A música que toca, agora, no Céu: Morre Mons. Ágio Moreira, aos 101 anos

A aurora que descortinou este dia 12 de junho trouxe uma triste, mas esperançosa notícia: faleceu, aos 101 anos, Monsenhor Ágio Augusto Moreira, o mais antigo clérigo da Diocese de Crato. A notícia é triste, porque a morte sempre desconserta, inquieta e faz pensar. Esperançosa, porque aqueles que creem, ainda que venham a morrer, ressuscitarão, como próprio Cristo garantiu.

Monsenhor Ágio fez sua páscoa sem qualquer manifestação de dor ou sofrimento. Era por volta da 4h30 da manhã. Ele, em casa, tocou a sineta, como de costume, demonstrando que precisava de algo. Quando viu seu cuidador abrindo a porta do quarto, apontou para a boca, como se pedisse água. O cuidador, prontamente, foi busca-la e o sacerdote tomou um gole. O cuidador, então, foi à cozinha, para deixar o copo. Ao retornar para o quarto, deu-se conta: Monsenhor Ágio voltava a dormir, mas o sono eterno, repouso e prêmio dado àqueles que, na vida, souberam amar a Cristo e aos irmãos.

Uma vida tocada pela música

A epifania do mistério divino presente na música, por meio da qual Mons. Ágio conduziu o seu ministério, agora toca no Céu, afinada à orquestra celeste, com os mais suaves solfejos, cânticos e sinfonias.

Sempre trajando batina marrom e a costumeira boina, o ilustre clérigo era simples e piedoso. Exerceu o ministério na função de professor de canto gregoriano no Seminário São José, em Crato. Foi vigário cooperador nas cidades de Jardim, Farias Brito, Lavras da Mangabeira, Icó e Iguatu. O título de “monsenhor” veio em 2003, por indicação do então bispo diocesano, Dom Fernando Panico.

Exímio escritor, publicou obras como “Um sonho realizado”, “Quem pedala não envelhece”, “O cajueiro: vida, uso e estórias”, “Escola de educação artística” (2 volumes), “Preciosíssimo Sangue de Cristo” e “Fogo que Purifica”. O mais recente, “A espiritualidade de Padre Cícero Romão Batista”, foi publicado ano passado.

Nascido em Assaré, em 5 de fevereiro de 1918, Monsenhor Ágio fez de sua inclinação para a música epifania do mistério divino. Sentiu a inspiração na Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Jamacaru, ouvindo o canto dos apanhadores de algodão.

Quando subira ao Belmonte, em Crato, a experiência religiosa fez surgir a “Vila da Música”, edificada na década de 1970. À época, a comunidade era formada apenas por algumas propriedades, matas e engenhos, caminho de chão batido, sem eletricidade e encanações.

Desse belo monte que descortina o Cariri, ao fim da tarde, para descansar da labuta, os moradores se aglomeravam em torno do padre e tomavam lições de instrumentos e de partituras. A experiência religiosa e criativa foi além: criou a Escola de Educação Artística Heitor Villa Lobos, idealizada pela Sociedade Lírica do Belmonte, a Solibel, destinada, principalmente, aos jovens e às crianças.

Hoje equipamento cultural vinculado à Secretaria de Cultura do Estado, a Solibel continua voltada para a formação em música, impulsionada por diretrizes que aludem à socialização, à formação humana e ao ensino musical, oportunizando espaços para o desenvolvimento da cidadania e dos valores que iluminam a vida, como o respeito, a ética e a bondade. Toda essa arte criativa tornou-se orgulho e patrimônio, não apenas para a Diocese de Crato, mas para a cultura do Cariri, do Estado, quiçá, do país.

Sacerdote eternamente

Mons. Ágio viveu exemplarmente fiel aos propósitos firmados diante do altar do Senhor. Com uma vida inspirada na simplicidade, celebrou a efeméride de seu centenário e um jubileu de 75 anos de ordenação sacerdotal.

Seu funeral será realizado, nesta quarta-feira, dia 12 de junho, na Vila da Música (Av. José Horácio Pequeno, nº 1366, Novo Lameiro), em Crato. A Missa de Exéquias será rezada na quinta-feira, dia 13, às três da tarde, na Capela Nossa Senhora das Graças – edificada por ele – também no Belmonte, onde se dará o sepultamento.

Em nota, o bispo da Diocese de Crato, Dom Gilberto Pastana, descreveu a páscoa do Mons. Ágio como “um encontro amoroso e definitivo com Deus – para quem fez subir as oferendas do povo – sob o canto suave dos anjos”.

 

 

Leia na íntegra:

Crato, Ceará, 12 de junho de 2019

Aos Irmãos no sacerdócio, aos Diáconos e Religiosos/as, e aos moradores do Belmonte, em Crato.

Caríssimos/as:

“Cantarei, ao meu Deus, um canto novo” (Jt 16, 13).

Um encontro amoroso e definitivo com Deus, sob o canto suave dos anjos. Assim o Pai chamou o nosso querido Monsenhor Ágio Moreira para a vida eterna, cuja vitalidade e lucidez sempre me impressionaram. Sua partida para a Casa do Pai deu-se nesta quarta-feira, dia 12 de junho de 2019, por volta das 4h30. A Diocese de Crato, portanto, amanhece entoando uma melodia, uma música espiritual, para que chegue ao coração de Deus as nossas orações e as nossas preces em sufrágio da alma desse grande sacerdote.

Exímio escritor e músico, Mons. Ágio viveu o ministério exemplarmente fiel aos valores do Evangelho. É inspiração não só para mim, mas para todos aqueles que querem conformar a sua vida à vida de Cristo.

Quando, em dezembro do ano passado, celebramos os 75 anos de sua Ordenação Sacerdotal, fato inédito para mim, roguei ao Senhor da Messe – como sempre o faço –para que conceda à nossa diocese vocações igualmente santas.

Apesar do pouco tempo de convivência, Mons. Ágio foi, especialmente para mim, um modelo de sacerdote, de testemunho, de obediência e de desapego aos bens do mundo.

Ao olhar a sua longevidade, o seu exemplo e a sua fidelidade sacerdotal a Deus e à Igreja, ouso repetir, mais uma vez: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem do Rei Melquisedec’” (Sl 109).

Aos padres, peço que rezem Missas na intenção do Mons. Ágio, por sua vida e por seu serviço à Igreja de Crato durante os 75 anos de seu ministério. Ao povo do Belmonte, aos amigos e aos familiares estendo o convite, para que elevem preces de encomendação e de agradecimento a Deus. Ao mesmo tempo, convido-os todos a participarem dos ritos fúnebres, que serão realizados na Vila da Música, no bairro Belmonte, em Crato.

Que Deus envie-nos mais operários para a sua messe. Rezemos e imploraremos ao nosso Pai do céu também nessa intenção.

Em Cristo,

Dom Gilberto Pastana de Oliveira

Bispo Diocesano

 

Por: Patrícia Mirelly/Assessoria de Comunicação

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