Foto: Matriz do Sagrado Coração de Jesus, Crato.

Jesus, esperança dos homens

Saber o sentido da vida não só permite orientar de modo consciente a própria vida, mas confere à alma a alegria mais elevada. Ao contrário, ignorar o sentido da vida comporta a dor mais extrema, pois quando se perde o sentido da vida se perde também o sentido daquilo que fazemos e vivemos. Toda a dor é suportável, menos a dor do sem sentido. A dor do absurdo é a dor mais absurda que pode existir, levando muitas vezes ao desespero e à morte. No contexto bíblico, a pior desgraça que pode sobrevir a um povo é ser privado de um profeta, que lhe digam palavras de conforto e esperança, palavras que deem sentido as suas próprias vidas, que lhe digam por onde e como caminharem.

Podemos perceber de forma clara nos evangelhos que muitas pessoas acorriam à procura de Jesus pelo simples fato de quererem está em sua presença, de escutarem suas palavras que bradavam em seus corações e os enchia de esperança em meio a tantos sofrimentos e abandonos.  O povo da margem procurava a Jesus porque outros não os procuravam. Antes de buscarem a Jesus, Ele já os procurava. A experiência que Jesus tem de Deus não leva à separação e exclusão, pelo contrário, se torna terreno de acolhida, ao abraço e à hospitalidade. No reino que Jesus anuncia ninguém deve ser excluído ou separado da comunidade, os impuros e os privados de honra têm a dignidade sagrada de serem chamados de filhos de Deus, de serem olhados sem pressas, pois Deus não tem pressa na acolhida.

Jesus toca os leprosos, deixa-se tocar pela hemorroísa e beijar pela prostituta, liberta os possuídos por espíritos impuros. A especialidade de Deus é libertar o homem de todas as suas amarras quando este se deixa ser liberto. Nada detém Jesus quando se trata de libertar e de aproximar-se daqueles que sofrem, mostrando a face de Deus aos olhos dos excluídos. Sua atuação, inspirada pela compaixão, é um desafio direto ao sistema de pureza. Talvez tivesse uma visão bem particular sobre o que de fato é ser santo. Santidade não consiste na separação, pois o santo santifica, não cria barreiras, mas se torna próximo, transmite pureza e transforma o impuro. Jesus toca o leproso, e não é Jesus que fica impuro, mas o leproso é que fica limpo (Mt. 8, 1-4).

Na época de Jesus, para salvar e assegurar a honra, o bom nome, a dignidade pessoal ou social, as pessoas agrediam as demais, as menosprezavam e, se preciso fosse, chegavam a matá-las. Atualmente, para acumular riquezas, muitas pessoas se envilecem, não hesitam em abrir mão da própria dignidade, cometem injustiças e violências de todo tamanho, o sacrificar-se pelo outro se exauriu em sacrificar-se somente por si mesmo e, se preciso for, pode ser que tirem a vida de seres inocentes lançando-os nas mãos da crueldade e violência repugnante.

São Paulo dizia de forma muita bélica : “A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se alegra com a injustiça, mas folga com verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre(1 Cor 13, 4-7).  O reino de Deus é uma mesa aberta onde podem sentar-se para comer até os pecadores. Jesus quer comunicar a todos o que ele vive em seu coração quando se senta à mesa com publicanos, com prostitutas, com leprosos, com mendigos, enfermos recém-curados ou pessoas indesejáveis da época de pouco respeito moral. Como afirma Dom Henrique Soares: “[…] A esperança é uma virtude teologal que fundamenta tudo em Deus; a segurança apoia-se presunçosamente no homem. […]” (2017, p. 76).

Jesus não convida à libertinagem. Não justifica o pecado , nem a corrupção, nem a prostituição. Jesus não busca suavizar a parcela de culpa que cada um tem de seus atos cometidos, o que ele faz é romper o círculo diabólico da discriminação, abrindo um espaço novo para o encontro amistoso com Deus (Mt. 11, 28-30). Deus sabe perdoar a quem se arrepende. Mas todo perdão exige renuncias. As pessoas iam à procura de Jesus, não somente pelo simples fato dele perdoar os pecados, mas viam nele alguma coisa de diferente, não era um homem qualquer, o seu olhar manifestava esperança. Deus é assim. Não espera que seus filhos e filhas mudem. É ele quem começa oferecendo esperança, sendo ele mesmo a esperança.

