Diocese Romeira, Missionária e Centenária

HOMILIA NO ENCERRAMENTO DO CENTENÁRIO
Dom Fernando Panico

“Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém!

O Senhor está no meio de ti”.

Estas palavras do profeta Sofonias são para nós, Diocese de Crato, aqui reunida para agradecer e fazer memória da nossa história diante de Deus. A certeza da presença do Senhor em nosso meio enche-nos de alegria, pois a história de cem anos de existência desta Diocese é a história do seu amor para conosco. Viemos aqui para agradecer, louvar a Deus e fazer memória da nossa caminhada.

Cada um de nós tem uma história: de graça, de pecado, de caminho e nos faz bem rezar com a nossa história. Precisamente como São Paulo, ao narrar um pouco da sua história, dizendo: «Ele escolheu-me. Chamou-me. Salvou-me. Foi o meu companheiro de caminho”. Fazer memória da própria vida é dar glória a Deus. É também fazer memória dos nossos pecados, dos quais o Senhor nos salvou; é dar glória a Deus, como nos ensina Papa Francisco.

O Senhor está no meio de nós. A missão da Igreja é a de erguer a tenda de Deus no coração do mundo. Ao longo dos cem anos da Diocese de Crato, o desafio de sermos Igreja missionária e mensageira da Boa Nova recebida de Jesus nos faz reconhecer que a “alegria do evangelho é a nossa missão”. Recordamos com imensa gratidão e veneração as colunas e os luzeiros da nossa Diocese: bispos, sacerdotes, religiosas, religiosos, leigos e leigas. São os trabalhadores da primeira hora; já receberam o prêmio da vida eterna. Fazemos memória de Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, Dom Francisco de Assis Pires e Dom Vicente de Paulo Araújo Matos, os primeiros três bispos baluartes da Diocese, que lançaram as bases para uma Igreja solidária, samaritana e educadora.

Entre os primeiros sacerdotes do centenário estão o Pe. Cícero Romão Batista, Mons. Vicente Sóter, Pe. Joaquim Sóter, Pe. Azarias Sobreira, Mons. Joviano Barreto, Mons. Pedro Rocha, Mons. Montenegro, Mons. Antônio Feitosa, Mons. Murilo de Sá Barreto e tantos outros sacerdotes santos segundo o coração de Cristo, que estão na eternidade. A nós que integramos o atual Presbitério da Diocese de Crato – bispos, padres e diáconos -, importa seguir os exemplos dos nossos Pais e Mestres na fé, e levar adiante, com fidelidade criativa, o que eles começaram.

Mas a Diocese não é só bispos e padres! Queremos neste Jubileu agradecer a Deus fazendo memória de outros nossos irmãos e irmãs da primeira hora. Por exemplo, a Madre Ana Couto, Madre Paula, Madre Esmeraldo e tantas outras religiosas cujo nome está escrito no coração de Deus e no coração do povo. Quantos exemplos de santidade nos relegaram estas Madres e Irmãs dos pobres, preocupadas em servir a gloria de Deus, no serviço humilde e escondido, ao lado dos mais pobres, dos doentes no hospital e nas casas, nas creches, nos educandários… Recordamos o abnegado e glorioso trabalho dos fundadores das comunidades eclesiais de base em nossa Diocese, as lideranças leigas comunitárias voltadas para a promoção da vida social e religiosa do povo, os beatos e as beatas que, com seus exemplos de vida penitente e laboriosa, muitas vezes incompreendida, cultivaram o exercício das práticas da piedade popular, à luz da oração, do trabalho e da vida em comunidade.

Recordamos o Beato José Lourenço, do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, e seus companheiros e companheiras. A nossa Diocese foi aos poucos crescendo na sua missão de educar o povo a viver a alegria do Evangelho. Neste Jubileu nos é grato oferecer a Deus o precioso testemunho da heroína da castidade e filha da nossa Diocese, a Serva de Deus Benigna Cardoso da Silva– a menina educada por um sacerdote santo, o Pe. Cristiano Coelho, Pároco em Santana do Cariri, para ser uma gigante no amor a Deus e à sua Lei.

Louvamos a Deus fazendo memória dos passados cem anos, mas também prepararmo-nos para assumir a graça de um novo tempo e o desafio de iniciar bem um novo século de história de Igreja diocesana. Como é bom louvar a Deus por tudo o que temos e somos. E também, como é esperançoso louvar a Deus pela confiança que ele deposita em nós. Ele é sempre fiel e leva para frente a história de salvação: capacita-nos para um presente – futuro de vida nova, “recordando a sua santa aliança e o juramento a Abraão, o nosso pai, de conceder-nos que, libertos do inimigo, a ele nós sirvamos sem temor em santidade e em justiça diante dele, enquanto perdurarem os nossos dias”. Tudo é graça de Deus. Com espírito de fé e de adoração, iniciemos o segundo centenário da Diocese.

