18º Domingo do Tempo Comum – Devemos ser ricos da graça de Deus

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“Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo…” (Cl. 3,1)

Neste domingo, nosso momento formativo que visa nos tornar discípulos missionários de Jesus e anunciadores do Reino de Deus, traz-nos uma reflexão sobre nossa atitude ante o apego demasiado aos bens materiais. Somos advertidos para não centralizar nossa existência ou condicionarmos nossa felicidade na posse de bens ou no domínio de pessoas. O Reino de Deus nos convida a descobrir seus valores que podem nos ajudar a encontrar o sentido de nossa vida e a felicidade em plenitude.

Na primeira leitura (Ecl. 1,2; 2,21-23), o autor do Livro do Eclesiastes nos indaga sobre qual o sentido de uma vida voltada para o acúmulo de bens.  Para que a riqueza e o saber? Neste questionamento desconcertante o autor revela a impotência humana, que sozinha, não consegue encontrar um sentido para a sua vida. A princípio, o pessimismo do texto pode parecer exagerado, todavia leva-nos a reconhecer a inutilidade do materialismo, ao mesmo tempo em que nos ensina que só em Deus e com Deus seremos capazes de encontrar o sentido da vida e preencher a nossa existência.

Na segunda leitura (Cl 3,1-5.9-11) o Apóstolo Paulo continua sua catequese com a comunidade de Colossas. Através da graça batismal, Paulo os convida a crescer na identificação com Cristo. Para a comunidade dos Colossenses, herdeiros da mentalidade grega, isso significava deixar de imitar os “deuses” mitológicos cujas histórias apenas ensinavam as práticas imorais e antiéticas.  A comunidade deveria então buscar renascer continuamente (converter-se e abandonar as práticas mundanas), até ver manifestar em seus membros a imagem do Homem Novo, Cristo ressuscitado que é “imagem de Deus”. Assim no final desta sua epístola, São Paulo mostra aos colossenses as exigências que são necessárias para a vida nova. Ser batizado significa abandonar todas as atitudes egoístas, como a ambição, o orgulho, a injustiça, a indecência, a violência que leva a morte.

Esta catequese do Apóstolo continua bastante atual. Hoje, muitos são batizados e se dizem cristãos, mas se recusam a renunciar as práticas que não condizem com o Evangelho. A comunhão com Cristo não é apenas para a vida futura. Já somos nova criatura em Cristo, já somos pessoas marcadas pela Ressurreição.

No Evangelho (Lc 12,13-21), ao receber um pedido para agir como juiz em um conflito de irmãos por causa de herança, Jesus responde narrando a “parábola do rico insensato”. Nela, ele denuncia o egoísmo de uma vida voltada apenas para os bens materiais. Algo na parábola deve nos chamar atenção. O homem da parábola é um trabalhador; até onde se sabe suas posses não são fruto de desonestidade. Então porque Jesus o censura? Se prestarmos atenção, os verbos e os pronomes empregados por ele (descansa, bebe, come, aproveita, meus, tu, mim, etc.) manifestam uma pessoa centralizada em si mesma; não pensa nos outros, somente em si mesmo. Para o Mestre, o homem que age assim é um “louco”, pois esqueceu aquilo que, verdadeiramente, dá sentido à existência. A pessoa que pede a Jesus para socorrê-lo na partilha dos bens esqueceu que o maior bem a ser dividido é a vida familiar e comunitária. A Jesus é solicitado que convença o outro irmão a dividir a herança, mas não que Jesus realize a reconciliação entre eles. Ao que parece, não importava a ele estar em paz com o irmão, mas sim estar com a herança em suas mãos.

Atualmente, mais do que nunca vivemos uma sociedade marcado pelo individualismo[1], subjetivismo[2], hedonismo[3] e egocentrismo que colocam o bem estar individual como valor absoluto. O sacrifício em prol de alguém, a renúncia que leva a socorrer o outro estão cada vez mais cedendo lugar para uma falsa teologia que visa uma vida totalmente sem sofrimento, onde a busca desenfreada pelo ter, pelo prazer e pelo consumismo desvairado tornam-se o paraíso. As pessoas casam-se, todavia não querem tornar-se famílias, pois não querem ter filhos. O que se busca é o prazer pelo prazer, um consumismo devorador que promete um bem-estar eterno. Já no século IV Santo Agostinho afirmava que o egoísmo origina a ganância que não respeita nem Deus, nem o ser humano; não perdoa nem o pai nem o amigo, não socorre nem a viúva e nem o órfão.

Tal comportamento não condiz com nossa fé, pois o cristão verdadeiro deve assumir os valores do Reino de Deus e ter a coragem de dar a vida pelas mesmas escolhas que levaram Jesus a se entregar na cruz. A lógica do Reino é diferente da lógica do mundo. Precisamos aprender que o maior tesouro é o ser humano em sua dignidade. O acúmulo de bens materiais sempre leva ao esquecimento do outro, inclusive de Deus, da família e dos irmãos da comunidade.

Assim como fez com os dois irmãos que brigaram pela herança, a ambição, a ganância e o egoísmo esvaziam o nosso coração, cegando-nos diante do essencial. Deste modo, somos preenchidos pelos superficial e passageiro, caindo em um consumismo que pode até nos tornar ricos de bens materiais, mas extremamente pobres dos dons divinos, uma vez que nos rouba a liberdade e torna-nos escravos da lógica do lucro que escraviza e não nos faz verdadeiramente felizes. E todo aquele que deseja ser dono do mundo se tornará incapaz de fazer parte do Reino de Deus, reino que é partilha, comunhão e solidariedade.

[1]Individualismo: Trata-se da tendência ou atitude de quem vive exclusivamente para si, demonstrando pouca solidariedade para com os outros. É visto como sinônimo de egoísmo e egocentrismo.
[2] Subjetivismo: tendência para considerar e avaliar as coisas de um ponto de vista meramente pessoal. Nesta teoria se nega a existência da Verdade universal pois cada sujeito teria a sua própria verdade.
[3] Hedonismo é uma doutrina ou teoria filosófica, que defende a busca por prazer como o sentido ou a finalidade da vida humana.

 

Pe. Paulo Sérgio Silva

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.

 

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