A conversão como honestidade perante Deus

Não podemos compreender o amor de Deus como mão que nos retira da consequência das escolhas que fazemos. Deus é amor, mas é justiça também. Todo pai que ama seu filho nunca o priva das consequências de suas escolhas. Da mesma forma é Deus, Ele sempre nos adverte diante das nossas escolhas, mesmo que estas sejam contrárias as suas vontades, pois até Deus se detém diante da nossa liberdade.

Diante de Deus devemos ser inteiros e honestos, sem máscaras, sem maquiagens, sem rodeios. Conversão é deixar que Deus tenha total acesso ao nosso coração, é permitir que ele transite em nosso meio quando e onde quiser, é permitir que Ele acesse o mais intimo do nosso coração. É partilhar das nossas dores e sofrimentos. É fazer de sua vontade a nossa vontade. Coversão é sermos honestos com Deus e com nós mesmos.

Deus sempre cuida do ser humano de forma responsável e amorosa, em Deus não há farsa e nem contratempo, nele não há estações e nem contrariedades, mas vida em abundância. Talvez seja por isso que defini-lo seja um grande risco de aprisioná-lo nas nossas limitudes. Definir é estabelecer uma cerca, impedindo que a realidade seja compreendida de outras formas, delimitando desta forma o significado para acalmar nossa mente tão ávida por definir o indefinido.

A crença em Deus deve ser algo que nos remeta as coisas do alto, como já afirmava São Paulo aos Colossenses: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (3, 1). Buscar a Deus nos remete a uma conversão diária das nossas práticas, das nossas atitudes que até então eram contraditas com nossas palavras. A conversão se torna mais fácil por meio das palavras do que por meio das atitudes, estamos cheios destas no nosso dia a dia. Mudanças no jeito de falar, no que se ouve, no olhar sem tanta pressa e sem tantos julgamentos, enfim, mudanças que abarcam a totalidade humana.

Nossa conversão não acontece somente quando nos ajoelhamos aos pés do padre e contamos tudo aquilo que consideramos pecado ou não, e depois nos dizemos arrependidos, mas principalmente quando somos capazes de julgar menos, de falar menos e escutar mais, de purificar os nossos olhares dia a dia, em um simples bom dia ou em um agradecimento por tal atitude bondosa que nos afeta, de retirarmos das nossas casas as novelas e programas que vão contra as regras de educação estabelecida pela família, dos litros de álcool que costumamos ingerir de forma “social” aos olhos dos nossos jovens.

Conversão também anda em meio as panelas, das conversas estabelecidas em meio a cozinha, nos alimentos oferecidos que preparamos para os nosso filhos, da refeição partilhada em meio a mesa, dos celulares distantes no momento de partilhar o pão, da partilha dos acontecimentos da vida e que hoje nos causam gargalhadas, do acolhimento ao vizinho que nos veio deixar um pedaço de lasanha acompanhada por um litro de refrigerante. Estar à mesa com o outro é sinal de intimidade, os Judeus sabem muito bem disso, pois somos herdeiros desses costumes.  Refeição saudável é um jeito honesto de pedir a deus que nos conserve em uma boa saúde. Este milagre somente nós podemos realizar quando deixamos que Deus habite nos nossos corações e faça morada em nosso meio.

A conversão também passa pelo cuidado com nós mesmos e com o nosso corpo. Gorduras acumuladas podem ser sinais de um mau estabelecimento de disciplina. Não pensemos que pedir a Deus bastará para emagrecer ou fazer inúmeras novenas para conseguir um corpo sarado da noite para o dia. A oração deve ser sempre acompanhada com sacrifícios. Não temos relatos ainda de pessoas que rezaram suas novenas e no outro dia estavam magras, a não ser que estas foram rezadas correndo. Crer na interversão de Deus só é honesto mediante o nosso comprometimento. A reza é necessária, mas a responsabilidade do comprometimento também. Deus faz a sua parte, também devemos fazer a nossa.

Não podemos ser infantis e achar que Deus irá fazer todos os nossos desejos. Deus não é um gênio da lâmpada mágica que fica a espreita pronto para nos atender e realizar os nossos desejos quando e onde quisermos. Orações não nos livram de nossa responsabilidade que se desdobram em atos concretos, nem tão pouco pode estar a serviço da nossa preguiça. Nós podemos ser absurdos com esta história de que Deus fará tudo por nós, acredite, Deus tem mais o que fazer do que estar preocupado com aquilo que nós mesmos não nos preocupamos.

A oração dirigida a Deus deve ser de uma intima interação, uma conversa entre amigos. Oração é justamente isto: andar pelas veias um do outro. Somente uma verdadeira amizade nos permite andar e desvendar o coração do outro, por isso que Jesus atrai a tantas pessoas, justamente pelo simples fato de revelar um amor que até então as pessoas desconheciam. O único amor que estas pessoas conheciam era somente o desprezo e a exclusão por partes de pessoas que tinham a responsabilidade e o compromisso de anunciar que Deus também anda pelos corações dos pobres e dos marginalizados.

