A cura do paneta e nossa

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Descobrir a tarefa a ser realizada e para a qual a existência nos convocou, é um dos mais importantes desafios que enfrentamos em toda a nossa jornada por esse mundo.

Saber ou não saber para que estamos aqui!
Eis a grande questão!

Faz-me lembrar a história daqueles dois operários que trabalhavam nas obras de construção da Igreja de Notre Dame, em Paris.
Um deles, trabalhava sempre mal-humorado e infeliz, naquela monstruosa construção, apenas em troca de algum dinheiro para sobreviver.
Já o outro, seu colega, trabalhava sempre cheio de entusiasmo e com um largo sorriso nos lábios, pois bem sabia que, com o seu trabalho, estava  construindo uma Catedral.

Portanto, ter ou não ter consciência do que fazemos com o nosso trabalho, o nosso tempo e a nossa preciosa energia, faz toda a diferença.

Na verdade, quando aceitamos participar do jogo da existência, nessa dimensão de tempo e espaço onde atuamos, nós nos fazemos um propósito.
Existe uma promessa inerente ao nosso ser, pois, não estamos aqui apenas para um bonito passeio e, no final, lograr uma bela e compensadora aposentadoria.

Estamos aqui para realizar uma tarefa pessoal e intransferível, para concretizar uma obra-prima e para trazer uma diferença ao universo.

A isso denominamos, simplesmente, de vocação.
Algo que podemos traduzir como a voz interna do nosso desejo mais fundamental e o impulso imprescindível para realizarmos o que realmente somos.

Certamente, cada um de nós vem ao mundo com um ‘projeto’ que, por assim dizer, contém uma espécie de mapa do caminho a ser trilhado em nosso desenvolvimento; seja ele físico, psíquico, intelectual, espiritual ou social.
E se, por acaso, nos desviamos desse projeto interior, torna-se necessário e quase inevitável o surgimento de uma enfermidade qualquer, que nos recoloque no caminho correto, tanto em nível pessoal, quanto em nível planetário.

É como se universo nos quisesse dizer: ‘Olhe, você não está fazendo tudo o que é capaz de fazer, não está sendo tudo o que é capaz de ser. Retome o seu caminho”.

Nesse sentido, como afirma Roberto Crema, um grande psicólogo e educador dos nossos dias, “as doenças não são negativas em si mesmas. Pelo contrário, são produtos da Inteligência profunda do organismo (seja ele individual ou universal), anunciando que nos desviamos de nosso propósito.
São como um telefone que toca para nos informar onde estamos errando, onde nos perdemos, onde nos extraviamos de nós próprios e que, quando atendido, deixa, naturalmente, de tocar”.

A doença é como um ruído que aponta para as nossas contradições, pequenas ou grandes. Por isso que necessitamos escutá-lo e compreendê-lo para, só então, poder eliminá-lo, numa perspectiva de cura.

A saúde plena, como bem nos lembra a Organização Mundial da Saúde, não se resume, simplesmente, a um estado de ausência de doenças.
É, antes, uma decorrência natural da realização do nosso potencial inato, de alinhamento e transparência com aquilo que somos originalmente.

Por conseguinte, a verdadeira cura, mais do que  acabar com os sintomas, envolve um processo de firme esclarecimento acerca da real identidade das pessoas e do real propósito de sua passagem pelo universo.

Nesse sentido, a mensagem básica e fundamental desse surto pandêmico que agora vivenciamos, não é outra, senão, um alerta veemente para uma questão que nos salta aos olhos.

Isto é, a humanidade e o mundo natural encontram-se em rota de colisão, tornando-se necessária uma urgente e radical mudança de mentalidade e de atitude, se quisermos evitar uma catástrofe de proporções inimagináveis.

Os cientistas falam de um ‘Armagedom Ecológico’, referindo-se a este drama que nos envolve a todos e que, em um futuro bem próximo, pode ser ainda mais desastroso.

Basta lembrar-nos de que já noticiam a descoberta de um novo vírus, encontrado em porcos chineses, com um fortíssimo potencial infeccioso e eventualmente capaz de desencadear uma outra pandemia.

Portanto, o que está em jogo, aqui e agora, é nada menos que a própria perpetuação da espécie, da nossa espécie; de uma humanidade desviada de sua essência, desconectada da totalidade e, por esta razão, ameaçada de sofrer um colapso global, de consequências apocalípticas.

A boa notícia, em meio a tudo isso, é que ainda é possível um  ‘renascimento’.
Todavia, para que isso aconteça, faz-se necessário e urgente que aceitemos o desafio criativo e evolutivo, inerente à própria crise pela qual passamos.

E, inicialmente, podemos fazer isso a partir do lugar onde nos encontramos, nesse exato momento.

Até porque, a nossa primeira responsabilidade é a de colocar em ordem a nossa casa interior, cultivar a nossa ‘ecologia interna’; como bem diz um sábio terapeuta contemporâneo: “O universo confiou a cada um de nós um pedacinho dele próprio, que nos cabe cuidar.”

Assim, quando alcançamos um estado de harmonia neste ‘pedacinho de praça pública’ dentro de nós, nessa parcela de mundo que nos foi confiada, a ordem conquistada no interior é, naturalmente, transportada para o todo maior.
Ou seja, quando nos curamos, em algum grau, é o universo inteiro que se cura.

É hora, então, de unirmos mentes, mãos e corações; de sacudir o indiferentismo que nos domina e de acender uma vela ao invés de reclamar da escuridão.

Afinal de contas, se não formos nós, quem será?
Se não for aqui, onde será?
E se não for agora, quando será?

Por fim, termino com uma citação textual de Jean-Yves Leloup, teólogo e sacerdote ortodoxo, que nos diz:
“Vá em direção a você mesmo!
Torne-se um ser humano autêntico!
Vá até o fim de sua humanidade, porque é nela que você descobrirá que não é um ser por si mesmo.
É nela que você descobrirá a presença d’Aquele Ser que lhe faz ser.”

Prossigamos por aí, então!

Por: Padre Raimundo Elias Filho, vigário da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Crato, Ceará

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