Jesus não muda a vida das pessoas que se aproximam dele de forma revolucionária, mas através do anúncio do reino de Deus que deve se fazer presente nos corações dos homens. Somente quando o homem for capaz de mudar sua mentalidade sobre suas ações, o seu coração será permeado por este reino anunciado por Jesus. O que Jesus anuncia não é algo distante dos olhos dos homens, mas é algo que se faz presente em suas vidas. Deus se faz presente e partilha da vida do homem por meio de seu Filho. A graça de Deus só acontece quando o homem se abre para esta graça. Mas, quando o homem se fecha a esta graça tudo começa a desandar em sua vida, a escuridão do egoísmo e do individualismo se tornam mais presentes de forma petrificada em sua vida. Só o amor mobiliza, faz andar, correr. O amor é a alma de todo o agir e, mais radicalmente, de todo o existir.

No conhecido grito do louco estonteante: “Deus morreu!”, a humanidade se esvaíra em sua loucura de substitui o trono que é somente reservado a Deus por causa de seu imenso egoísmo guiado pela busca do poder. O trono de Deus é o serviço aos outros, é o esvaziar-se de amor por aqueles que não os ama. O ser humano ecoa em seus lábios o mesmo eco que o anjo decaído pronunciou por causa de seu orgulho: “[…] E, no entanto, dizias no teu coração: ‘Subirei até o céu, acima das estrelas de Deus colocarei meu trono, estebelecer-me-ei na montanha da Assembleia, nos confins do norte. Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo.’ (Is 14, 13-14). Para o homem hodierno, é preciso decididamente sufocar toda busca de uma verdade última. Viver a “morte de Deus” é viver de forma substancial, é viver o feito libertador, é justamente o abrir caminho à afirmação extrema do homem e de suas possibilidade. Deus é o “nada”: o nada mascarado, dourado, sacralizado. Deus é, em relação à vida, o sentido fictício, falso, enganoso, pernicioso. Assim, a humanidade, vivendo até agora sob a ideia de Deus, viveu sob o signo da ilusão e da mentira.

O Jesus que atua como “profeta escatológico” é o mesmo que promove a “mudança social” exigida pela vinda do reino de Deus: ele o faz movido pelo Espírito de Deus, que o impele também a curar a enfermidade e oferecer o perdão; Jesus não só anuncia o reino de Deus definitivo, mas também sua presença atual na busca de sua justiça, como bem afirma Clodovis Boff: “[…] No cristianismo, não existe amor sem verdade, como não existe verdade sem amor. […]” (2017, p. 124).  Jesus não deixou atrás de si uma “escola”, no estilo dos filósofos gregos, para continuar aprofundando-se na verdade última da realidade. O cristianismo não é uma filosofia de vida, mas é um compromisso radical em assumir na carne o projeto de Deus anunciado e vivido pelo seu Filho Jesus Cristo. Jesus simplesmente manifestou aos olhos humanos a realidade esquecida pelos homens, o projeto de Deus. A esperança dos homens se fez carne e veio habitar entre eles. Jesus é o verdadeiro homem; nele apareceu o que é realmente ser humano: solidário, compassivo, libertador, servidor dos últimos, buscador do reino de Deus e sua justiça. Ele é o verdadeiro Deus. Nele se torna presente o verdadeiro Deus, o Deus das vítimas e dos crucificados, o Deus do Amor, o Pai que só busca a vida e a felicidade plena para todos os seus filhos e filhas, a começar sempre pelos crucificados. Amar a Deus é ter fome e sede de justiça como ele teve; seguir Jesus é viver o reino de Deus como ele viveu; pertencer à Igreja é comprometer-se com um mundo mais justo, é comprometer-se com a esperança do outro.

Referência:

Bíblia de Jerusalém.

BOFF, Clodovis. Experiência de Deus e Outros Escritos de Espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2017.

SOARES, Dom Henrique. Escatologia: sobre o fim do mundo. Olinda: Livro Rápido, 2017.

Por: Seminarista Francisco Adolfo Santos de Lima; primeiro ano de teologia.

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