O Cardeal Dom Claúdio Hummes fala da esperança na reabilitação do Pe. Cícero e deixa mensagem para a Diocese de Crato que vivencia seu primeiro centenário

Em entrevista exclusiva concedida à assessoria de comunicação da Diocese de Crato, o Cardeal Dom Claúdio Hummes, que atuou por quatro anos no Vaticano como prefeito da Congregação para o Clero, fez uma avaliação da igreja no Pontificado Papa Francisco, o qual é seu amigo pessoal e esteve com ele no momento do conclave, e logo após sua eleição, pediu que o até então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, pensasse nos pobres em seu pontificado, fato que incentivou o Santo Padre a escolher o nome de Francisco, conforme afirmou em coletiva de imprensa realizada depois de sua nomeação. Dom Claúdio explicou como podemos fazer para ser uma igreja pobre para os pobres e como exercer o papel cristão na eleição que se aproxima. Tendo ainda vínculos diretos com o Vaticano também falou sobre o processo de Reabilitação do Pe. Cícero Romão Batista, o santo do popular que atrai milhares de romeiros, no decorrer de todo o ano, ao interior do Ceará; e, com relação a vivencia do ano centenário da Diocese de Crato, o Cardeal também deixou mensagem de felicitações pela caminhada jubilar de evangelização.

Patrícia Silva (PS): Dom Claúdio como a nossa Igreja pode fazer para ser uma Igreja cada vez mais pobre e feita para pobres?

Dom Claúdio Hummes (DCH): Eu creio que é um grande desafio este e que foi sempre o desafio da Igreja, claro, através dos tempos, sempre, porque o próprio Jesus Cristo nos indica este caminho de pobreza e também de amor aos pobres. Ele mesmo viveu, Jesus e os apóstolos viveram, uma situação, assim, muito simples, muito austera, de poucos bens, enfim, era muito próxima sempre dos pobres, dos sofridos, dos doentes. Então esse foi sempre o ideal da Igreja.

E o papa atual, papa Francisco, volta isso com muita força – por isso ele também tomou Francisco por nome, exatamente, porque ele via a necessidade de a Igreja ser mais pobre – em termos também, digamos assim, de estilo de vida, de meios com que trabalha, enfim, tudo aquilo que fosse ostentação de riqueza, etc., deveriam ser evitados. E ele que trabalhou muito no meio dos pobres, em Bueno Aires, tinha todo um grupo de padres que ele trabalhava naquelas favelas todas – que lá eles chamam de “Villa Miseria” – fez um trabalho de muitos anos como cardeal de Buenos Aires. Então, ele indica isso para a Igreja. Ele mesmo fez isso, ele está fazendo isso. O simples fato de que se veste muito despojadamente, não usa nada que lhe pudesse aparentar riqueza, quis um carro mais simples, mora na casa de Santa Marta e não no Palácio Apostólico, assim chamado, onde normalmente mora o papa, e depois está muito no meio dos pobres.

Interessante, por exemplo, que, quando Francisco vai fazer essas visitas, que ele fez como em Assis e outros lugares, muitas vezes almoça na Caritas com os pobres, enfim, e não aqueles almoços mais solenes, então ele diz: não, vamos almoçar lá com os pobres, ali junto com a Caritas. Isso tudo mostra um estilo também. Isso nos interpela, a todos nós, creio que a nós os padres, os bispos, que devemos procurar também um estilo mais simples.

A igreja ser pobre, depois para os pobres: saber repartir, isso é ser pobre. Em primeiro lugar saber repartir com aqueles que não têm e ter um coração que se comove também com as pessoas, não é apenas fazer um discurso, ter alguma obra social. Não, o que o pobre, às vezes, quer é ser acolhido como gente, ser acolhido com amor, com carinho, mesmo que eu não consiga fazer nenhum milagre para ele, mas que ele se sinta gente, se sinta amado e, assim, nós também possamos dizer a ele que Deus o ama também assim, que Deus também está do lado dele, mas ele quer ver isso, claro, nos cristão.

