Foto: Reprodução

Crônica: “Tiraram o Menino”

Sempre que finda meu expediente, vou à Catedral do Crato saudar a “Virgem Pura Rosa” que fulgura naquele altar.

Na volta, deparei-me com uma senhora mediana, na casa, talvez, dos setenta anos, contemplando o presépio, exposto ao lado da Capela do Santíssimo.

A expressão dela era ao mesmo templo contemplativa e questionadora. Atrevida que sou, desviei o trajeto, e fui puxar assunto:

– Tá sentindo falta de alguma coisa?

– Minha fia, pois tiraram o menino! – Ela respondeu muito indignada. E sem me deixar tempo para formular alguma explicação, pegou as sacolas e foi embora.

Olhando para o presépio, lembrei que aquela ausência – a imagem do Menino Jesus – é simbólica. Na noite de Natal ela aparece, para que a gente possa perceber os encontros e celebrar a permanência.

Mas a frase “tiraram o menino” é forte. Perturbadora até. A gente se demorando nela, espantosamente, percebe que se encaixa bem nestes tempos estranhos, de muita pressa, pouco afeto e muita descrença e  relativismo.

“Tiraram o menino” dos gestos cotidianos e, por isso, há guerras e competições.

“Tiraram o menino” das relações interpessoais e, por isso, o outro é descartável ou só interessa quando traz alguma vantagem.

“Tiraram o menino” dos sonhos e, por isso, eles fracassam ou esmorecem.

“Tiraram o menino” de tantas situações que nem dá para enumerar.

Mas o coração humano é manjedoura onde podemos (re) colocar o menino. Acreditar nisso ajuda a fazer do mundo um lugar melhor, porque o menino é a própria esperança.

Por: Patrícia Mirelly, jornalista e repórter na Assessoria de Comunicação da Diocese de Crato

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