24º Domingo do Tempo Comum: Perdoar é experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele

Compartilhe:

HOMILIA DO 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

“Se eu não perdoar o meu irmão, o Senhor não me dá o seu perdão. Eu não jugo para não ser jugado; perdoando é que serei perdoado” (Cântico de Comunhão Quaresmal).

Amados irmãos, amadas irmãs!

Domingo passado, acompanhamos o Mestre Jesus falando aos discípulos sobre os passos da correção fraterna. Continuando a sua formação catequética, que visa preparar os discípulos para o Reino de Deus, a Liturgia da Palavra nos indica o tema do perdão; enquanto nos apresenta um Deus que ama sem cálculos e sem medida, lembra a todos nós, cristãos e cristãs, que devemos assumir atitude semelhante.

No Antigo Testamento, já existiam normas e leis que convidavam a viver o perdão para com os irmãos de comunidade. No entanto, essa dinâmica de amor e de misericórdia excluía os inimigos e explicitava que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente. Pedro, representando a comunidade, pergunta qual o número de vezes que se deve perdoar. Jesus responde por meio de uma parábola, cujo ensinamento apresenta-nos um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos a superabundância do seu perdão. Por meio dela, somos convidados a descobrir a lógica do Reino e a deixar que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites seja o caminho que conduz a nossa vida com os irmãos.

No primeiro momento da parábola, um funcionário percebe-se incapaz de pagar uma dívida gigantesca a seu rei. Como punição, recebe a ordem de ser vendido como escravo junto à família. Mas apela à compaixão e o rei deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia, perdoando completamente aquela dívida, ao invés de adiar o pagamento. O devedor, por sua vez, recusa-se a perdoar um companheiro que lhe devia uma pequena quantia. Ao saber de tal atitude, relatada por outros funcionários, o rei se escandaliza e resolve castigá-lo severamente.

Essa atitude incoerente é a mesma repreendida na Primeira Leitura: “Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados?” (Eclo 28, 4). Somos convidados em nossa fé a invertermos a lógica do “olho por olho, dente por dente”, cuidando para que as nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia. Somente assim o homem construirá a sua felicidade nesta terra e, assumindo a lógica do Reino, poderá pedir e esperar de Deus o perdão para as suas falhas.

Mas como alcançar algo que parece ser humanamente impossível? Como perdoar sem limites? São Paulo, na Segunda Leitura, apresenta-nos um modelo a ser imitado: Jesus Cristo. O cristão – e a cristã – deve moldar sua vida à luz da vida do próprio Mestre, pois “se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8). Cristo, na sua atitude de perdão infinito, é o modelo que devemos imitar.

Às vezes, na vivência diária de nossa fé, esquecemos o essencial e perdemos tempo e força em discussões dispensáveis. Discutimos se devemos receber a comunhão na mão ou na boca, se determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem se casar, se a procissão do padroeiro da paróquia deve passar somente por tal rua. E, facilmente, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a fraternidade e que todos e todas vivemos e pertencemos ao mesmo Mestre e Senhor.

Em sua parábola, Jesus Cristo lembra-nos do essencial e revela a existência de uma relação (também afirmada na Primeira Leitura) entre o perdão de Deus e o perdão humano. Quem fez a experiência suprema do perdão deve ser transformado por ele, buscando vivê-lo também no dia a dia. Perdoar o próximo significa atualizar este mesmo sentimento recebido de Deus por pura benevolência.

Por outro lado, devemos estar atentos, pois o perdão não pode ser confundido com a omissão ou silêncio diante do que é errado. O cristão – e a cristã – não silencia diante da injustiça e da maldade, não aceita o pecado e não se cala diante do erro, nem alimenta rancores, mágoas e jamais deve permitir que conflitos impossibilitem a partilha do perdão recíproco. Perdoar não significa ficar em silêncio ou fugir do dever da construção de um mundo fraterno. Significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão para levantar quem caiu, a dar outra oportunidade para o recomeço assim como Deus, em sua infinita misericórdia, fez conosco no dia do nosso Batismo e faz cada vez que O buscamos no sacramento da Reconciliação.

Em suma, perdoar é experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele. Não podemos pedir o máximo do perdão de nossos pecados, enquanto não somos capazes de perdoar o mínimo da ofensa que nos fizeram. Ser discípulo de Jesus Cristo é assumir na vida uma atitude de bondade e  de compreensão e, assim, ter a vida marcada pela misericórdia, pelo acolhimento e pelo amor que é a origem de todo o perdão, como tão bem nos lembra São João da Cruz: “No entardecer da vida, seremos julgados pelo Amor”.

Oremos: Ó Deus da paciência e do perdão, vós que perdoastes a nossa imensa dívida, nós Te pedimos que o Teu Reino se realize em nossos corações e que todas as nossas comunidades sejam sinal deste Reino de Paz e de Perdão. Amém.

Padre Paulo Sérgio Silva

Pároco da Paróquia São Sebastião, em Mangabeira, distrito de Lavras – CE

Posts Relacionados

Facebook

Instagram

Últimos Posts