Por outro lado é interessante que nós, muitas vezes, pensamos na igreja pobre, pensamos nos padres e nos bispos. Não, mas são todos os cristãos, nós somos a Igreja! Como é que nós, cristãos, estamos indo às periferias? Como nós, cristãos, estamos lutando contra a pobreza de tanta gente? Ajudando para que o mundo seja menos desigual. A desigualdade social é que é o grande pecado. O que nós, cristãos, estamos fazendo? Porque não é só os padres e bispos isso de ser pobre. Cuidar dos pobres, repartir com os pobres vale para todos nós cristão. Eu acho que é um grande desafio, mas acho que há muitas respostas que vão sendo aos poucos encaminhadas. Tenho certeza que muitos cristãos se sentem interpelados com mais eficácia e convicção para trabalhar para que a desigualdade social diminua. Eu penso que há uma coisa que caminha nesse sentido.

PS: Dom Cláudio, já que o senhor falou sobre o papa Francisco, como o senhor avalia a Igreja sob o pontificado dele?

DCH: Eu acho que ele foi um grande dom que Deus deu a sua Igreja. Ele é um grande presente, na verdade, porque ele é um homem de carisma reconhecido não só pelos católicos, mas reconhecido pelo mundo todo. O mundo todo vê nele alguém que pode contribuir para melhorar o mundo e isso, certamente, a gente vê.

A mídia mundial, mesmo as outras crenças religiosas, admira esse papa por tudo aquilo que ele é, pelas suas atitudes e suas palavras simples, mas muito reais e concretas. Ele não é de fazer muita abstração e discursos elaborados para, no final, dizer pouco. Não, não. Ele diz as coisas, com poucas palavras, mas muito certo, muito concretamente. O mundo vê nele alguém que, de fato, ajuda a encontrar, de novo, um sentido na vida, os caminhos, hoje, para a sociedade, mas, sobretudo, para a Igreja.

Os católicos estavam bastante de cabeça baixa em meio àquelas crises todas, aqueles escândalos, humilhados, meio confusos. Com esse papa, de repente, os católicos estão, de novo, de cabeça erguida, alegres, felizes, porque veem e acreditam que esse papa vai encaminhar bem. Claro que os problemas existem, mas ele vai encaminhar bem os problemas. Isso faz também com que os católicos se sintam felizes. E isso, acho que é, realmente, uma grande graça de Deus. Nós estamos muito felizes com ele.

PS: Como nós podemos fazer para defender os ensinamentos de Cristo em um mundo onde os valores como família e religião estão sendo cada vez mais, dentro da sociedade do descartável, pormenorizadas em meio a tudo isso que a sociedade atual coloca, principalmente, para juventude?

DCH: Eu acredito que nós devemos não só anunciar os grandes valores que o evangelho nos apresenta em relação à família, em relação à vida social, em relação à questão dos pobres, da corrupção na sociedade, tudo isso, os conflitos, os individualismos muito fortes, as grandes crises da família, não só apresentar isso teoricamente em belos discursos, bons, certamente, são bons discursos, mas, na prática, tentar ajudar as pessoas a viver o evangelho no dia-a-dia. Isso significa a gente mesmo estar perto das pessoas, é o que o papa diz. A proximidade.

Acho que nós podemos conseguir acender luzes nos caminhos das pessoas, essas luzes desses valores importantes do evangelho que Jesus Cristo nos trás, o amor ao próximo, a solidariedade, o perdão, a reconciliação, o pensar no outro, não em si mesmo, estando próximo das pessoas, sobretudo, aqueles que são mais vítimas de toda essa situação, mas também aqueles que estão perdidos por aí, acham que tudo já não vale à pena, que as coisas não têm sentido, que não existe nada depois dessa vida. Então as coisas ficam muito monótonas, sem rumo.

