20º Domingo do Tempo Comum: 20º D

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Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso” (Lc.12,49)

Com a celebração de hoje, iniciamos a semana de oração pela vocação matrimonial, sendo que, a Pastoral Familiar realiza a Semana Nacional da Família, além de ser Dia dos Pais. De modo semelhante a um casal que compreende a relevância de sua vocação, somos exortados pela Palavra de Deus a tomar consciência das exigências da missão de colaborar na edificação do Reino de Deus. É justo e necessário ter convicção, coragem e coerência para não se desviar da missão.

A primeira leitura (Jr 38,4-6.8-10) apresenta-nos o profeta Jeremias e sua difícil missão. Deus concedeu a Jeremias a espinhosa missão de anunciar ao povo de Jerusalém o fim do Reino de Judá. Cabe a ele denunciar que tal acontecimento é resultado das injustiças enraizadas na vida do povo.  O profeta compreende que foi chamado realmente “para arrancar e para derrubar, para devastar e para destruir” afim de com isto poder “edificar e plantar” (Jr.1,10) um novo recomeço para o povo de Deus. A sua fidelidade e radicalidade na missão o tornaram objeto da rejeição e do ódio tanto do povo quanto dos líderes religiosos e políticos. Jeremias passa por grandes sofrimentos e perseguições, mas não pensa na própria segurança, na aceitação social ou profissional, pois o centro de sua vida se tornou anunciar com fidelidade a vontade de Deus. E por causa de sua fidelidade, o Senhor, veio em seu socorro, e através de um escravo, salvou a sua vida. Como estamos tratando as pessoas que anunciam a vontade Deus?

Na segunda leitura (Hb.12,1-4) o autor escreve para uma comunidade cristã desanimada. Perseguidos e oprimidos tanto pelos judeus quanto pelos pagãos, os cristãos começam a perder o entusiasmo e alegria necessários para testemunhar a fé. Sendo assim, o autor recorda a eles que muitos antepassados também foram perseguidos por causa da fidelidade a Deus. Usando a metáfora do atleta que corre em direção ao prêmio, ele convida os discípulos a caminhar no mundo sem se desviar da fidelidade e tendo os olhos fixos em Jesus. Ele, o Cristo, mesmo com as constantes perseguições, nunca deixou de anunciar a vontade de Deus Pai. Não buscou a fama e a popularidade que tornariam sua vida mais agradável; pelo contrário “suportou a cruz, não se importando com a infâmia” (Hb.12, 2).

No Evangelho (Lc 12,49-53) continuamos acompanhando as formações catequéticas de Jesus enquanto Ele sobe a Jerusalém com seus discípulos. À medida que a Cruz se aproxima, Jesus apresenta as maiores exigências para fazer parte do Reino de Deus. Em uma sociedade que enxerga a guerra como caminho para paz e que não conhece o coração de Jesus, as suas palavras de hoje podem ser facilmente mal compreendidas ou até usadas para fazer apologia à violência. O simbolismo do fogo possui muitos significados na Palavra de Deus ao longo da história: no Antigo Testamento, é sinal da manifestação divina (cf:Ex.13,21/ Dt.4,24/ 2Cr. 7,1/ Ex.3,2); na linguagem profética, ele purifica e transforma o pecador numa pessoa melhor (cf:Am.1,4;2,5 /Jr.23,29/ Is.43,2/ Mt. 3,11/ 1Cor.3,13/ Ap.21,8) na linguagem apocalíptica, está relacionado com o juízo no fim dos tempos (Nm.11,1/ 2Rs.1,10-12/ Is.66,15-16).

Fazendo eco as palavras de João Batista, Jesus proclama que veio trazer um batismo não apenas com água, mas com o fogo do Espírito Santo. Jesus foi anunciado pelos profetas e nasceu como o “Príncipe da Paz”, logo podemos concluir que suas palavras não possuem como intenção causar uma guerra santa entre os cristãos e o restante da humanidade. Jesus fala que haverá divisão e conflitos até mesmo dentro da própria família, porque os conflitos nascem das escolhas que cada que cada um faz de seguir ou não a Jesus.  Assim como Jeremias (na primeira leitura) Jesus veio revelar em plenitude para toda humanidade a santidade de Deus. Se Jeremias deveria anunciar a destruição de um reino corrompido pela injustiça, a proposta radical de Jesus é destruir o egoísmo, a violência, a injustiça, que devoram o mundo e o coração humano, na esperança de que com a passagem do fogo do Espírito Santo surja assim das cinzas, o mundo novo de amor, solidariedade, de partilha, de fraternidade, de justiça e doação plenas.

 O batismo a que Jesus se refere é a aceitação da Cruz (cf. Mc.10,38). Em um mundo marcado pelo individualismo e egoísmo que fazem valer a lei do mais forte, esta escolha de se doar por todos, tão exigente, escandalosa e radical, causará a oposição de muitos a sua missão. A radicalidade de que fala a Palavra de Deus é o ato de se doar pelo outro, sacrificar-se, renunciar-se a si mesmo para preservar e salvar a dignidade do outro; algo bem diferente do que muitos cristãos atuais vivem. Estes pretensos “evangelizadores” muitas vezes usam as redes sociais para espalhar ódio e alcançar fama e prosperidade financeira; acham que radicalidade cristã é ameaçar ou amaldiçoar o pecador com o fogo do inferno, ao invés de o convidar a converte-se e apaixonar-se pela pessoa de Jesus Cristo.

No entanto, é necessário proclamar que não existe outro caminho para o discípulo: A Cruz. Cabe ao discípulo de todas as épocas decidir: ele aceita a cruz junto com Jesus ou deixa de ser seu discípulo. Jesus enfrenta a morte, para realizar o plano do Pai, para que o seu Reino se torne uma realidade concreta na história. Será o batismo no Espírito Santo (que Lucas apresenta sobre o sinal das línguas de fogo), após a ressurreição, que como fogo purificador impulsionará os discípulos até os confins da terra, transformando um mundo devastado pelo mal e pecado, em um novo céu e uma nova terra onde habitará a justiça (Is.65,17-25 /2Pe.3,13/ Ap.21,1-4).

 

Pe. Paulo Sérgio Silva

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito

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