30º Domingo do Tempo Comum: amar a Deus e ao próximo é verdadeiramente nossa Missão

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HOMILIA DO 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

 “Amarás o Senhor teu Deus e ao próximo como a ti mesmo.”

         Amados irmãos e amadas irmãs,

A liturgia deste domingo lembra-nos de que o amor está no centro da vivência cristã. O que Deus pede e exige é que deixemos o nosso coração ser inundado pelo amor. O Evangelho nos diz, de modo claro, que toda a revelação de Deus se resume no amor que se reflete e transborda em direção aos irmãos. Os dois mandamentos são inseparáveis: “amar a Deus” é cumprir a sua vontade ou guardar seus mandamentos; e vivenciar os mandamentos é estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, de acolhida e até a entrega total da vida.

Nossa caminhada ao lado de Jesus nos conduz novamente a Jerusalém. São os últimos dias de sua missão. Os grupos que o circulam já fizeram as escolhas: os discípulos e apóstolos permanecem, a multidão curiosa se dissipa, os líderes religiosos e políticos decidem que as ações de Jesus não são uma proposta que vem de Deus e, por isso, Ele deve ser denunciado, julgado e condenado. Para realizar esse objetivo, procuram argumentos para acusa-lo. Surgem três questões que Mateus nos apresenta como armadilhas, mas que são convertidas por Jesus em oportunidades para catequese e evangelização: sobre o pagamento do imposto a César (cf. Mt. 22,15-22), a dúvida sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt. 22,23-33) e a dúvida sobre o maior mandamento da Lei (cf. Mt. 22,34-40).

Os estudiosos contabilizavam no Antigo Testamento cerca de 613 preceitos: 365 proibições e 248 ações para se praticar. Por isso, é natural uma inquietação sobre qual mandamento é superior ou mais importante. A resposta de Jesus ultrapassa a pergunta.  O importante, no olhar do Redentor, não é indicar o mandamento mais importante, mas encontrar a fonte de onde emanam todos os outros mandamentos. Seu olhar está ligado a dois eixos inseparáveis: o amor a Deus e o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários ou acréscimos a estes dois mandamentos. Os discursos e as ações de Jesus manifestam que Ele jamais se preocupou demasiadamente com o cumprimento dos rituais da religião judaica.  Não foi escrupuloso com as ofertas materiais a Deus. A sua grande preocupação ou desejo sempre foi discernir a vontade do Pai e cumpri-la com fidelidade e amor.  Para Ele “Amar a Deus” é estar atento aos planos de Deus Pai e realizá-los na vida diária. Na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai acontece quando se faz da vida uma entrega de amor aos irmãos e, se for necessário, até do dom total de si mesmo. No entanto, essa atitude não é novidade e tampouco é expressão de desrespeito ou desprezo pela observância da Lei. Pelo contrário, é dar-lhe pleno cumprimento (cf: Mt. 5, 16-17).

Na Primeira Leitura, o profeta Isaías lembra-nos de que Deus não ignora as situações de injustiça e de desrespeito pela dignidade dos mais pobres e dos mais fracos. Como exemplo, são indicados o respeito aos estrangeiros, aos órfãos, as viúvas e aos pobres explorados pelos gananciosos. O profeta é claro: qualquer injustiça praticada contra um irmão pobre ou fraco é um crime grave contra Deus e sua Lei, afasta-nos da comunhão com Ele e exclui-nos da Aliança. Deus não aceita um mundo que tem como alicerce o sofrimento e a morte de quem não tem vez nem voz.  E, para sermos fiéis a nossa fé, não podemos tolerar as situações que roubam a vida e a dignidade dos pobres.

Nas primeiras comunidades cristãs o apóstolo Paulo irá proclamar: “A plenitude da Lei é o Amor” (cf: Rom. 13,10). E antes de ser um apelo romântico e sentimental, essa afirmação nos diz que quando amamos o próximo, respeitando-o em seus direitos, estamos respeitando a Lei. Para São Paulo a comunidade cristã dos Tessalonicenses é um exemplo concreto disso. Mesmo em meio ao ambiente de perseguição e de agressões do mundo pagão, a comunidade perseverou na vivência do Evangelho e construiu um caminho de amor e de doação em meio às alegrias e sofrimentos da própria fé. E o exemplo dessa comunidade se tornou semente de fé e de amor e frutificou em outras comunidades cristãs que buscaram seguir seu exemplo. As afirmações de Jesus, que repercutiram fortemente nas primeiras comunidades, são claras: Amar a Deus significa não colocar nada acima de sua vontade salvadora. E realizar sua vontade é amar o outro como a si mesmo. Isso significa um amor sem limites e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos.

Assim como o povo de Israel, ao longo de nossa caminhada como Igreja também acumulamos mandamentos, leis, preceitos, proibições, pecados e virtudes. Essas coisas, se vividas na frieza da letra escrita, isenta do calor da caridade e podem se tornar um “fardo pesado”. Discutimos e dialogamos sobre importantes questões eclesiais (matrimônios para sacerdotes, ordenação de mulheres, o uso dos meios anticonceptivos, o que é ou não litúrgico, a organização hierárquica), mas esquecemos ou ignoramos convenientemente de discernir o que é essencial na proposta que Jesus Cristo apresentou.

O que significa verdadeiramente “amar a Deus”? De acordo com o testemunho de Jesus, que é o nosso modelo de fé, o amor a Deus passa pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela colaboração concreta no seu plano de salvação. Estamos escutando suas propostas, procurando refletir, interiorizar e praticar a sua Palavra na vida cotidiana? Ou tentando fazer com que nossa vontade egoísta seja vista com sendo vontade de Deus?

O que significa “amar os irmãos”? De acordo com o que Jesus ensinou e viveu o amor aos irmãos se realiza no olhar direcionado a cada homem e mulher (branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo, cristão ou não) encontrados pelos caminhos da vida.  Esse amor se concretiza em meio à solidariedade para com as alegrias e os sofrimentos de cada pessoa com quem partilhamos as mesmas desilusões e esperanças de um mundo mais fraterno e justo. Nossa vida permanece sendo ofertada ao serviço dos irmãos, sem distinção de raça, de cor ou de classe social?

Lembremos, então, do glorioso Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos”. (Homilia sobre a Primeira Epístola de São João). Somos uma comunidade eclesial, não uma repartição jurídica. Na vida cotidiana, mesmo não nos lembrando deste ou daquele mandamento, se usarmos como parâmetro ou bússola o amor que Cristo ensinou e viveu, rapidamente seremos direcionados à decisão ou à ação que Deus Pai espera de cada um de nós.

Na conclusão deste Mês Missionário e trazendo à memória o Dia Nacional da Juventude, fiquemos com a certeza de que amar a Deus e ao próximo é verdadeiramente nossa Missão e rezemos a oração da coleta deste domingo: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis.” Amém.

Padre Paulo Sérgio Silva

Pároco da Paróquia São Sebastião, em Mangabeira, distrito de Lavras-CE

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