Enfim chegou maio, o mês de Maria!

Enfim chegou maio, o mês de Maria… Como em toda cidadezinha de interior, as devoções populares misturam-se ao cotidiano das pessoas de forma tão coesa, que acaba sendo impossível separar uma coisa da outra. Em Mauriti, não é diferente.

O mês de maio vem trazendo consigo o abrir das primeiras flores, a garoa que ameniza o calor da madrugada e aquela “cerração” quando o sol ainda está saindo. O relógio da Matriz bate às seis da manhã. Ouve-se, então, vindo da torre da igreja, o entoar das cantigas marianas, aquelas que, lá no fundo, fazem-me sentir a nostalgia de pertença a este lugar.

Lembro-me que, na minha infância, acordava cedo e logo ouvia minha vizinha chamar do portão: “Gabrielzinho, vamos, se não a gente não acha banco pra sentar!”.

Eu deveria ter entre sete e nove anos e acompanhava, com exímia fidelidade, os piedosos exercícios marianos realizados durante todo o mês. Beatriz, este era o nome da minha vizinha, apelidada carinhosamente de “Biata”, levava-me, todos os dias, à igreja, onde, após os piedosos exercícios, acompanhávamos a Imagem de Nossa Senhora de Fátima aos lares das diversas famílias que a solicitavam.

Ainda mantenho vivo na memória o suave perfume das pequenas flores de “rescendência” (não as conheço por outro nome) rosas e outras pequenas flores de cor lilás que algumas senhoras traziam todos os dias e depositavam no andor da Santíssima Virgem. As flores recém colhidas muitas vezes chegavam à igreja ainda cobertas pelo orvalho, o que, não raro, acabava por manchar a imagem de Nossa Senhora.

As senhoras, geralmente, vestiam branco durante os 31 dias do mês e algumas ainda mantinham a piedosa tradição do uso do véu. A casa que iria receber a visita de Nossa Senhora preparava com muita piedade e devoção um belo altar, geralmente na sala, muito bem ornamentado com as melhores toalhas de renda e vestiam as crianças com os famosos “trajes de anjos”, tudo para tentar trazer para a terra um pouquinho do céu.

Na chegada da Imagem, eu ouvia as senhoras, que acompanhavam a procissão, cantarem alegres: “Viva a Mãe de Deus e Nossa, viva nossa Mãe querida, salve, oh Virgem do Rosário, nesta casa recebida […]”.

Logo depois chegava o grande momento: a solene coroação. A imagem era coroada como sinal de entrega do lar aquela que verdadeiramente é rainha.

Posteriormente , a família, alegre com tamanha bênção, partilhava um bom café da manhã que incluía tapiocas, sequilhos e bolos dos mais diversos. E o dia não acabava por aí. Rezavam-se ofícios, ladainhas, jaculatórias e, à noite, ainda haviam as visitas de Nossa Senhora às ruas. Mas isso é assunto pra outro texto…

Por: Gabriel Monteiro

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