Crônica para um fim de tarde: Deus te abençoe

Ela tinha seis anos, mas parecia já compreender a largueza e a simbologia do “Deus te abençoe”, aquela expressão que ouvimos quando estendemos a mão, pedindo alguma bênção. No caso da menina, só dormia depois de ouvir o tio dizer “Deus te abençoe”. A frase era mais eficiente que cantiga de ninar.

Prova disso foi que, uma noite, a hora já avançada, nenhum pé de gente do lado de fora, as luzes da vizinhança todas apagadas e nada do tio chegar para abençoar a menina. Percebendo a demora, depois de fracassar em todas as tentativas de fazer a menina dormir, a mãe, telefona, aflita: “Ei! Desce! Se não ela não dorme…”.

Quando o tio, enfim, apareceu, os olhos da menina brilharam mais que lua cheia em estrada deserta. Abriu o maior sorriso que pode e depressa estendeu a mão, para que o tio a beijasse e proferisse logo “Deus te abençoe”.

A frase, mais eficiente que cantiga, fez a menina dormir num piscar de olhos, como se o sono já estivesse ali, ao seu lado, mas, acostumado a ser conduzido pela voz do tio, só aparecia depois de ouvir “Deus te abençoe”.

A menina, filha de mãe sozinha, não só achou no “Deus te abençoe” do tio motivos para substituir a figura de um pai, como também conseguiu enxergar a simbologia da bênção. O gesto, aos olhos da mãe, era só um ato costumeiro, mas a menina foi além: fez dele cantiga, para embalar os sonhos, para embalar a vida.

Por: Patrícia Mirelly/ repórter na Diocese de Crato

 

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