A importância do estudo filosófico na formação sacerdotal

O estudo da filosofia é um momento essencial na formação intelectual do futuro presbítero, sendo esta não um mero requisito para os estudos teológicos, mas uma essencial exigência de desenvolvimento reflexivo sólido na vida do formando, uma vez que não estamos vivendo apenas numa época de mudanças, mas uma mudança de épocas, e seu nível mais profundo é o cultural, marcado pelo secularismo, pluralismo, relativismo e subjetivismo.

Os estudos filosóficos constituem como um período fértil na formação daquele que aspira ao sacerdócio, pois esta trará possibilidades de diálogo e confrontos com os não crentes. Através do percurso destes estudos, será possível estimular nos seminaristas o amor à investigação rigorosa da verdade, observação e demonstração, reconhecendo ao mesmo tempo honestamente os limites do conhecimento humano, estabelecendo critérios entre a filosofia e os verdadeiros problemas e questões da vida.

Esta realidade se tornara tão exigente em nossos dias que a Optatam Totius (2001, p. 311) assim o exige:

As disciplinas filosóficas ensinem-se de forma que os alunos sejam levados a adquirir conhecimentos sólidos e coerente do homem, do mundo e de Deus, fundamentando-se no patrimônio filosófico perene, mas tendo em conta as investigações filosóficas dos tempos atuais, sobretudo aquelas que maior influxo exercem na própria nação, assim como o progresso recente das ciências, de modo que os alunos, compreendendo adequadamente a mentalidade  hodierna, se preparem devidamente para o diálogo com os homens do seu tempo.

A exigente e perene formação sacerdotal no nível intelectual, embora esta não seja a única como requisito para a formação sacerdotal, deve fazer com que o formando se torne um anunciador da pessoa de Cristo Jesus, exatamente num tal contexto tão complexo e de uma imensa sensibilidade no que toca a alguns temas tão delicados sobre o ser humano, torná-lo anunciador do imutável Evangelho de Cristo, e digno de credibilidade diante das legitimas exigências da razão humana permeada de tantas perguntas: O que é a verdade? Deus existe? A sua busca ainda tem importância nos dias atuais? Quem ou o que é a verdade? O que é o homem? De onde veio ou para onde vai?

Sem uma boa filosofia não se faz uma boa teologia e sem ambas não se faz um bom desenvolvimento pastoral e nem se responde a tais indagações tão perenes nos nossos dias com valores tão líquidos. Não basta um testemunho ingênuo e superficial com meras palavras sem fundamentos sólidos e argumentos coerentes. Uma fé, sem uma doutrina bem esclarecida, acaba se tornado uma fé de fundamentalismo e permeada de ideologias, gerando sérios fanatismos prejudiciais para o anúncio de Jesus Cristo. A filosofia e a teologia, razão e fé, respectivamente, são as duas asas que nos levam à verdade e a Deus. A filosofia deve instigar o formando na busca do Absoluto, dando-lhe critérios para o julgamento da situação em que vive e do contexto em que se encontra, o qual também tem uma indispensável a par da sagrada ciência como uma atualização para tais contextos.

A filosofia não pode ser considerada como uma disciplina inferior, mas sim como um tempo necessário e valorizado pelo formando na sua especifica finalidade, e não como um tempo simplesmente “passageiro” para ascender aos estudos teológicos. A  filosofia é uma hermenêutica que ajudará ao formando a ter consciência de que a realidade pode ser compreendida e interpretada de diferentes pontos de vista, que não podemos compreender o mundo sem antes buscarmos compreender quem somos de fato. Compreender-me é sempre projetivo como afirmava Heidegger. A filosofia é a possibilidade de refletirmos sobre nós mesmos e sobre o mundo, um movimento que nos impulsiona para o conhecimento das causas últimas e de seus significados, um caminho que deve, como bem afirma a Ratio Fundamentalis (2017, p. 59), nos “[…] dispor dos instrumentos necessários para iniciar, como seriedade e alegria, o caminho que […] conduz a uma maior configuração a Cristo no âmbito da vocação ao ministério ordenado

A fé cristã se funda não em simples interpretações, mas em fatos histórico-salvíficos, sobretudo na encarnação do Filho de Deus, em sua morte e em sua ressurreição, tudo por amor a nós homens e para a nossa salvação. É em virtude desse caráter positivo-factual que a fé cristã não se deduz de qualquer lógica racional, é irredutível a qualquer hermenêutica e refratária a toda desconstrução. O Papa Bento XVI (2013, p. 7), afirma de forma ímpar a importância da busca pela fundamentação da fé num mundo tão conturbado acerca dos valores humanos: “[…] Fé e razão não são estranhas ou antagonistas; pelo contrário, poder-se-iam comparar a uma obra em dois volumes, na qual o primeiro não pode subsistir sem o segundo, porque são reciprocamente; interagem e se completam mutuamente […]”. A formação filosófica do candidato ao sacerdócio é assegurada pela própria Igreja, a qual deve estar baseada num patrimônio perenemente válido, no intuito de tornar os formandos aguçados em mente e aptos para fazerem os estudos teológicos (Cân. 251).

