“Jesus no meio e o resto em volta!”

Presépios… Do hebraico ebus/urvã do Latim praesepium. Nem todo mundo sabe, mas significa exatamente estábulo, lugar onde dormem os animais. Não é tão fácil montar um pra quem não tem jeito para artes manuais, porém pode ser tornar simples quando se tem em mente que presépio é “Jesus no meio e o resto em volta”, e de fato, é.

Fazer da sua casa um “lugar onde dormem os animais”, soa estranho… pense o mal cheiro e o incômodo, o frio! E há quem diga: “Deixe Jesus nascer no presépio do seu coração”. Imagine só, você fazer do seu coração o lugar onde dormem os animais, e mais ainda, onde tem “Jesus no meio” e você em volta junto com os outros animais, as criaturas, a criação, sendo parte.

Parece bem peculiar pensar que Francisco de Assis, ao recriar a cena lida no Evangelho de Lucas, estava mais uma vez louvando toda a Criação. Afinal, as criaturas e os outros filhos, ao redor do Filho, remonta algo bem teológico e com a cara de Francisco.

“Jesus no meio e o resto em volta”, bem simples não é? Não! A verdade é que o Natal acontece todo ano e a gente ainda não se deu conta que Jesus ainda não está no meio e a gente ainda não consegue estar em volta se sentindo parte da Criação. Pelo contrário, Ele está às margens, está excluído, está lá no cantinho que sobra para os animais e está nascendo por força do Amor.

Aquele dia em que Jesus nasceu não foi um teatro, ele não nasceu sabendo que ia morrer e nem Maria fingiu sentir as dores do parto, mas escolheu nascer e se tornar um de nós, na mais completa pobreza, sem pré-natal, teste do pezinho, sem o mínimo de assistência; escolheu ser um de nós porque acreditava em nós.

Sua mãe, a única mulher do ambiente o qual descreve o Evangelho, dando à luz sem nem sequer a presença de outra mulher que pudesse lhe ajudar, é um detalhe que passa despercebido, eita mulher de força essa Maria! Coube a José, o pai, o carpinteiro, ser o parteiro e dar boas vindas ao Filho de Deus. Ufa! Ainda bem que o pai estava lá! Santo esse José, hein!

“Jesus no meio e o resto em volta”: pastores, ovelhas, vacas, burros, palha, muita palha… Depois reis, um branco, um negro e um cor de jambo. É… raças distintas, origens distintas e esses nem eram judeus, que escândalo! Me parece um tanto quanto significativa essa parte.

Pois é, outras culturas vêm ao encontro do menino que depois, por ameaças de morte, se tornará refugiado. Sim, a família de Nazaré era uma família de refugiados. E a gente aqui, em pleno século XXI, negando um pedaço de terra pro pobre plantar enquanto a soja toma conta do espaço. Negando abrigo pela cor da pele, negando Jesus e tirando-lhe até o direito de nascer.

Montar um presépio na sala é fácil. Difícil é acolher o sentido do presépio na vida, antes, durante e depois do Natal. Difícil é depois que a festa passa, e a gente continua vendo o preconceito ganhando espaço; difícil é ser “a voz que clama no deserto” enquanto na calada da noite e à luz do dia a corrupção lhe tira até o direito de gritar.

Difícil é lembrar de Jesus enquanto mulheres, até quando lutam, são discriminadas. Sem contar as que vão apanhar dos seus “homens”, naquela que deveria ser a noite mais fraterna do ano. Difícil é aceitar que o Natal é pra todos, inclusive pros homossexuais que a gente finge que acolhe, pros negros ainda hoje rejeitados, pros indígenas que a gente despreza dizendo que não tem fé, mas que cuidam muito melhor da “casa comum”, nossa “grande maloca”. Difícil é trazer Jesus pro meio da comunidade carente e ficar ao redor dele o ano todo, sem assistencialismo, tentando melhorar o ambiente para que tenha pelo menos saneamento básico.

Sim, presépio é “Jesus no meio e o resto em volta”, mas a responsabilidade com a unidade dos seres em volta, é sua, é minha, é nossa! Sem Jesus no meio não tem Natal, sem a gente em volta do menino pobre, não tem Natal. Sem a acolhida de outras culturas e formas de pensar, não tem Natal. Sem acolher o menino tal qual ele é, sem luzes, roupa, berço, fralda, sem nada, não tem Natal.

Se você como eu se sente esse “resto em volta”, tá na hora de revermos o nosso conceito de Natal e pensar duas vezes antes de montar o presépio na sala da vida. Afinal, quem ou o quê estamos colocando no meio, no centro? Quando a gente conseguir fazer isso, colocar o menino no centro da nossa vida, aí sim, o Natal vai ser feliz.

Por Irmã Gizele Barbosa, Fsp.

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