Foto: Arquivo/Assessoria de Comunicação

Vocação: um chamado ao serviço

“Jesus Cristo, que quase nunca é recomendado em certas escolas, sabe dar mil respostas e fala como quem tem autoridade, sem dúvida e sem sistemas filosóficos. Ao invés de um sistema, ele propõe a própria pessoa. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Quem insiste em seguir outro líder, não anda, não sabe e não vive.”

(Pe. Zezinho)

O chamado de Deus é sempre um encontro de duas liberdades: a liberdade absoluta de Deus que chama e a liberdade humana que responde a este chamado. O chamado de Deus exige disponibilidade total por parte do homem. Liberdade absoluta de tudo o que lhe faz temer e que lhe impossibilita de ir em frente, liberdade absoluta acima de qualquer fidelidade. Deus chama, mas somente o que fora chamado, em sua liberdade concedida pelo criador, poderá decidi por responder ou não a este chamado.

Nos relatos dos evangelhos sinóticos os futuros discípulos de Jesus foram se aproximando dele de formas diferentes. Alguns ele mesmo chamou, arrancando-os de seus trabalhos, a outros aproximaram-se animados pelas suas palavras cheias de esperanças. Talvez houvesse quem se oferecesse por conta própria, por sua iniciativa, e certamente Jesus os fez tomar consciência da exigência e renúncia que significava segui-lo. Jesus nunca nos oferece algo sem antes nos mostrar as renuncias necessárias que sua pessoa implica. A proposta do anúncio do reino de Deus é somente para quem é livre, pois ela é anúncio de liberdade.

O chamado de Jesus é decisivo. Jesus não se detém em dar explicações, não nos diz para que nos chama e nem nos apresenta programa algum. Não nos seduz com metas atraentes, não oferece uma realidade cheia de comodismos e regalias, não há ideias sublimes. O chamado de Jesus é um aprendizado constante com sua pessoa. Primeiro ele nos pede para segui-lo; depois a conformarmos nossa vontade à sua vontade. O chamado é o círculo da intimidade, é mover-se à sombra daquele que chama. Andar nas vias da renúncia é descobrir pérolas escondidas dentro de nós mesmos, é viver de restauração dia a dia, experimentando no nosso seio a misericórdia de Deus na pessoa de seu Filho.

O chamado de Jesus é radical. Os que o seguem devem deixar suas bolsas e seus pertences que têm em suas mãos. Jesus nos vai imprimindo uma orientação nova à sua vida. Arranca-nos das nossas seguranças e nos lança em existências imprevisíveis. Desta forma o seu reino começará a romper-se nos nossos corações. Doravante, atender ao chamado é viver ao serviço do reino de Deus, sem distração, sem olhar para os lados, sem tomarmos de volta o que renunciamos por causa do reino de Deus, sem lágrimas de arrependimento. Responder ao chamado do Senhor é duro para os que são frágeis.

Quando há o fechamento de nossas vidas para o amor verdadeiro, para a comunhão, nos tornamos egocêntricos, e ainda estaremos agindo como crianças. Daí surgem os ciúmes, as invejas, as competições, o desejo de eliminar os outros da nossa vida, a indiferença. É necessário então sairmos de qualquer círculo no qual estejamos como que fechados, pois o fechamento, a anti-comunhão impede o amadurecimento do ser como pessoa humana. A vida do ser humano torna-se verdadeiramente humana quando dimensionada para fora dele: primeiramente para o absolutamente outro, que é Deus, depois para a sociedade que o cerca e finalmente para cada um que o cerca. O que está fora de nós deve ser assim considerado de valor muito significativo.

Aos lermos as páginas dos evangelhos, Jesus convida-nos a renunciarmos até mesmo a casa onde vivemos. Não é fácil renunciar o lugar onde está permeado pelos nossos direitos. Na cultura judaica, a casa era a instituição básica onde cada indivíduo tinha suas raízes; ela concedia a todos seu nome e sua identidade como gente; nela encontravam a ajuda e a solidariedade dos outros parentes. A casa era tudo: refugio afetivo, lugar de trabalho, símbolo de posição social, símbolo de direitos estabelecidos sob o outro. Romper com a casa era perder a identidade e com os direitos, era uma ofensa grave para a família e uma desonra para todos. Mas significa, sobretudo, lançar-se a uma insegurança total. Jesus é conhecedor disto e sabe muito bem quando faz a proposta de segui-lo: “As raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não têm onde reclinar a cabeça” (Lc 9, 58). Como podemos perceber, o chamado de Jesus não nos oferecem honra e segurança, pelo contrário, os que viverão com ele adentrarão no mistério de Deus por meio do serviço aos mais carecidos, ao serviço dos que têm fome da verdade.

Não é de se estranhar que, vivendo nessas condições tão precárias, os que se aproximavam de Jesus era os mais desfavorecidos e marginalizados, vagabundos e pessoas desarraigadas e prostitutas. Abandonar a casa era sinal de desinteressar-se da família, não proteger sua honra, não trabalhar para os seus e nem contribuir para a conservação de seus patrimônios. Não podemos entender estas renúncias como gestos de ingratidão e insolidariedade, mas como desprendimento total por uma causa maior.  O chamado é livre, Deus não nos impõe de goela a baixo, mas deve ser uma resposta acompanhada por um verdadeiro amor ao serviço aos irmãos. Temos que ter consciência que a família não está acima de tudo, tem sua importância imensa, mas não está acima de tudo. Há algo mais importante: pôr-se a serviço do reino de Deus, que já está irrompendo naquele que atende ao chamado do Senhor.