Uma sã filosofia ajuda o candidato ao sacerdócio a enriquecer a sua formação intelectual com o “culto da verdade”, isto é, uma veneração amorosa pela verdade, que leva a reconhecer que esta não é criada e medida pelo homem, mas é confiada ao homem como dom da Verdade Suprema, Deus. O compreender é a “recompensa” da fé. O intelecto faz referência à fé, mas a fé se expande e culmina na fecunda atividade do intelecto, e por isso deve ser amado apaixonadamente. A quem o procura, Deus se faz conhecer. Sem uma adequada formação filosófica, o estudante de teologia ficaria privado de compreender os próprios fundamentos filosóficos e epistemológicos daquela sacra disciplina, correndo o risco de realizar de forma acrítica seus estudos.

A importância da filosofia na formação dos futuros padres da Igreja Romana está diretamente unida ao desejo humano de conhecer a verdade e organizá-la. A experiência nos mostra que o estudo da filosofia, levado a sério e com grande empenho, ajuda a organizar os nossos conhecimentos e de fundamentar as nossas reflexões, pois vivemos em tempos de relativização de valores, onde se tenta eliminar o Absoluto e privilegiar aquilo que causa conforto e prazer, o privilégio do “aqui e agora”, sem atentar a nenhum tipo de responsabilidade e culpabilidade dos nossos atos. As enxurradas de informações sem nenhuma fundamentação acabam abafando o nível de reflexão, deixando-nos apenas a opção pela opinião pública, fazendo com que as pessoas se tornem marionetes em suas mãos, tornando-as incapazes de refletir sobre suas próprias escolhas e das consequências que a estas competem.

Neste contexto, permeado de relativismo, de ceticismo, ‘fideísmo’, empirismo e etc., precisamos nos educar para uma reflexão mais aprofundada sobre os fatos, orientar os fiéis para uma visão mais em conjunto, no intuito de colocar cada coisa em seu devido lugar. Não temos a pretensão aqui de afirmar que não temos valores em nossos meios, mas que estes estão anarquizados, petrificados, desvalorizados, fragilizados, fazendo com que aos poucos sejam dilacerados e banidos dos nossos meios sociais e familiares. A formação dos seminaristas neste período é de caráter sapiencial da filosofia, que implica o seu alcance autenticamente metafísico, isto é, que seja capaz de transcender os dados empíricos para alcançar, na sua pesquisa da verdade, algo de absoluto, de último, de fundamento, pois a vocação da filosofia é a pesquisa do verdadeiro na sua dimensão sapiencial e metafísica.

Por fim, quem estuda filosofia a sério saberá dar razões e ter critérios abalizados para o julgamento dos eventos e das ideias, que se lançam aqui a ali. Não será como criança, que levada por qualquer tipo de opinião e de falsos sorrisos, deixa-se enganar por falsas doutrinas e de meros sentimentalismos. A filosofia na formação presbiteral precisa colaborar para a formação do senso crítico do candidato, a fim de que ele, em meio a uma situação cultural bastante generalizada que exalta o subjetivismo como critério e medida da verdade, possa refletir a relação constitutiva existente entre o espírito humano e a verdade, essa verdade que se nos revela plenamente em Jesus Cristo, que é a plenitude da Verdade.

 

Por Adolfo Lima, seminarista da Diocese de Crato

 

Referências Bibliográficas

BENTO XVI, Papa. Minha Herança Espiritual. 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2013.

BOFF, Clodovis. Experiência de Deus e Outros Escritos de Espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2017.

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. Tradução oficial da CNBB. São Paulo: Edições Loyola, 1983.

CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. O Dom da Vocação Presbiteral – Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis. Brasília: Edições CNBB, 2017.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Decreto Optatam Totius Sobre A Formação Sacerdotal. São Paulo: Paulus, 2001.

 

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