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O tempo como destino das ausências

A juventude nos proporciona muitas possibilidades e aventuras que, ao longo da vida, vamos percebendo quão grande são para o nosso amadurecimento humano e espiritual. A vitalidade do corpo, os muitos compromissos agendados, a sede de viver, a vida agitada, as múltiplas possibilidades de sonhar vão nos constituindo aos poucos e nos tornando gente. Tudo faz com que este tempo de vida seja vivido de forma tão dinâmica e atarefada acompanhada da impulsividade que é a marca da juventude ansiada por viver.

Com o passar do tempo, essa marca vai se transformando num processo exigente de amadurecimento, a estação da primavera vai dando espaço a estação outonal. A gravidade do tempo começa a atingir os nossos corpos, vamos ficando mais lentos com o passar dos anos, mais prudentes nas nossas escolhas e mais cerceadores nas relações, mais criteriosos em nossas ações, o leque de possibilidades começa aos poucos ser cada vez mais estreitos, as perdas começam ser mais constantes em nossas vidas e necessitamos saber, com cada uma dessas, que a lentidão do corpo começa a fazer parte do dia a dia.

Começamos a perceber que a vida nos anuncia que o tempo dos limites chegou e busca encontrar o seu espaço mesmo sem ser bem recebido. Precisamos, agora, adaptar-nos aos limites e fragilidades do nosso corpo. São as estações da vida com suas mudanças constantes que nos conduzem ao tempo dos significados que plantamos e que agora pede a sua colheita, a maturidade começa atingir o seu auge, a ancianidade chegou, a pressa já não precisa ser tão constante e tão presente, o tempo dos significados chegou, a história da vida pede sua colheita. Os encaminhamentos do tempo a nos conduzir para os significados da vida sob a prevalência de uma imposição existencial, regra que ensina que o tempo passa e que, junto com ele, nós também passamos. A memória do nosso ser prevalece nos corações daqueles que nos amam verdadeiramente mesmo sem pronunciarem uma única palavra, porque um único olhar num tempo certo e na hora certa nos dizem tudo, pois mesmo quando não merecíamos ser amados fomos amados em meio a tantas inutilidades.

O Frei Clodovis Boff dizia, de forma contundente, que “Todo homem, embora incrédulo, carrega em seu íntimo, de modo explícito ou implícito, a esperança da permanência eterna de seu ser. É o “instinto da eternidade”. A razão pode sempre afirmar a morte, mas o coração sempre reclama por mais vida, o sentimento de eternidade começa a gritar mais forte, o nosso inconsciente nos alega convencido da nossa eternidade. No fundo, como afirmara Freud, ninguém crê em sua própria morte, o valor da vida temporal só se ilumina plenamente sub lumine aeternitatis, a vida da vida mortal é a esperança na vida imortal.

O envelhecimento deve ser encarado como um processo natural da vida, como uma etapa do desenvolvimento humano que chega ao seu fim, tal qual a adolescência e a puberdade que, como etapas do desenvolvimento, são reconhecidos pelo outro, pela sociedade, pelo espelho, que mostram as marcas que o tempo carregou de produzir no nosso rosto, as marcas de sofrimentos se fazem presente no fino tecido que cobre a nossa carne cansada pelo tempo e que agora pede repouso. Este processo pode ser também definido como fluxo que ocorre durante o curso das nossas vidas e de qualquer ser humano, embora pareça estranho comparar a velhice com a adolescência. Tal paralelo é possível, tendo em vista serem estes os períodos do desenvolvimento humano em que mais se evidenciam a presença dos processos biológicos e subjetivos.

O envelhecimento exprime, ao mesmo tempo, uma ideia de perda e outra de aquisição. O tempo de orfandade é reconhecido no auge da velhice e de suas experiências trazidas na carne, momento em que a vida nos aprisiona em meio aos limites fisiológicos, o ciclo da vida começa a retornar de onde partiu. A criança que existe dentro de nós começa a vir à tona com suas ânsias. Destino inevitável que ser humano nenhum pode escapar. É natural – e faz parte da nossa condição existencial. É regra da vida. É regra humana. Envelhecer é processo natural em que o corpo vai aos poucos perdendo as vitalidades extraordinárias, aos poucos, bem aos poucos, de forma lenta, vai se curvando aos ditames do tempo, o chronos se dá o direto de nos roubar aos poucos sem podermos lutar contra isto.

Desde o nascimento, o corpo se encaminha para o seu processo final, a desmaterialização se aproxima dia após dia, o tempo nos ensina a senectude da vida e nos retira o manto que nos outorga conforto, em meio ao estranho, a vida rasga aos poucos a certidão que nos identifica no mundo, nos tornamos mais conscientes da despedida. Como bem dizia o poeta, que o desamparo existencial é condenação própria que nos chega pela força do tempo. A vida passa diante dos nossos olhos como um breve filme, não há tempo para reviver o vivido, não há tempo para retornos, os olhos pedem ao tempo o direito de lacrar-se de uma vez por toda, o amargo da verdade se mistura ao doce de um futuro que temos por certo, a orfandade se torna em alforria.

O corpo é território de realizações humanas, nele a subjetividade é encarnada e vivida de forma muito intensa ao longo da nossa vida, o corpo se torna a casa das possibilidades, como também de limites. Desde a nossa primeira respiração que ocorre após a nossa expulsão do ventre da nossa mãe, começamos a experimentar os processos dos limites da vida que nos fazem adentrar no mundo das dores. O sofrimento físico é experienciado desde os primeiros minutos após a expulsão do ventre, somos expostos à violência do mundo, a temperatura do nosso corpo começa a se adaptar a temperatura que é própria do ambiente em que nos encontramos, as variações que precisaremos passar para garantirmos o direito de viver, os processos de dores que agora farão parte do nosso dia a dia nos constituirão como seres individuais, justamente por sermos constituídos de matéria frágil e solúvel.

O tempo da velhice se torna tempo de desafios, desafio este que exige um encontro com nós mesmos e o que escolhemos nos tornar. Nos encontraremos com os significados da vida, com as sementes que lançamos e cultivamos ao longo da nossa vida, as possibilidade que tínhamos ao longo do tempo se torna agora concretude, é tempo de encarar a esta que ao longo do chronos fora constituída e afirmada pelas nossas ações carregadas de escolhas. Não há como fugir e negar o que de fato semeamos, o tempo da ceifa chegou, os limites batem à porta e adentram sem pedir licença, as regras já não possuem tantos significados, o bilhete de despedida começa aos poucos a ser assinado pelo punho da nossa mão, olhares de despedida, os retalhos da vida começam a ganhar significados que até então não possuíam, as máscaras caem por terra, o véu do templo da vida se rasga para dar espaço ao véu da dor da despedida, precisamos prosseguir pelas estradas do espelho do tempo ao encontro do espelho Eterno, permanecendo apenas as lembranças que conseguimos deixar nos corações daqueles que verdadeiramente nos amaram, mesmo em meio aos nossos limites.

Seminarista Adolfo Lima, 2º de Teologia

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