Dom Fernando celebra missa no “Campo dos Flagelados” onde diversas pessoas foram enterradas em vala comum na seca de 1932

Dia 21 de junho, às 6h e 30, no local onde funcionou um dos campos de concentração do estado do Ceará, na seca de 1932, conhecido como “Campos dos Flagelados”, Dom Fernando Panico presidiu uma missa em memória dos que ali foram enterrados em vala comum. A missa foi concelebrada pelo Pe. Vileci Basílio Vidal e o Pe. Ranilson Belém, contando com centenas de pessoas, dentre eles os que fazem parte das pastoras sociais da Diocese de Crato.

Os campos de concentração funcionavam, na teoria, com a finalidade de propor trabalho, comida e atendimento médico as pessoas atingidas pela seca, mas na prática se tornavam um espaço de sofrimento que tinha como finalidade deixar os flagelados longe da capital. Sobre isso Dom Fernando lembrou que milhares de pessoas foram dizimadas pelas contradições de uma sociedade que, na prática, defendia políticas de exclusão social, ao invés de promover outras ações humanitárias e criativas, para combater os efeitos da seca no semiárido nordestino.

Missa no Campo de Concentração do Buriti. (Foto: Patrícia Silva)
Missa no Campo de Concentração do Buriti. (Foto: Patrícia Silva)

O bispo disse que “hoje na nossa cidade, não temos mais os campos de concentração dos anos 30, do século passado, mas, infelizmente é doloroso constatar que nos dias atuais não somente nos fazem sofrer os efeitos das costumeiras estiagens que assolam o Nordeste brasileiro, mas também nos causam atrasos e descompassos na nossa marcha de um povo democrático, a falta do exercício da cidadania e a negligência política de promover o verdadeiro progresso. Quando o egoísmo e a corrupção destroem a unidade entre nós, nos segregam a criam campos de concentração ou muros que nos separam, estamos fraquejando como povo, como cidade”.

Dom Fernando ainda fez recordação do segundo Bispo da Diocese de Crato, Dom Francisco de Assis Pires, que neste momento cruel da história, sempre deu o auxilio que podia, visitando o “Campo de Concentração do Buriti”, e designando também sacerdote, o Pe. Antônio Gomes de Araújo, para dar assistência espiritual às famílias dos flagelados.

Para o coordenador dos movimentos sociais da Diocese, Pe. Vileci, celebrar este momento é fazer deste espaço como um lugar místico. “Nós queremos fazer a relação da presença de Nossa Senhora Mãe dos Pobres, fazendo com que este espaço seja um local onde vai se formando uma nova religiosidade popular”.

Celebração da Santa Missa no local onde diversas pessoas foram dizimas no período da seca de 1932. (Foto: Patrícia Silva)
Celebração da Santa Missa no local onde diversas pessoas foram dizimas no período da seca de 1932. (Foto: Patrícia Silva)

O padre ainda disse que relembrar a memória dos flagelados desta seca, faz o povo cristão recordar a história dos Hebreus que foram para o Egito. “Há uma relação do povo de Deus com o nosso povo na atualidade e nós precisamos fazer memória para saber levar essa evangelização na defesa da vida, saber que as pessoas que vivenciaram toda essa situação também se firmam na história presente. Milhões e milhões de pessoas ainda passam fome no mundo e igreja está fazendo uma campanha pela Cáritas Mundial, campanha essa impulsionada pelo Papa Francisco, para levar comidas aqueles que não tem. Começaremos pelo Haiti, onde existe toda uma realidade marcada pelo terremoto” afirmou ele.

A professora Verônica Carvalho, 56, disse considerar este momento de muita importância por estar demostrando a religiosidade do povo. Falou da esperança que tem de que este ato possa se tonar uma tradição dando aos habitantes do Crato, e de outras regiões, a oportunidade de conhecer a real história do município, história esta, segunda ela, que não são contadas das escolas. “É história do povo oprimido, sofrido que vai ser contada para toda a sociedade” disse.

A cerimônia aconteceu no dia em que o município do Crato completou 250 anos de emancipação política e também dia em que a cidade inaugurou a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, um dos maiores monumentos religiosos do mundo.

Os campos de concentração

Os campos de concentração que tinham em si a ideologia de combater as consequência s da seca no Nordeste funcionavam como um mecanismo de colocar os flagelados perante situações de muita fome, sede, doenças e morte. Segundo Dom Fernando o real intuito dos campos era “poupar as elites do incômodo convívio com retirantes sem trabalho, famintos e doentes, em busca de meios de sobrevivência”.

Foram construídos 7 campos de concentração em todo o Ceará: Crato, Cariús, Senador Pompeu, Quixeramobim, Ipú e 2 menores em Fortaleza. Porém o que recebeu mais flagelados foi o localizado em Crato, sendo mais de 16 mil. Essa multidão foi concentrada num espaço precário a seis quilômetros da então pequena cidade de Crato. Sendo o número dos flagelados do Campo do Buriti maior que a própria população existente na cidade do Crato, naquele ano de 1932.

Missa campal pelo flagelados da seca de 1930. (Foto: Patrícia Silva)
Missa campal pelo flagelados da seca de 1932. (Foto: Patrícia Silva)

A realidade dos sertanejos era cruel. Os habitantes do Campo do Buriti trabalhavam apenas em troca de comida para sobreviver. As atividades familiares funcionavam desta forma, explica Dom Fernando, “os homens passavam o dia ‘batendo tijolos’. As mulheres tomavam conta das tarefas domésticas, cozinhando a farinha de péssima qualidade que era à base da alimentação das famílias ‘concentradas’. Os jovens e crianças viviam ociosos, perambulando em meio ao estreito espaço que separavam as palhoças e tugúrios feitos de taipa, cobertos de palha com o chão batido”.

Muitos foram os habitantes do Campo do Buriti morreram de extrema miséria, inanição e epidemia da peste. Este campo dos flagelados da seca ficou conhecido também como “Campo dos Apestados”.

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