Cuidado humano é de responsabilidade humana. Os pobres só serão cuidados por Deus se nós humanos manifestarmos este cuidado, não que Deus simplesmente dependa de nós para o seu agir, mas pelos simples fato de sermos pontes para este amor enraizado na pessoa de Cristo Jesus. Deus não descerá do céu novamente para fazer o que é de responsabilidade humana, o exemplo de vida perfeita está estampada em nossa cara dia após dia, assim como nós não podemos subir ao céu para fazer o que é de ordem divina. O nosso lugar é a história, é na terra, é concreta que nos remete ao celeste. É a vida, a terra, a carne, o sangue.

Se nossas ações não se transformarem em atitudes concretas o amor de Deus pelo ser humano ficará desmoralizado. Por isso que obter ainda mais conhecimento daquilo que professamos pode ser tornar perigoso. Tomar consciência daquilo que professamos exige de nós a cada momento uma conversão diária, uma mudança de atitude no nosso agir perante nós mesmos e perante os outros. As pessoas que acorriam ao encontro de Jesus nunca permaneciam as mesmas. Quando abrimos as portas do nosso coração e deixamos Deus trilhar por ele, nunca mais permanecemos os mesmos. Deus é douto em fazer varredura nos corações feridos.

Este é o grande ensinamento da parábola da mulher adúltera narrado no evangelho de são João: “[…] Os escribas e os fariseus trazem, então, uma mulher surpreendida em adultério e, colocando-a no meio, dizem-lhe: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?” (8, 3-5). É esta parábola nunca perderá o seu centro principal que é sempre olhar o outro com um olhar de misericórdia. Certamente esta mulher antes de ser apresentada a Jesus fora apresentada à morte. Não a morte biológica, mas a morte de sua pessoa como filha de Deus, de seu significado, de seus valores, morte por palavras que a nivelavam pouco a pouco e que a preparava para um fim cruel e horrendo. Ela era condena por quem já estava condenado em suas próprias palavras e em seu próprio egoísmo. O ódio sempre se torna anunciador e antecipador de uma vivida que não vale a pena ser vivida. O ódio é a negação da vida. O ódio é a negação da misericórdia de Deus.

Ferida, ela espera ajuda, carece de ser cuidada e ser curada. Seus olhos buscam atrelar-se a uma palavra de misericórdia a qual não encontrará por aqueles que estão ao seu redor. Certamente ela já sabia qual seria a sua sentença, estava preparada para o pior. Talvez o “pior” tenha sido seu único companheiro de vida. Jesus intervém como anunciador da misericórdia infinita de Deus pelo ser humano. A mulher fora surpreendida por àqueles que a encontraram em adultério e a julgaram de forma antecipada a pena de morte. Já Jesus a tornará livre das garras do pecado e da morte. Estas duas andam juntas e demãos dadas. Jesus sabia que para àquela geração corrupta, a vida daquela mulher não tinha valor algum. Ninguém se importava com as condições que a levaram àquele pecado. O olhar de Jesus é arrebatador. Através do olhar de Jesus esta mulher pôde contemplar o olhar de Deus. Ela fora embora perdoada por Deus, mas sua vida nunca mais seria a mesma. Deixar que Deus ande pelo nosso coração é correr o risco de não mais permanecer o mesmo.

O teólogo Pagola dizia de forma muito bela que Jesus senta-se à mesa com os pecadores não como juiz severo, mas como amigo acolhedor: “[…] Jesus não convida à libertinagem. Não justifica o pecado, nem a corrupção, nem a prostituição. O que ele faz é romper o círculo diabólico da discriminação, abrindo um espaço novo para o encontro amistoso com Deus” (2013, p. 248). O reino de Deus é graças antes de ser juízo. Deus deve ser uma boa noticia, não uma desgraça. Não precisamos temer a Deus, não precisamos nos esconder d’Ele, mas abrir-se ao seu perdão é antes de tudo mudar em todos os aspectos da nossa vida. Com Jesus tudo é possível.

Oração e ação devem andar de mãos dadas. A oração deve nos remeter diariamente a uma mudança de vida constantemente, a ação deve ser concretude daquilo que rezo, elas devem nos fazer acreditar que este mundo ainda tem jeito e nos encher de esperança, como bem afirmava de forma bélica o poeta: “Esperar é uma forma de crer em segredo. É acreditar, sem o alarde do rito, que o Cristo não se opõe aos fracos, ao contrário, se dispõe, generoso, à porta do nosso pecado, a esperar por nós” (2012, p. 24). As pessoas já estão por demais condenadas. Não precisam de juízes que as indiquem ao inferno ou ao paraíso. Precisam apenas de pessoas que compartilhem das suas dores, das suas lágrimas e sofrimentos, precisam de pessoas com disposição de se comprometerem a descobrirem quem de fato elas são. Somente que tem coragem de adentrar nestes mistérios poderá mover o mundo por meio da proposta do evangelho de Jesus Cristo. Somente quem tem a coragem de mergulhar na proposta de Jesus e nos seus ensinamentos compreenderá o incompreensível, acolherá o incoerente, o imperfeito, o precário e o ilógico.

 

Bibliografia:

Bíblia de Jerusalém

PAGOLA, José Antonio. Jesus: aproximação histórica. Trad. Gentil Avelino. 6. ed. Petrópolis, RJ: vozes, 2013.

MELO, Pe. Fábio de. É Sagrado Viver. São Paulo: Planeta, 2012.

 

Por Adolfo Lima, Seminarista da Diocese de Crato

 

 

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