o profeta Isaías anuncia que Deus é o verdadeiro Senhor da história e que Ele conduz a caminhada do povo rumo à felicidade. Ao citar o Edito de Ciro, que devolveu a liberdade ao povo de Israel e liberou-os para retornar à Terra Prometida, o profeta manifesta que os homens atuantes na história são apenas os instrumentos por meio dos quais Deus se serve para realizar o seu plano de salvação. Na verdade, Ciro, mesmo sendo governante político do mundo, ao conceder permissão para retorno à Terra Prometida, está devolvendo a Deus aquilo que pertence somente a Ele: o seu Povo eleito.

Ao recusar ser manipulado num debate de caráter político, Jesus transforma a questão em algo mais profundo, ou seja, deixa de ser uma discussão acerca do pagamento ou não de um imposto para se tornar uma intimação ao homem, a fim de que ele reconheça Deus como Senhor e realize a vocação essencial de colaborar com plano de Salvação d’Ele. Essa reflexão deve ajudar-nos a analisar a realidade na qual estamos inseridos. Vivemos tendenciosos a atribuir aos governantes àquilo que pertence somente a Deus, enquanto vemos esses próprios governantes se fazerem emissários de valores morais que eles próprios não vivem.

Na Segunda Leitura (Cf. 1Ts 1, 1-5b), São Paulo, citando os Tessalonicenses, apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã que colocou Deus no centro de sua vida e que, apesar das dificuldades e dos desafios de viver num mundo pagão, comprometeu-se de forma corajosa com os valores de Deus. Isso deve levar-nos as seguintes perguntas: a nossa vida traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação e de solidariedade, próprias de quem carrega em si a Imagem e semelhança do Criador?” “Como é que nos posicionamos diante do poder político e das instituições civis? Com dependência cega e idolátrica ou com atitude crítica?”.

Numa sociedade cada vez mais paganizada, Deus tem sido substituído por outros deuses, tais como o dinheiro, o poder, o sucesso, a fama, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol e até o político de estimação. Às vezes, tudo parece estar sendo priorizado acima de Deus e Ele parece ser nossa última escolha quando não temos outra opção mais interessante. Mas, para o cristão, Deus é – e deve ser sempre – a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar.

Estamos vivendo o Mês Missionário e, ao mesmo tempo, em preparação ao período eleitoral. Que nossa consciência cristã nos ajude a anunciar o Evangelho com nossa vida e com atitudes concretas de partilha e de solidariedade; que nossas escolhas políticas sejam também expressão dos valores do Reino de Deus o qual buscamos edificar com nossa fé; que as ideologias partidárias, frequentemente causadoras de desunião e de divisão, não estejam acima daquilo que verdadeiramente nos une: a Filiação Divina.

Encerremos com o Salmo (Cf. Sl 95) de hoje: “Ó família das nações, dai ao Senhor, ó nações! Dai ao Senhor poder e glória! Dai-lhe a glória que é devida ao seu nome!”.

Padre Paulo Sérgio Silva

Pároco da Paróquia São Sebastião, em Mangabeira, distrito de Lavras – CE

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