Não garanto que o veremos concluído, mas somos nós os escolhidos pela Providência de Deus para iniciar o discernimento pastoral, descortinando no horizonte da história os apelos de Deus e lançar decididamente as nossas redes para águas mais profundas. Somos muitos, mas formamos um só corpo. Hoje a Diocese é formada por 55 Paróquias em 32 Municípios, com uma população superior a um milhão de filhos e filhas de Deus. Nosso Presbitério reúne dois Bispos: Dom Newton – nosso bispo emérito – e este servidor, com mais de 130 Padres e Diáconos Permanentes. As vocações para a vida religiosa e sacerdotal vivem uma nova primavera, no nosso Seminário Diocesano, na Abadia das Monjas Beneditinas, e nas comunidades de fiéis leigos reconhecidas pelo Bispo como ação do Espírito Santo entre nós. Milhares de catequistas, mulheres e homens, jovens e adultos, vocacionados à vida religiosa, seminaristas, agentes nas diversas pastorais, movimentos e organismos eclesiais, servidores da Caritas diocesana, missionários populares– um exército de seguidores de Cristo, discípulos e missionários do Evangelho.

Queridos irmãos e irmãs, vamos iniciar, com toda confiança, a escrever o Espírito Santo e nós, um novo capitulo do livro dos Atos dos Apóstolos da nossa caminhada como Igreja diocesana. O Espírito Santo nos lembra de que Deus é o Senhor da História. Ele caminha conosco e é um Deus paciente. Deus se serve de nós, pessoas frágeis e pecadoras, para fazer coisas grandes, no seu amor onipotente e indulgente. Esta é metodologia de Deus, conforme é colocada em evidência na descrição da genealogia de Jesus, no Evangelho de Mateus. Comentando esta passagem bíblica, o Papa Francisco nos alerta: Naquela lista de nomes há santos e também há pecadores. Mas a história avança porque Deus “nos escolheu e elegeu para sermos conforme a imagem de Cristo”. Deus nos criou para viver na liberdade de Cristo. Mas no dia em que o homem usou mal a sua liberdade, Deus o expulsou do paraíso, contudo lhe fez uma promessa e o homem saiu do paraíso com esperança: pecador, mas com esperança.

Irmãos e irmãs: não percorremos sozinhos os caminhos da história! Deus caminha conosco até à plenitude dos tempos. Deus caminha com os justos e os pecadores. Além disso, é também o Senhor da paciência com todas as gerações, com todas as pessoas que vivem a sua história de graça e pecado. Igreja de Crato, o nosso Deus é o Deus das surpresas, é um Deus sempre surpreendente o Deus–conosco. E isso vai motivar a nossa Diocese a estar aberta às surpresas de Deus. Deus está preparando muitas surpresas divinas para nós; só não as perceberão e nem se alegrarão com elas aqueles que estão parados, ou os que renunciaram a caminhar. Para a nossa Diocese estar aberta às surpresas de Deus, buscaremos estar acordados, prontos para entender os sinais dos tempos e sermos fiéis à voz do Senhor que se manifesta nesses sinais.

O Senhor está no meio de ti, Diocese de Crato. Que a presença do Senhor Ressuscitado conforte e oriente os nossos passos de peregrinos do céu. Somos uma Igreja que caminha, uma Igreja romeira e de romeiros. Não nos esquecemos disso: somos um povo em caminho. Sim, em caminho! E quando alguém está em caminho, sempre encontra coisas novas, coisas que não conhecia. É o fascínio da missão que arrebata e encanta o apaixonado pela manifestação do Reino de Deus, que é reino de justiça, de amor e de paz. O Papa São João Paulo II dizia que a alma da missão é o Espírito Santo. E o Espírito Santo é o Amor de Deus que transforma tudo e faz novas todas as coisas, um novo céu e uma nova terra.