Então o que o papa nos indica é que nós cristãos, mas, sobretudo, nós, pastores, padres, bispos, devemos estar muito mais perto das pessoas, conviver, sair em busca, não esperar que as pessoas venham buscar auxílio, orientação. Não, nós é que temos que ir, nos aproximar das pessoas. Ele (Francisco) até fala que, nós, os padres, os bispos, devíamos viver muito mais nas ruas, não para, simplesmente, nos divertir na rua. Não. Não, mas para encontrar com aqueles que precisam de nós, com quem nós possamos conversar, com quem nós possamos animá-los, encorajá-los, mostrar-lhes caminhos, porque as pessoas, muitas vezes dizem, eu não sei mais para onde ir, não sei o que vale à pena, o que é importante, o que é bom, o que é ruim. Ajudar as pessoas, indicar caminhos, acender luzes, ele diz, nessas noites que estão por aí. E eu acho que é o caminho que está aí, mas que todo cristão deveria fazer dentro da família, etc., se alguém tá sofrendo.

Por exemplo, nesses dias até, a gente estava falando sobre isso. Muitas vezes uma pessoa, de repente, quase que perde a fé ou não quer mais nada, acha que tudo não vale à pena, não sei o quê, tal e tal. Em vez de a gente ralhar às pessoas, ser duros, devemos ter compreensão e acompanhar, ter paciência, tentar acender luzes. Aos poucos ela vai, de novo, começar a perceber que não é bem aquilo, enfim, ela volta, então aos poucos. Quer dizer, esse caminhar junto, esse aceder luzes, mas com paciência, perdoando, encorajando. É por aí que os valores cressem de novo.

Não adianta querer impor a força, com ameaças, tudo isso. Isso leva a pouco. Isso não leva a nada, porque Deus também faz assim. Deus nos encoraja, Ele também vai ao nosso encontro, não força ninguém. Então nós também devíamos ser assim, sermos pessoas desse tipo, os cristãos no meio da sociedade, hoje.

PS: O senhor falou em corrupção e logo mais, em outubro, o Brasil vai estar passando por mais um período eleitoral. Como podemos relacionar fé e política?

DCH: Ah, sim, isso aqui é muito importante! Sim, porque a fé tem tudo a ver com a política, porque a política é conviver socialmente, a política dirige, ela governa essa convivência. E a fé nos diz que nós devemos conviver como irmãos e não como adversários, como competidores, que estamos numa competição para ver quem ganha mais e em que cada um quer subir à custa dos outros, onde cada um quer fazer o máximo de dinheiro pra si mesmo e pouco se interessam, por isso ficam prejudicados ou não. Quer dizer, aí o evangelho tem tudo a dizer, claro. O evangelho tem alguma coisa a ver com a sociedade, com a convivência social e, portanto, com a política, porque a política é que rege a convivência social.

E se a política tem outros interesses que não é a convivência social, um serviço para o povo, e eu sempre digo isso, o estado existe para servir ao povo, porque não foi o estado que criou o povo, foi o povo que criou o estado como um serviço de que o povo precisa para poder conviver bem na sociedade. É um serviço que o povo criou. O estado está a serviço desse povo e não pode fazer o inverso, quer agora, simplesmente, dominar esse povo, se aproveitar desse povo, arrancar desse povo tudo que puder e encaminhá-los para os interesses daqueles que tem agora na mão o estado, os governantes, etc. Não, eles estão a serviço de um povo. Isso vale até com aquela questão de estado laico. Claro que o estado é laico. E tem que ser laico. Mas ele está a serviço de um povo que é religioso, ele tem que respeitar isso, porque ele está a serviço, ele foi criado como um serviço que o povo precisa. Ele não pode ir contra um povo. Se o povo é religioso, mas o estado é laico, ele tem que respeitar, porque ele sabe que está a serviço de um povo religioso. Então, tudo, tudo vai por aí. A questão da corrupção, tudo isso.

