Padre Cícero, Mártir da Obediência

No dia 20 deste mês, celebrou-se o aniversário da morte de padre Cícero Romão Batista, ocorrida em 1934. Ele está ligado à vida eclesial do Rio Grande do Norte, não só pela devoção dos fiéis potiguares, mas também por ter sido colega de estudos de vários presbíteros norte-rio-grandenses, no Seminário da Prainha (Fortaleza). Foi ordenado sacerdote no mesmo dia e ano (30/11/1870) que Sebastião Constantino de Medeiros. Este, natural de Caicó, governou o bispado de Olinda, quando da prisão do bispo dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Posteriormente, padre Sebastião tornou-se jesuíta, indo residir em Roma. O Patriarca do Juazeiro cursou teologia junto com padre João Maria Cavalcanti de Brito. Recentemente, outro membro do clero natalense, monsenhor Francisco de Assis Pereira, teve papel relevante no processo de reconciliação do “Padrinho” pela Santa Sé.

Por que seminaristas, pertencentes ao bispado de Olinda (naquele tempo, compreendia os estados de PE, AL, PB e RN) estudavam no Ceará e não na sede episcopal? De acordo com historiadores, o seminário pernambucano não era bem aceito pelas autoridades eclesiásticas de então. Consideravam-no um celeiro de revolucionários. Ali lecionou padre Miguelinho, um dos expoentes da Revolução de 1817. À época, havia forte rejeição ao ultramontanismo. Acrescente-se a isso o engajamento na luta pela independência do Brasil e, posteriormente, proclamação da república.

Cumpre salientar que – por parte da hierarquia eclesiástica brasileira – havia um esforço de romanização do catolicismo. O seminário cearense, dirigido por sacerdotes lazaristas franceses, caminhava nessa direção, procurando europeizar os futuros párocos, vigários e capelães. Muitos se tornaram fiéis seguidores das orientações romanas. A vida cristã dos nordestinos era vista com reservas. E seus movimentos religiosos – sobretudo aqueles com forte participação popular e certa independência clerical – eram censurados. A evangelização de certos presbíteros do nordeste distanciava-se da tradição e prática europeia. Por não se amoldar às ideias romanizadoras, padre José Antônio Maria Ibiapina foi desaprovado por autoridades religiosas. Não obstante as restrições, o Padre Mestre (como era conhecido) exerceu influência marcante na ação pastoral de vários sacerdotes, mormente João Maria e Cícero Romão. Este, como seminarista, já era incompreendido por pregar uma igreja mais próxima do povo. O Papa Francisco veio em defesa de padre Cícero: “No arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado pelo mesmo povo”. A situação dicotômica da Igreja, no Brasil do século XIX, favoreceu o processo de romanização das comunidades, fortalecendo a hierarquia e reforçando sua hegemonia sobre o povo de Deus. Representativas desse momento são as palavras de dom Antônio de Macedo Costa, na sua carta pastoral “Pontos de reforma na Igreja do Brasil”: “Os seminários, destinados exclusivamente a candidatos ao sacerdócio, devem oferecer um ensino rigoroso e ortodoxo”.

Hoje há quem afirme, a partir de argumentos teológicos e psicossociais, que a Questão do Juazeiro não passou de um pretexto curial para afastar e calar padre Cícero. Poderiam ser os milagres eucarísticos ou outros motivos. O importante era silenciar e deter a liderança de um religioso, voltado para a fé de seu povo, respeitando sua cultura e religiosidade. Segundo estudiosos, “mutatis mutandis”, trata-se de situação análoga à censura de teólogos de uma corrente mais liberal, dentre eles, Henri de Lubac, Yves Congar, Hans Kung, Gustavo Gutierrez. Padre Cícero, em sua fé, humildade e amor à Igreja, guardou o silêncio obsequioso, não permitindo críticas a seus superiores. Homem da caridade, pastor solícito, piedoso e temente a Deus, soube, como um dos paladinos da ecologia, defender a terra, respeitar e ouvir o clamor de seu povo, alimentando-o com o pão da esperança e da Palavra libertadora. O Apóstolo do Cariri tinha um amor incondicional pela gente simples, que foi por toda a sua vida a sua verdadeira paixão. Por ser tão amado pelo povo, incomodou muitos. O Papa Francisco, pastor cheio de misericórdia e ternura, compreendeu o sofrimento do Santo do Juazeiro e o reabilitou para o bem da Igreja servidora e sacramento de Cristo! Haverá de perdurar sempre as palavras do Evangelho: “Conhecereis a Verdade. E ela vos libertará” (Jo 8, 31).

 

Por: Padre João Medeiros Filho (Sacerdote do clero da arquidiocese de Natal. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela UNICAP. Mestre em Comunicação Social, mestre e doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da Academia Norte=rio-grandense de Letras, Academia Mossoroense de Letras e do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Norte. Jornalista e escritor.)

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