Líder de fé: Um serviço ao serviço

Uma das principais aspirações do homem é dominar o outro. A autoridade exacerbada sobre o outro tem sido viciador nos nossos dias, pois nem todos sabem lidar com este tipo de poder. O poder atrai e, com frequência, aqueles que o detém, muitas das vezes podem abusar dele. O poder pode se tornar uma arma nas mãos daqueles que não sabem usá-lo para o bem, mas somente para os seus caprichos próprios.

Ao longo dos séculos, muitos sofreram sob o domínio de reis, imperadores, ditadores, juízes, políticos, empresários e tantos outros dominadores que torturavam e exerciam seu poder com mãos de ferro. A história da escravidão, os bárbaros, os campos de concentração nazistas, o colonialismo, as ditaduras, enfim, são exemplos aterradores que de um poder exercido de forma exacerbada por aqueles que não souberem usá-lo de forma correta e honesta.

Jesus veio e mudou radicalmente essa visão de poder. Ele fora e é o melhor exemplo exímio de como devemos usar do poder como um serviço ao outro, uma quebra de paradigma, o mestre é o primeiro a servir aos serviçais, pois ele mesmo assim o afirma: “Vós me chamais de Mestre e eu o sou. Mas eu não vim para ser servido, mas para servir” (Jo 13).  Jesus dá um novo conceito sobre autoridade, pois aquele que está no poder, está lá para servir e não ser servido. O poder deve se tornar um carisma de serviço e não de autoritarismo, deve ser como unificador e não divisor, pois quem tem o carisma pilastrico de causar divisão, principalmente pelo poder, é o diabo.

Percebemos claramente nos evangelhos as atitudes de Jesus diante de determinadas realidades em que ele tinha o poder da última palavra e, estas sempre vinham acompanhas de misericórdia, pois o poder também deve nos remeter a uma ação misericordiosa diante de algumas realidades em que temos a última palavra. Jesus é sabiamente prudente em suas ações, pois a autoridade exige muita maturidade de nossa parte. Se o líder bíblico (principalmente quem é responsável em ajudar o outro na maturação de sua fé) não tiver uma profunda e clara maturidade em seus atos, ele corre o risco natural de atrair as pessoas para si mesmo e não para Deus. Isso se chama de líder natural.

O líder natural é aquele que inventa de tudo para atrair as pessoas para si mesmo, enquanto o líder bíblico é aquele que tenta atrair as pessoas, não para sim mesmo, mas para Jesus Cristo. Se o líder bíblico não tiver uma profunda experiência com Jesus Cristo dificilmente conseguirá exercer esse oficio de fé, então toda a sua atividade pastoral se tornará uma autoafirmação de si mesmo. Bispos, padre e líderes leigos, correm imensamente de caírem nessa autoafirmação.

A autoafirmação é um instinto em todo ser humano. Não é algo em si errado, pois todos nós queremos ser reconhecidos por aquilo que fazemos, desejamos que nossas ações tenham importância na vida comunitária, mas quando essas ações se tornam absolutas em nosso agir, aí está o perigo, pois fazemos, não pelo bem da comunidade, mas pelo nosso próprio bem e reconhecimento sobre nossa própria pessoa. A autoafirmação o leve a olhar mais si próprio do que para Jesus Cristo. As motivações ocultas como busca de reconhecimento e elogios estarão veladas na falsidade do serviço à comunidade.

O verdadeiro líder de fé não permite que as pessoas se fixem somente em sua pessoa, mas em Deus, em Jesus Cristo. O verdadeiro líder de fé não faz tudo sozinho, mas aprende a dividir suas responsabilidades com os outros, aprende a ter confiança, não somente em si, mas naqueles que se dispuseram a servir. O poder do serviço à comunidade deve se tornar um serviço de amor e humildade para um verdadeiro anúncio do reino de Deus. Autoridade exige humildade, compaixão, clareza nas ações, a humildade é uma virtude e toda virtude deve encontrar sua fonte em Deus, como assim o afirma o próprio São Paulo aos Romanos: “[…] Pois ninguém de vós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos […]” (14, 7-8).

Todas as virtudes são um raio da perfeição de Deus que atinge o homem, mas se essa virtude não tem sua raiz e sua fonte na perfeição em Deus, ela não pode ser considerada virtude. A virtude deve encontrar sua raiz em Deus, da mesma forma o nosso serviço como ponte que leve as pessoas a Deus, que as alimentem de Deus e sua palavra, devemos ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-16).

