O penhor de eterna vida

“Aceitai essa coroa, Virgem Santa, Mãe querida. Que tu sejas, ó Rainha, o Penhor de eterna vida!”. O cântico vem, palavra por palavra, do meu baú de lembranças.

Último dia do mês de maio. A tarde finda em Porteiras, interior do Cariri cearense. Ali, devagarinho os fiéis devotos vão tomando assento no patamar da Igreja Matriz. À excelsa padroeira, Imaculada Conceição, rezam com os olhos, marejados por tão grande valia nas horas incertas. E, qual incenso, fazem subir, com o coração em júbilo, as mais vivas preces, enquanto as mãos, delicadamente deslizando os dedos nas contas do Rosário, saúdam à Virgem do Céu.

A devoção de coroar a Imagem de Nossa Senhora é antiga. E cada lugar tem seu costume. Na Bíblia, é descrita por São João, no Livro do Apocalipse, como um “grande sinal”, quando “uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça” aparece no Céu (Cf. Ap 12, 1).

Em Porteiras, a coroação é a festa mais aguardada. Um mês inteiro de “exercícios marianos” preparando o coração do povo. Mesmo os filhos mais dispersos, como eu, lá onde estão, permanecem intimamente ligados a esse “dia grande”.

A tradição é tal, que o altar utilizado na cerimônia segue o mesmo modelo do primeiro, feito há oitenta e quatro anos, forrado com cetim branco e rosa, todo ornado com flores naturais.

O rito é de encher os olhos. Todo musicado e cantado, começa depois da missa, que tem de ser campal, por causa do tanto de gente. As crianças que o conduz. Vestidas de anjos, elas sobem ao altar, rodeando a imagem de Nossa Senhora da Conceição; Umas são distribuídas ao chão – e em cortejo – para fazer a oferta de flores, enquanto outras – um pouco maior na estatura- simbolizando astros celestes e virtudes, vão para as laterais do altar, onde entoam quatorze cânticos.

Grande é a exultação dos fiéis para esse momento. Vindos de todos os recantos do município – e dos municípios circunvizinhos – eles participam sem qualquer enfado. E quando “a coroa de pouco preço”, como diz a estrofe de um dos cânticos, presa a uma estrela, pendurada a um fio elétrico, cruza o salão paroquial até a torre da Matriz, pousando nas mãos do último anjo, é difícil não conter a emoção sentida ao proclamar a “humilde serva do Senhor” Rainha do Universo e daquela pequena porção do povo de Deus: “Aceita, ó Virgem Santa, nosso sincero amor. As bênçãos imploramos em hinos de louvor…”.

E assim, associando-se ao coro dos anjos, com esse bendito – bem dito pelos lábios dos devotos da excelsa padroeira de Porteiras – mais uma coroação finda, para se eternizar. Na memória, no coração. Salve, ó doce Mãe e Rainha nossa! Amém.

Por: Patrícia Mirelly, jornalista porteirense e fiel devota de Nossa Senhora

Foto de capa: Reprodução

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