Jesus exige sempre de seus discípulos fidelidade à sua pessoa acima da fidelidade às suas próprias famílias. Se ocorrer barreiras para que o chamado não seja atendido, deve-se optar por ele, sempre. A opção por Jesus, principalmente nos nossos dias tão marcados pelo secularismo e de um niilismo tão presente em nosso meio, seremos sempre considerados como loucos. Responder a Jesus Cristo é um escândalo nos dias de hoje. O projeto de Deus deve está sempre em primeiro lugar. Responder a esse chamado é compartilhar da sua paixão e pôr-se ao serviço de seu reino. Servir, nas palavras de Edith Stein, “[…] é sermos colaboradores fidedignos e assumirmos a nossa própria vocação, servindo a humanidade com nossos dons e recursos […]” (2014, p. 251). A grandeza não se mede pelo grau de autoridade que alguém possa exercer, mas pelo serviço que ofereça aos outros.

Jesus não precisa de uma corte de discípulos e discípulas, que estão dispostos a satisfazerem seus desejos. É exatamente o contrário. É ele quem se sente servidor de todos, dando-nos o exemplo: “Pois, qual é o maior: o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve!” (Lc 22, 27). O intuito de Jesus não era fundar uma comunidade comandada por leis e ritos farisaicos, mas uma comunidade de serviço ao outro; de partilhar à mesa com os estranhos, com o estrangeiro. Jesus nunca pensou numa comunidade fechada e excludente. Não queria formar uma comunidade de “eleitos de Deus” onde a exclusão já fazia parte da vida dessas pessoas. Jesus não era e não é um revolucionário como muitos pensam, seu propósito e seu chamado é uma proposta de partilha, de ajudar as pessoas e acolhê-las como filhos e filhas de Deus. Não nos chama a sermos “imagens” do mundo, mas imagem de seu Pai: “Portanto, deveis ser perfeito como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Assim bem afirma Clodovis Boff (2017, p. 32): “[…] o polo central, último e decisivo da nossa vida espiritual não é “experimentar Deus”, mas, sim, é ter Deus mesmo habitado em nós por sua graça. […]”.

Quando crianças nós agimos como se fôssemos o centro das atenções, como o sol, únicos, com as pessoas e coisas girando ao nosso redor. Por isso que devemos ter consciência que o reino de Deus não é uma mesa fechada apenas em um grupo particular, mas uma mesa aberta onde podem sentar-se para comer com os pecadores. Jesus quer comunicar a todos o que ele vive em seu coração quando se sentava à mesa com os publicanos, pecadores, mendigos, enfermos ou pessoas marginalizadas e de moralidade duvidosa.

Devemos compreender que não somos o centro do universo. Neste momento é fundamental a compreensão da existência de Deus e da experiência do seu amor para que descubramos os outros de forma correta e percebamos claramente que somos chamados a conviver de partilha, não somente do pão material, mas partilha da vida, partilha do amor, da alegria, dos sofrimentos vividos dia após dia, sem perder a esperança, a condividir a nós mesmos e todas as coisas com os outros, que somos um dom para o outro, que precisamos doar a nossa vida para o outro e que é exatamente vivendo isto, que é a nossa vocação, é que encontraremos a verdadeira felicidade e realização de nossas vidas e de nosso ser como pessoa.

Por fim, o chamado de Deus é sempre sedutor: “Tu me seduziste, Iahweh, e eu me deixei seduzir” (Jr 20, 7). Ao respondermos ao chamado de Cristo Jesus, devemos ser conscientes que nunca mais seremos os mesmos. Um discípulo que arrisca tudo e perde de fato, a vida que leva até agora, encontrará vida entrando no reino de Deus. Vocação é vivermos entranhados nas veias do coração de Deus; é nos tonarmos um território sem fronteiras, um coração sem porteiras onde Deus quem manda e desmanda; um interior permeado por Deus, um território santo, uma vida de anúncios onde Jesus Cristo é a boa notícia de Deus para todo homem.

Tarde Te Amei, tarde Te Amei

Ó Beleza tão antiga e tão nova

Eis que Estavas dentro e eu fora, e eu fora

Seguravam-me longe de Ti as coisas

Que não existiriam senão em Ti

Estavas comigo e não eu Contigo, e não eu Contigo

Chamaste, clamaste por mim e afugentaste minha surdez brilhaste,

resplandeceste sobre mim

Lançando para longe minha escuridão

Exalaste perfume e respirei

Tocaste-me e ardi por Tua Paz.

Bibliografia

Bíblia de Jerusalém

SBERGA, Adair Aparecida. A Formação da Pessoa em Edith Stein: um percurso de conhecimento do núcleo interior. São Paulo: Paulus, 2014.

BOFF, Clodovis. O Livro do Sentido: crise e busca de sentido (parte crítico-analítica). Vol. I. São Paulo: Paulus, 2014.

 

Por Adolfo Lima, seminarista da Diocese de Crato

 

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