São Gregório Magno (+604), um dos maiores pastores que a Igreja já teve, afirma em sua Regra Pastoral, espécie de manual de cura-de-almas, ensina que o pastor, além de estar cheio de zelo pelas ovelhas, deve estar também e antes de tudo “elevado em contemplação acima de todos os fies”. Num capítulo inteiro de sua Regra, explica como o pastor deve combinar “compaixão”, baixando até às ovelhas, e “contemplação”, elevando-se “acima de todos os fiéis” e até “acima de si mesmo”. O líder de fé é aquele que é experimentado no apostolado ativo, mas que está solidamente assentado em uma vida de contemplação. A verdadeira pregação de um líder de fé nada mais é que a “eructação” da Palavra de Deus para nutrição do povo de Deus, depois, claramente, que o líder de fé a tenha “ruminado” longamente na meditação desta, pois como afirma Clodovis Boff: “[…] A espiritualidade é o oxigênio da Igreja” (2017, p. 83).

O que determina a preciosidade de uma comunidade são seus valores e o empenho por eles. A base para a comunhão é o amor, manifestado por meio do serviço e não do autoritarismo. O verdadeiro líder de fé é aquele que age com sabedoria e prudência, pois São Tomás afirmava que entre um santo e um prudente, ele prefira o prudente. O bom líder de fé não age pela sua própria esperteza, mas age iluminado e guiado pela sabedoria de Deus. É claro que a vida de oração permanece sendo a base de tudo, pois sem ela o líder não consegue se aproximar da palavra de Deus e de sua vontade. Sem ela não conseguimos ficar abertos ao Espírito Santo. E sem ela não conseguimos absorver a energia que vem da Eucaristia.

Nós como bons pastores, devemos dar segurança aos nossos fiéis. Devemos conhecê-los pelo seu nome, como o próprio Cristo conhecia suas velhas e as chamava pelo seu nome. Cada pastor tem um tom de voz específico, mas cada ovelha conhece a voz do seu pastor, pois elas não só escutam somente pelo ouvir, mas também pelo ouvir da alma, elas conhecem quem é o seu pastor, elas reconhecem sua voz e se sentem seguranças somente com ele. Desta forma, o Frei Elias Vella (2010, p. 65) nos orienta para que tenhamos cuidado para que as ovelhas não escutem outras vozes que não seja a de seu pastor:

Hoje, infelizmente, há muitas vozes de pastor: há vozes da política, a voz da mídia, a voz da opinião pública, a voz de outras religiões e todas as ovelhas estão ouvindo a tantas vozes que as chamam. Pode acontecer de elas sentirem-se mais seguras seguindo outras vozes. […] Mas, é bom refletir e avaliar se de fato temos as características do Bom Pastor.

O principal foco do verdadeiro líder de fé não é anunciar a sua pessoa e seus feitos, como infelizmente encontramos realidades destes tipos, mas anunciar o querigma de Jesus Cristo. O líder de fé deve olhar para as pessoas como elas são, e não como ele as projeta, pois notamos no pastoreio de Jesus era orientado para as vidas das pessoas e não para as tarefas que lhes competiam. Este era, na realidade, o eterno conflito que Jesus tinha com os escribas, com os fariseus e os sumos sacerdotes, e claro, uma realidade nítida que um líder de fé encontrará em seu pastoreio.

O pastoreio é um dom de Deus, e esse dom deve ser visto como serviço ao seu povo. É muito importante amar as pessoas, somos pastores, não por interesse sórdido, mas com amor dedicado. O pastoreio não deve ser visto como somente um lucro para aquele que tem a missão somente de exercer um ofício na comunidade, mas deve ser livre de qualquer interesse particular, de interesses egoicos, mas como um serviço exercido de forma livre e plenamente dedicado ao que lhe é confiado não somente pelo padre ou pelo bispo (mas que deve está sempre unido a estes por meio da obediência, principalmente ao bispo que é responsável pelo pastoreio da diocese), mas principalmente por Deus, justamente para aproximar ainda mais o povo do amor de Deus por meio do líder de fé.

Bibliografia

Bíblia de Jerusalém

BOFF, Clodovis. Experiência de Deus e Outros Escritos de Espiritualidade. São Paulus: Paulus, 2017.

VELLA, Frei Elias. O Líder de Fé. Trad. Donato Krachevski. São Paulo: Palavra e Prece, 2010.

 

Por: Seminarista Adolfo Lima, primeiro ano de Teologia.

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