Eleger bons governantes é muito importante. E depois ajuda-los a governar também. Acho que o povo tem que se manifestar mesmo. Quando as coisas não vão bem, o povo tem que se manifestar mesmo. Não pusemos vocês aí pra servir a nós, pra nos ajudar a viver socialmente, viver bem, viver em paz, viver em fraternidade, viver com menos desigualdade, com menos individualismo. Não pode ser o inverso.

Então eu, realmente, acho que são momentos importantes em que o povo tem que, de fato, pensar quando vai eleger pessoas, realmente, que possam estarem dispostas a estarem a serviço e não vão lá para encher os bolsos seus e de seus comparsas.

PS: Dom Cláudio, falando em política nós, aqui da Diocese de Crato, tivemos, em meio a tantos nomes, um que se destacou muito nessa questão da busca do bem comum, que é o padre Cícero Romão Batista. Qual a sua visão sobre ele?

DCH: O padre Cícero é uma figura que se torna até mesmo internacional, pouco a pouco. Hoje em dia existem estudos, mesmo internacionais, sobre essa figura. Ele é um homem que, sobretudo, tem relação com aspecto religioso do povo. Ele foi o padre que sustentou a fé desse povo do sertão, aqui, por tantos anos durante a vida dele e até hoje. É um grande contributo, digamos assim, ele ajuda o povo a manter os valores religiosos, a manter a sua fé católica, enfim. Nesse sentido ele tem um enorme mérito, certamente. E hoje, claro, houve muitos equívocos também, eu acho, durante a vida dele. Ele é vítima de muitos equívocos, certamente, ele foi.

Hoje o que está se fazendo, o que está se procurando é que haja uma reabilitação canônica da figura dele dentro da igreja, porque ele sofreu algumas censuras na época da igreja, e o processo está agora em andamento, nós temos que esperar, de fato. E eu espero que, isso se consiga, essa reabilitação do padre Cícero. E depois a gente vai ver. Agora a figura dele, os frutos estão aí, o povo que o ama imensamente, o considera um grande intercessor junto de Deus, um homem que cuidou dos pobres, enfim, e nesse sentido a gente só pode dizer que vamos ver se conseguimos, de fato, reabilitá-lo.

PS: Existe alguma novidade sobre o processo de reabilitação do Pe. Cícero?

DCH: Não, não tem nenhuma novidade. Eu não tenho nenhuma informação a mais. Eu sei que estão trabalhando nisso. O departamento do Vaticano, que cuida disso, está de fato, aprofundando essa questão, para depois, então, ser levado parecer desse departamento ao papa, e é o papa que depois vai definir o que se pode fazer.

PS: Dom Cláudio, para encerrar, a Diocese de Crato, em outubro, vai estar completando seu primeiro centenário, estamos vivenciando jubileu, então eu queria que o senhor deixasse uma mensagem para esse povo romeiro e missionário, que faz parte de nossa Diocese.

DCH: Sim, eu desejo a Diocese, realmente, todas as bênçãos de Deus, porque é no jubileu em que a gente volta a pensar em tudo o que ocorreu nesses cem anos, tanta gente que viveu a fé, que aqui deu tudo pelos outros, enfim, todo esse povo, como é que eles viveram a fé, essa história religiosa por tantos antepassados dessa geração que está aí, eles que começaram, mas também essa geração faz parte desse centenário. Então acho que a primeira coisa é agradecer a Deus e também pedir perdão pelos erros, os pecados sempre existem, todos nós somos pecadores também.

Então jubileu é sempre isso, agradecer tudo o que Deus fez e que as pessoas também fizeram de bem nesse mundo. Pedir perdão pelos erros que houve no meio do caminho e pedir para o futuro bênçãos, que Deus continue abençoando esse povo. É o que eu desejo muito, que esse povo sinta a presença de Deus, essa presença carinhosa de Deus, essa presença de um Deus que encoraja, um Deus que quer ajudar, quer ser solidário conosco. Que o povo viva isso com força nesse centenário. Aí terá força também para transmitir para as gerações futuras um exemplo de fé.

Reportagem: Patrícia Silva

Transgravação: Patrícia Mirelly

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