As três fontes da Revelação Divina para a Igreja – Parte II

Sagrada Tradição

O modo como Cristo, Palavra expressa da Revelação, permanece presente na História e vai ao encontro dos homens pertence àquelas questões fundamentais, em torno das quais se dividiu a Cristandade ocidental, no século da Reforma. A luta prende-se à idéia de “Tradição”, pela qual a Igreja católica procurou exprimir certa forma de comunicação da Revelação, ao lado da outra contida na Sagrada Escritura. Isto, com o fim de desfazer um duplo protesto. A Tradição designava primeiro as chamadas consuetudines ecclesiæ, tais como a santificação do domingo, a oração voltada para o Oriente, o costume de jejuar, as várias bênçãos e consagrações e outras práticas semelhantes em vigor na piedade dos fiéis, ao tempo da baixa Idade Média. Tais práticas ora nobres, ora ridículas, embora transformassem a Igreja numa espécie de casa assombrada, cheia de ângulos e cantos, justificavam-se sob o título de “tradição” e legitimavam-se como parte essencial da vida cristã.

Lutero preferiu não ver na Tradição nada mais do que ninharias com as quais a humanidade se ilude e aparentemente se consola, buscando uma evasão ante o abuso da própria existência. Ainda mais: ele viu na Tradição o retorno da Lei, o predomínio do arbítrio humano sobre a palavra de Deus, abuso contra o qual Paulo protestara com tanta veemência e que agora, de novo, se implantara na Igreja. Tradição, segundo ele, é lei humana, pela qual o homem se esconde de Deus e, pior ainda, se levanta contra Ele, para tomar nas próprias mãos a tarefa de sua salvação, em vez de esperá-la da libérrima graça do Senhor. A Tradição assim entendida como Lei é contraposta à mensagem da graça.

A tese de Geiselmann se apoia em uma interpretação nova do sentido dado pelo Concílio ao conceito de Tradição: a verdade do Evangelho está contida nos livro escritos e na tradição não escrita. Logo, não é possível admitir a sola Scriptura, uma vez que uma parte da Revelação nos é transmitida somente pela Tradição. ´Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam´(Jo 21,25). Essas passagens deixam claro que os evangelistas e Apóstolos só escreveram o ´essencial ´ da mensagem de Cristo, ´ para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome´. Vemos assim que a própria Bíblia nos encaminha para as fontes orais da Palavra de Deus; isto é, a Tradição oral que a berçou.

O concílio abandonou a expressão parte e adotou simplesmente o conectivo “e”, afastando-se, assim, da ideia da divisão da verdade em duas fontes diversas (ao menos não explicitamente). A Escritura e a Tradição não podem [24] ser entendidas uma sem a outra, no sentido que ambas têm, à luz da fé. O problema “Escritura e Tradição” permanecerá insolúvel, enquanto não for reduzido a uma só questão, a saber, a questão “Revelação e Tradição”, e inserida, enfim, no amplo contexto a que pertence. O Magistério da Igreja extrai todo o ensinamento que dá aos fiéis, da Revelação Divina, que se compõe da Tradição (oral) que veio dos Apóstolos e da Tradição (escrita), a Bíblia. É sobre essa Tradição (escrita e oral), com igual importância nas duas formas, que o Magistério assenta seus ensinamentos infalíveis.

O nosso Catecismo explica assim: “Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é chamada de Tradição enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora intimamente ligada a ela. Através da Tradição, “a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê (DV, 8)”. (CEC n.78) “A Tradição da qual aqui falamos é a que vem dos Apóstolos e transmite o que estes receberam do ensinamento e dos exemplo de Jesus e o que receberam através do Espírito Santo. Com efeito, a primeira geração de cristãos ainda não dispunha de um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento atesta o processo da Tradição viva.” (CEC n.83)

A Revelação exprime propriamente o falar e o agir de Deus em relação aos homens. Designa uma realidade expressa pela Escritura, sem ser, contudo, a própria Escritura. A Revelação, por conseguinte, ultrapassa a Escritura na mesma medida em que a realidade ultrapassa a sua expressão escrita. Isto era, aliás, bem sabido dos próprios Reformadores, mas começou visivelmente a ser esquecido no aceso da controvérsia entre a teologia católica pós-tridentina e a ortodoxia protestante[1].

Isto fica ainda mais claro ao partimos do princípio de que a Escritura pode ser possuída sem que se possua a Revelação. Isto porque a Revelação é sempre e em primeiro plano uma realidade, a realidade onde se encontra a fé. Aquele que não crê acha-se como que coberto por um véu, o véu de que fala São Paulo no terceiro capítulo da segunda epístola aos Coríntios.

Na origem de toda Tradição está o fato de que o Pai enviou o Seu Filho ao mundo e que o Filho, por sua vez, se entregou – como sinal – aos “povos”. Esta parádosis original, em sua força direta e salvadora, prolonga-se na permanente presença de Cristo, no Seu Corpo, a Igreja. Assim o mistério integral da presença de Cristo é, antes de tudo, a realidade total transmitida pela Tradição (fato fundamental e decisivo, sempre anterior a todas as explicações particulares, mesmo as da Escritura) e reguladora do que deve propriamente ser transmitido.

A Tradição existe concretamente como presença na fé. Esta, por seu turno, como “in-habitação” de Cristo, precede todas as explicações particulares e, frutuosa e viva, “explicita-se”, através dos tempos. A Tradição tem seu órgão na plenitude dos poderes da Igreja e, portanto, naqueles que são os legítimos depositários destes poderes. Ela exprime-se também naquilo que, emanado da autoridade da Igreja, se tornou regra de fé.

Portanto, a questão de se saber se certas proposições foram transmitidas desde o começo pela Tradição, ao lado da Escritura, ou, em outros termos, se existe, desde o começo, um segundo princípio material e autônomo, ao lado da Escritura, torna-se, afinal, um problema inteiramente secundário.

É oportuno fazermos ainda uma pequena observação: se cotejarmos atentamente a teologia eclesiástica do Novo Testamento com a Dogmática, reconheceremos que se impõe uma outra distinção. A Dogmática, como ciência, além da exposição eclesiástica do Novo Testamento, abrange também a teologia particular de cada teólogo. Neste caso, para se falar com precisão, dever-se-ia apresentar somente o próprio dogma como teologia eclesiástica do Novo Testamento.

[1] Cf. A. GLOEGE, Schriftprinzips RGG, V, 1540-1543, onde se encontrará a mais completa bibliografia. LthK, VII, 1104-1115 J. R. GEISELMAN, Offenbarung, in: H. FRIES, Handbuch zum Begriff der Offenbarung, cf. M. VERENO – R. SCHNACKENBURG – H.RIES, in: Theologischer Grundbergriffe, II, Munique, 1963, p.242-250 e a bibliografia aí citada.

Por Ailton Bento Araruna, aluno do segundo ano do curso livre de Teologia no Instituto Diocesano de Filosofia e Teologia São José. E-mail: [email protected].

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