Pelo dom deste Ano Jubilar no primeiro centenário da Diocese e pelo espírito participativo vivido em todas as Paróquias e comunidades, – como o apóstolo Paulo – «damos continuamente graças a Deus por todos vós, recordando-vos sem cessar nas nossas orações» (1 Tes 1, 2). Meus queridos: com a graça de Deus e com a proteção de Nossa Senhora da Penha, Excelsa Padroeira da nossa Diocese, deixemo-nos guiar e surpreender pelo Espírito Santo. Segundo uma antiga oração litúrgica, o Espírito Santo é a remissão dos pecados. Chamados por Deus para escrevermos juntos uma nova página da história da Igreja nesta Diocese, o Espírito Santo deseja antes de tudo apaziguar os nossos espíritos, quem sabe amargurados e fechados, ou com dificuldade para perdoar e pedir perdão.

Este é o dia que o Senhor fez por nós, preparado com paciência e misericórdia por Deus nosso Pai, para que acolhamos a graça do Jubileu na plenitude da sua proposta bíblica, ou seja, perdoar as ofensas, estender a mão aos nossos desafetos, aprender a valorizar o bem que neles existe e a buscar o que mais nos une, e relevar o que nos desune. Na nossa vida humana, familiar e social, nos relacionamentos com o próximo, e – infelizmente – até na nossa Igreja, podem acontecer entre nós suspeitas, mal-entendidos, fofocas, situações de conflito ideológico, preconceitos, antipatias, rejeições, calúnias, maus juízos, e outras coisas que vem do maligno e que podem degenerar em ódio, rancores, indiferenças, fechamentos no egoísmo, tristeza, vinganças e perseguições.

O amor humano e cristão consiste em cuidar; partilhar; compreender; ser presente; estar atento; saudar; falar; perdoar; dar-se aos outros. É lutar por novos modelos de sociedade, onde a proximidade se substitua à solidão; onde a fraternidade assuma o lugar da concorrência; onde o respeito pela diferença religiosa se afirme como um direito; onde a repartição dos bens tenha primazia diante da concentração excessiva na posse de poucos; onde a justiça, o respeito e o carinho pelos que sofrem estejam primeiro.

Sem amor é impossível caminhar juntos, pois o ódio nos divide. Quem vive sem amor está fora da graça de Deus, da comunhão com Deus e com a Igreja, porque Deus é Amor e quem ama permanece em Deus e Deus nele. E o Apóstolo São João (1Jo 3,15) é mais incisivo: “Quem odeia o seu próximo, o seu irmão, é homicida”.

Num outdoor em Crato, ainda este ano, li uma mensagem muito bela e sugestiva, desejando boa Páscoa nestes termos: “Perdoar não significa esquecer. Perdoar é lembrar sem ter mágoas”. São Paulo na 1ª Carta aos Coríntios escreve: “Se não tiver caridade não sou nada… A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Queridos irmãos e irmãs, peço-lhes perdão de coração se fui motivo de tropeço para vocês. Eu também lhes dou o meu perdão. Amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. Rezem por mim. Eu rezo por vocês. Como São Paulo declarou aos cristãos de Filipe, eu também lhes digo: “Esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço-me em direção a meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber”. No Cristo Jesus” (Fl 3, 14). Ajudemo-nos uns aos outros a caminhar para alcançar a meta da nossa romaria no céu.

Corações ao alto, Igreja de Crato. Vamos iniciar com convicção e vontade um novo século de história da nossa Diocese, buscando com sinceridade o caminho da unidade na verdade, como Jesus pediu ao Pai na oração sacerdotal no Cenáculo, antes de deixar este mundo. Caminhemos unidos e, avançando juntos nas estradas do Reino de Deus, como Igreja romeira e missionária, testemunharemos a surpresa do Espírito entre nós e no mundo. “Onde há amor e caridade, Deus aí está”.

“Deus nos conduz por caminhos imprevistos”, disse esta manhã o Papa Francisco, na celebração da beatificação do Papa Paulo VI. Num “tempo de aumentadas dificuldades internas e externas, meu desejo e minha prece é fazer da nossa Igreja Católica local uma diocese “perita em humanidade”, recordando a “sábia e santa expressão do Bem-aventurado Paulo VI.

Coloco no coração da Mãe de Deus, a Mãe do Belo Amor – Nossa Senhora da Penha – este sonho de um novo século de ação evangelizadora na nossa Diocese de Crato, renovado pastoralmente pela busca de uma sincera caridade fraterna, ao serviço da alegria do evangelho, como nos exorta e testemunha o Papa Francisco. Que este Ano jubilar nos projete no caminho para uma ação pastoral de uma Igreja que vai ao encontro de todos, sem a ninguém esquecer ou excluir. AMÉM

Crato, 19 de Outubro de 2014.
Dom Fernando Panico M.S.C.

 

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